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“Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol”

O verso acima abre um dos maiores clássicos da carreira de Belchior. Uma frase simples, de compreensão óbvia para qualquer um com o mínimo de noção sobre futebol. E que, ao mesmo tempo, diz tanto a quem vive o esporte intensamente. Principalmente, a quem já compartilhou a angústia sob as traves. A afirmação do compositor, no fim das contas, se desdobra em uma reflexão sobre o amor. Sobre a “Divina Comédia Humana”, faixa que, misturando Dante Alighieri e Olavo Bilac em suas estrofes, dá nome a um de seus principais álbuns, lançado em 1991.

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A relação de Belchior com o futebol é tão misteriosa quanto o seu paradeiro nos últimos anos. Existem fotos do cearense com a camisa da Ponte Preta, em visita a Campinas em 1998. Na ocasião, ele afirmou ser simpatizante da Macaca. Mais além, há também um pequeno trecho do jornal O Globo em que o músico revela ter apreço pelo Fluminense desde a infância. Colecionaria pôsteres do célebre trio formado por Castilho, Píndaro e Pinheiro, ídolos tricolores na década de 1950.

Ao longo da carreira, vários foram os seus parceiros apaixonados pela bola. Lançou-se ao lado de Fagner, o amigo de craques que frequentou a concentração da Copa de 1982. Escreveu sucessos que se eternizaram na voz de Elis Regina, a gremista que adotou o Fluminense no Rio e o Corinthians em São Paulo, que tabelou com Pelé nos discos. Também viu suas letras ganharem força nas vozes de Jair Rodrigues, o santista que embalou a conquista da Copa de 1962 e homenageou os jogadores do país em canção, e na de Oswaldo Montenegro, o garoto bom de bola que chegou a ser convidado para treinar na base do Fluminense antes de virar cantor.

O gosto de Belchior pelo futebol, ao que tudo indica, nunca chegou a tanto. Sua declaração mais contundente sobre o assunto pode ser encontrada na revista digital O Ponteiro, publicada pela Universidade Estadual de Ponta Grossa: “Não acompanho futebol em lugar nenhum. Eu conheço o Guarani de Sobral porque foi o time da minha infância e conheci alguns jogadores. Eu morava perto do campo da cidade (onde o Guarani jogava) e meus irmãos eram todos viciados em futebol. Dois deles participavam do time. Tinha também o Palmeiras de Sobral. Mas eu tenho um grande defeito cultural: não entendo de futebol. Nunca fui a um estádio. Só conheço os jogadores depois que eles se tornam famosos e mesmo assim nunca sei em que time jogam. Conheço o Pelé, o Garrincha, esses aí sim. Mas não sei em que time joga o Ronaldo, não sei porque que chamam aquele goleiro (sic) de Careca se o cara é cabeludo, não sei onde joga o Roberto Carlos. Que eu saiba, Roberto Carlos só o cantor”.

Interessante, de qualquer forma, notar a maneira como Belchior trata o futebol como “cultura”. E como, mesmo sem entender sobre o jogo, compreendia o fenômeno. Não fosse assim, a metáfora perfeita não estaria na “Divina Comédia Humana”. Ou ele não vestiria a camisa da Ponte Preta. Ou não revelaria o seu apreço pelo Fluminense.

Diante do adeus de um dos maiores compositores da música brasileira, todas as homenagens são pertinentes. Com a angústia de um goleiro, mas desejando, antes do fim, muito amor e tudo mais. Abaixo, a versão original de “Divina Comédia Humana”. E também “Alucinação”, o álbum que é sua obra-prima. Mesmo sem futebol nas letras, vale a sugestão. A mensagem deixada pelo músico é fortíssima. É eterna.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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