Estádio de jogo da seleção brasileira em Lima foi palco da maior tragédia do futebol peruano
Casa da seleção peruana, Estádio Nacional viu conflito entre torcedores e polícia acabar com mais de 300 mortos em 1964
Estádio Nacional, mas pode chamar de Colosso da José Díaz. Um apelido imponente, à altura daquela que é a casa da seleção peruana em Lima. Mas as arquibancadas em vermelho e branco que testemunharão o jogo entre Brasil e Peru, nesta terça-feira (12), às 21h30 (horário de Brasília), pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2026, também foram palco da maior tragédia do futebol do país andino.
Foi em um Estádio Nacional de outros tempos, bem antes das muitas reformas que o repaginaram completamente – a última delas, em 2011. Mas o dia 24 de maio de 1964 e as mais de 300 vidas perdidas em um conflito entre torcedores e policiais ecoam até hoje como uma mancha no esporte mais popular do Peru.
A maior tragédia do futebol peruano
Naquele dia, quase 60 anos atrás, o estádio recebeu mais de 47 mil torcedores para um jogo entre Peru e Argentina, válido pelo Pré-Olímpíco. O torneio dava vaga aos Jogos Olímpicos daquele mesmo ano, em Tóquio, no Japão. Os argentinos já estavam classificados, e os peruanos dependiam ao menos de um empate para ultrapassar o Brasil e garantir a classificação.
Quis o destino que a Argentina saísse na frente, após um primeiro tempo sem gols. O Peru pressionou e pressionou e pressionou… Até Víctor Lobatón marcar o gol que seria o do empate e da classificação já a cinco minutos do final da partida. Mas um dos assistentes ergueu a bandeira, e o uruguaio Eduardo Pazos, árbitro da partida, marcou falta por jogada perigosa no lance, devido a um contato do autor do gol com o argentino Horacio Morales. A revolta tomou conta dos quase 50 mil peruanos que se aglomeravam nas arquibancadas.
Foi o estopim para uma cena de guerra. Alguns torcedores peruanos decidiram invadir o campo para tentar agredir o árbitro. Argentinos presentes no estádio também tomara o gramado para brigar com os locais. Virou uma batalha campal. O árbitro encerrou o jogo. Das tribunas, voavam garrafas e pedras que acertavam os policiais que faziam a segurança da partida. Alguns torcedores ateavam fogo nas arquibancadas de madeira.

A reação da Polícia Nacional foi ainda mais traumática. O efetivo de apenas 100 policiais resolveu conter a confusão com bombas de gás lacrimogênio… Que só causaram mais desespero e caos. Os torcedores nas arquibancadas tentaram sair do estádio para conseguir respirar algo que não fosse a fumaça que lhes provocava lágrimas, mas encontraram as portas metálicas de acesso fechadas, especialmente no setor Norte.
O resultado foi uma tragédia que transcendeu os limites do Estádio Nacional. De acordo com os números oficiais, 328 pessoas morreram por asfixia ou pisoteadas e outras 500 ficaram feridas Fora do estádio, houve também relatos de vandalismo, incêndios e mais mortes, por disparos da polícia.
O jornal El Comércio estima que dos 328 mortos (números oficiais), 80% foram homens, dos quais a maioria jovens de 18 a 22 anos, 10% foram crianças e outros 10%, mulheres.

– Eu dei a ordem de lançar bombas de gás lacrimogêneo às arquibancadas, Não sei precisar quantas. Nunca imaginei as consequências nefastas – disse o comandante Jorge de Azambuja, à época.
O presidente do Peru na época, Fernando Belaúnde Terry, decretou uma semana de luto no país. Após julgamento, o comandante Azambuja recebeu pena de 30 meses de prisão. O juiz Benjamin Castañeda, responsável pela investigação do caso, concluiu que o Governo omitiu o número oficial de vítimas.
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Brasil já foi campeão no Nacional
O Estádio Nacional também já foi palco de um título da seleção brasileira. Aliás, um dos títulos guardados com mais carinho pelos brasileiros. Foi na Copa América de 2004. Neste mesmo estádio, mas antes da última reforma que o deixou com um visual mais moderno, o Brasil venceu a Argentina na final para sair campeão de Lima.
Mas escrever assim é pouco. Foi no Nacional que Adriano fez aquele gol histórico, no apagar das luzes, contra argentinos que já comemoravam o título arrogantes antes do apito final. O jogo que estava 2 a 1 acabou 2 a 2. E a Seleção foi campeã da Copa América.



