Esta é uma história sobre a paixão pelo futebol, e desta vez você pode ajudar o final feliz

* Por Jessica Miranda
Com um giro elegante, o volante deixa para trás seu marcador e toca para o companheiro, deixando desnorteados os adversários restantes, que não oferecem resistência ao toque de calcanhar do ídolo. Restava saber se o atacante alcançaria o passe antes do goleiro. Naqueles três segundos de hesitação, paro de observar a história sendo escrita na minha frente para olhar as pessoas ao meu redor.
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Olhos fixos, em êxtase, contrastam com o movimento dos braços e com a angústia que tomava conta dos lábios alheios. Retorno a tempo de ver a bola estufando as redes e de poder pular, gritar e dançar com conhecidos e desconhecidos. Na hora eu desejo ter eternizado em vídeo a montanha russa de emoções que foi o quarto gol do Corinthians sobre o São Paulo. Não para tripudiar torcedores rivais, e sim para mostrar ao mundo a magnitude do futebol na vida das pessoas. É então que a ficha cai: tenho a oportunidade de eternizar não só memórias do meu time, mas também a de qualquer outro torcedor sul-americano – e, portanto, fanático. Eu estou pronta.
Há cinco meses minha vida mudou completamente graças ao futebol, e esta é a história deste período. E você pode mudar meu futuro. Welcome!
Tentar ou abdicar
É só fechar os olhos que eu me lembro perfeitamente: atirada ao sofá, ainda de roupa social, eu abro no celular o aplicativo do Youtube e vejo no feed este vídeo. A exaustão após um dia inteiro analisando inúmeros processos foi embora e, em um instante, a adrenalina tomou conta de mim. Logo mandei mensagem para dois amigos meus, que me incentivaram a tentar.
Vou frisar o verbo: tentar. Para quem não conhece, o Copa90 é um canal britânico sobre futebol que recentemente alcançou um milhão de inscritos. Eles produzem documentários e contam grandes histórias – tudo em altíssima qualidade. Não à toa, são a aposta do próprio Youtube para a linguagem esportiva de seus usuários.
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Devido a tamanho sucesso, o Copa90 resolveu se expandir. Por isso lançaram a competição para encontrar um novo apresentador em cada continente, eleitos em votação aberta aos próprios visitantes do site. “South America, here I come!”. O vencedor terá a chance de viajar por todos os países sul-americanos e viver as melhores histórias boleiras, com a missão de transmití-las ao resto do mundo. E eu tinha em torno de 40 dias para produzir meu vídeo de inscrição, na tentativa de viver este sonho. Por quase três semanas, fiquei apenas observando os vídeos de todos os candidatos. Sim, eu olhei cada um que estava em modo público. Obstinada é eufemismo. Enquanto isso, criava a coragem de me expor e matutava as minhas ideias.
Sobre minha paixão

Fotos, vídeos e relatos dão conta que a minha conexão com a bola surgiu praticamente ao nascer. Bem que meu pai tentou que eu fosse palmeirense como ele. Até chegou a me vestir, com o uniforme completo da época Parmalat, no meu aniversário de cinco anos. Não teve jeito. Eu não me sentia bem usando e, já no ano seguinte, pedi um do Corinthians, time que tinha visto na televisão e me identificado. Por ser o time da minha mãe, meu pai não viu problemas. Ele continuou com seus hábitos de me ensinar a história do futebol e de ouvir comigo jogos no rádio, quando saíamos aos finais de semana.
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Avançando muito no tempo, hoje tenho 24 anos, me formei em Direito na USP ano passado, e por isso trabalho em um tribunal. Ainda assim, não há um dia em que eu deixe de pensar sobre futebol. Leio revistas, sites, saio fuçando artigos e vídeos na internet, além de ouvir os mais variados podcasts. E, claro, assisto à maior quantidade de jogos que consiga nesta rotina louca chamada vida.
Do desafio à seleção, a angústia
Os problemas surgiram logo de cara. Eu não tinha câmera e minha casa estava em reforma. Mas o pior era: como, em apenas 120 segundos, conseguir chamar a atenção deles e ao mesmo tempo demonstrar conhecimento?
Deu trabalho fazer o roteiro. E, acredite, deu muito medo também! Coloquei inúmeras referências, de Batman a Cristiano Ronaldo. E como essa altura já tinha conseguido uma câmera emprestada, era hora de sair do plano das ideias e agir. Bati umas fotos com minha coleção de camisas, adaptando comemorações clássicas. Mas tirando meia dúzia de fotos, eu não tinha nada a 10 dias do prazo final.
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Ao gravar com a câmera do meu amigo, percebemos que não dava para me ouvir direito (eu sou pequena e a minha voz é proporcional ao meu tamanho). Precisava de ajuda. Fomos até Atibaia para que meu primo me emprestasse seu equipamento profissional. E a última semana foi ainda mais complicada. Peguei uma virose e estive em situações dignas de CENAS LAMENTÁVEIS. Mesmo assim reuni todas as forças, minha mãe assumiu o controle da câmera e eu editei tudo. No último dia, enviei o vídeo ao Copa90. Já uma vitória!
Um dia depois de enviar o vídeo, já recebi um e-mail do Eli (principal apresentador do Copa90 e também produtor júnior), dizendo que o pessoal amou o que fiz e pedindo o meu contato. Embora tenha conversado com eles por e-mail, as semanas passavam e eu não recebia as notícias de quando seria a minha entrevista. Enquanto isso, acompanhava as mídias sociais do canal e por lá sabia que estavam entrevistando outros candidatos. Eu fiquei com o ** na mão.
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Na manhã de 25 de agosto, o alívio. Recebi um novo e-mail do Eli, pedindo para nos falarmos pelo Skype. Eu disse que já havia saído de casa para ir trabalhar, se não poderia ser de noite. Não, não poderia. Precisava ser naquele dia. De jeito nenhum eu iria perder a chance. Desci do ônibus, atravessei a rua e peguei outro de volta para casa.
Depois de um bom tempo conversando sobre tudo, o Eli mandou a real, dizendo que já havia dois escolhidos para a América do Sul, e que a cota Brasil estava preenchida. Como eu havia perguntado se eles estavam gravando (disseram que não), fiquei emotiva. E, ao explicar toda a minha vontade novamente, fui ficando cada vez emocionada. Até que RÁÁÁ: o Eli finalmente parou de me zoar (ele fez isso com todos) e disse que eu estava no Top 3 da América do Sul, competindo contra um chileno e um colombiano. Aí eu desabei mesmo. E, depois, já aqui no Brasil, ele me contou que 4 dos 18 finalistas no mundo foram aprovados de forma unânime, eu entre eles. Por isso esperei tanto naqueles 15 dias, angustiada se eu tinha feito algo de errado por não entrarem em contato.
É BRASIL, PORRA!
O Copa90 determinou que a América do Sul seria o penúltimo continente visitado pelo concurso, e que eles estariam aqui no Brasil em 21 de novembro. Não pedi essa data à toa: no dia seguinte aconteceria o Majestoso, Corinthians x São Paulo pelo Brasileirão. Mais do que um jogo do meu time, seria um retrato significativo do futebol brasileiro.
Condensar dois dias de gravações em um vídeo de quatro minutos é uma tarefa bem complicada. Eu precisava ter um foco. Sim, eu poderia ter dado uma festa, chamado escola de samba e tudo. No entanto, ao invés de focar em mim, quis focar no espetáculo para quem ia me assistir. No futebol e seus personagens. Fui, então, atrás da torcida Gaviões da Fiel.
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Cheguei com a cara e a coragem à sede da Gaviões. Pedi para falar com o presidente Diguinho e, para a minha alegria, ele aceitou fazer uma reunião comigo. Contei toda a história e mostrei vídeos do canal. Se no início ele estava reticente quanto à filmagem, a conversa o ajudou a mudar de ideia. Deu a autorização e ainda permitiu que comprássemos os ingressos (respeitando a fila, claro), além de nos convidar para passar o dia com eles antes do jogo.
Entrei de férias na semana que antecedeu a chegada da equipe do Copa90, somente para cuidar das burocracias. E são muitas. Depois de conseguir a autorização do Corinthians, fui atrás da polícia militar e da federação paulista para a entrada com câmeras profissionais na torcidas organizadas. E enquanto estava no batalhão, olha a ironia, o nosso carro foi furtado.

Secretamente, os “deuses do futebol” bateram um papo com os “deuses do clima”: no dia do jogo não haveria um tempo ruim e chuvoso, como aconteceu durante toda a semana. Seria um Domingo de Clássico, com letra maiúscula mesmo, e eu mal poderia imaginar o que me aguardava. Antes de a bola rolar, gravamos na icônica Avenida Paulista e fomos ao encontro da Gaviões, onde fomos muito bem recebidos.
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Ver a festa que os membros da torcida (com os quais nunca havia conversado antes) fizeram em nome do amor pelo Corinthians foi um dos momentos mais recompensadores que já vivi. Estava tão empolgada por entrar no ônibus direto ao estádio que meu corpo nem sentiu as dores de dividir o espaço de duas poltronas com o Eli e o Jack, um dos câmeras.
Por termos chegado duas horas antes do início da partida, conseguimos observar bem, lá do alto do setor norte, toda a Arena ser preenchida. Nem mesmo o anúncio de que Tite escalaria um time basicamente reserva conseguiu diminuir o ímpeto da torcida alvinegra. Era dia de festa. De devoção ao futebol. E fomos muito bem agraciados, mesmo em um jogo que parecia não interessar tanto ao Corinthians, já campeão. Que sorte eu tive!
Eu poderia narrar outras diversas situações e emoções que aconteceram durante as gravações, mas sinto que isso tiraria um pouco da surpresa do vídeo. Vou apenas comentar sobre mais um fato. Naquele momento em que vi a taça do meu time sendo erguida e que finalmente compreendi por que uma equipe da Inglaterra veio me visitar, eu também me lembrei de todos os jeitos, formas e abordagens que já usaram para me dizer que “futebol não é coisa de menina”. E mandei todos esses “argumentos” se f****. Estou livre.
Caso você tenha gostado da história da Jessica e queira dar uma forcinha na eleição do Copa90, é fácil ajudar. Basta entrar neste link e dar o seu voto do lado direito da página. A votação acaba em 30 de dezembro, enquanto o resultado será divulgado na segunda semana de janeiro. Sua chance de fazer uma brasileira ganhar a sua própria “Copa América”.



