Brasil

Falece Luiz Carlos Fabrini, o narrador que deu voz à essência do futebol na Rede Vida

A quem se importa com o futebol, não necessariamente craques ou camisas pesadas, a Rede Vida sempre foi uma acolhedora casa a fanáticos. Era um caminho a sentir a paixão que sobrevive nos estádios do interior, o talento que desabrocha nas competições de base, a essência que vai muito além do glamour. Àqueles que adotam um “clube pequeno” para pintar seu coração, então, se torna uma honra ver os jogos das divisões de acesso do estadual televisionados a todo país. Não é uma mera questão de vaidade, longe disso. É o orgulho de saber que outras pessoas poderão sentir emoções parecidas com as suas. Que poderão compartilhar o valor daquela camisa, por vezes desconhecida e quase sempre pouco acompanhada.

Desculpe tomar o discurso pessoal aqui, mas faço isso para que talvez você também se identifique. Eu torço para o São José – uma questão de ligação com as próprias raízes. Torcer para a Águia, mais do que uma questão de escolher uma camisa, é se manter fiel a quem sempre fui. Quando era possível, lá estava eu no Martins Pereira ou qualquer outro estádio como visitante. Quando não era, tantas vezes, a Rede Vida encurtou essa distância. E a voz de Luiz Carlos Fabrini ajudou a traduzir esses sentimentos.

O narrador era o célebre representante desse futebol que ganha espaço, independentemente de passar longe da elite. O homem que melhor representava o esporte na Rede Vida. Fabrini permaneceu por anos como o locutor principal da emissora do interior de São Paulo. Aquela voz que, de imediato, se relacionava aos mais profundos rincões do futebol brasileiro. O tom firme de seus relatos e o conhecimento amplo do futebol do interior eram suas marcas, assim como o eterno bordão “o gol é seu”, repetido tantas e tantas vezes nas transmissões. Nos últimos tempos, também passou a atuar como comentarista, sobretudo ao lado de Paulo Shimizu Júnior.

Jornalista e advogado, Fabrini tinha uma carreira além da Rede Vida. Como radialista, passou por diferentes emissoras paulistas e mineiras, incluindo aí a Gazeta e a Rádio Globo. De qualquer maneira, o “Canal da Família” é que seu trabalho se consagrou. Foi a voz principal do canal por mais de uma década e atuou como diretor do departamento de esportes. Já aos 84 anos, seguia na ativa, apresentando seus comentários no quadro esportivo do Jornal da Vida.

Em dezembro de 2017, veio um merecido reconhecimento. Fabrini foi premiado pela Associação de Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo, homenageado pelos 50 anos de sua trajetória no jornalismo esportivo. Pôde receber os aplausos em vida, antes da triste notícia desta quinta. Internado ao longo dos últimos dias no Hospital de Base de São José do Rio Preto, Fabrini faleceu, em causa de morte ainda não divulgada. Deixa a esposa e três filhos, além de uma multidão de aficionados por seu trabalho. Fica sua lembrança como referência a quem ama as entranhas do futebol. Sua voz ecoará ainda por muito tempo, seja narrando os gols do São José na minha cabeça, seja espalhando alegrias a tantas outras torcidas.

Abaixo, três vídeos de narrações de Fabrini e seu agradecimento pelo prêmio na ACEESP:

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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