Brasil

Está ainda mais difícil de se empolgar com a Seleção, e não é só pelo futebol

Dez vitórias nos dez primeiros jogos. Entre os adversários derrotados, equipes de respeito, como Argentina, França, Colômbia e Chile. A melhor largada de um técnico brasileiro no início de seu trabalho. E, mesmo assim, está difícil de ter alguma empolgação com a Seleção. Dunga faz um trabalho impecável nos resultados e, também por seu próprio histórico na Copa América, o time parte como um dos favoritos ao torneio. Nada que torne a equipe nacional muito empolgante neste início de ciclo. Um problema que, diga-se, vai muito além do futebol apresentado dentro de campo.

O time de Dunga não animou nem um pouco nas duas últimas partidas, embora também tenha feito boas atuações antes disso. Em jogos nos quais o Brasil poupou forças, bastaram poucos minutos de jogo intenso para bater o adversário. Foi assim contra o segundo elenco do México, assim como diante de Honduras, nesta quarta, no Beira-Rio.  A Seleção acelerou o passo um pouco mais no final do primeiro tempo, quando Willian acertou a trave e Filipe Luís criou ótima chance para Roberto Firmino definir a vitória por 1 a 0. O atacante, aliás, terminou a noite como o destaque do jogo, especialmente pela movimentação. Isso antes dos 45 minutos completamente letárgicos do segundo tempo.

É fazer as devidas ressalvas. Que, em um amistoso, o pessoal não costuma pôr o pé mesmo, ainda mais às vésperas de uma competição. Que Honduras não é o adversário que mais motive o time a jogar bem. Que Neymar faz falta a esse time. Por mais que a renovação esteja longe de ser profunda, como alguns esperavam, Dunga tem ido além dos 100% de aproveitamento. Em certos jogos, a equipe apresentou boa dinâmica nos passes e nas transições, ainda que o jogo do treinador consista mesmo na boa defesa e no contra-ataque mortal. Para quem busca resultados, ótimo. Só que nem sempre é isso que o torcedor espera da Seleção.

Torcer pelo Brasil é diferente de torcer pelo seu time. Quando seu clube do coração está em campo, a vitória é o que importa. Com a Seleção, é diferente. Muitos querem a vitória, mas não só isso. Não há a mesma paixão, não há a preocupação com a provocação do vizinho no dia seguinte. E, por todo o seu histórico, mais do que ganhar, a equipe nacional precisa jogar bonito. O que nem sempre é possível esperar do futebol eficiente e pragmático da equipe de Dunga. Nada contra os resultados. O problema é que acaba sendo pouco. O silêncio no Beira-Rio durante o segundo tempo, assim como as vaias no final, só enfatizam isso. Pior, por um produto que não corresponde nem um pouco o preço que os “consumidores” pagaram para estar nas arquibancadas.

E há ainda mais um fator preponderante: tudo o que a seleção brasileira tem representado nos últimos tempos. Não é só o futebol pouco empolgante. É a paciência da maioria que estourou depois dos 7 a 1 da Alemanha, um vexame que não sairá das nossas cabeças tão cedo. É a forma como a Seleção representa a CBF, em meio a todas as denúncias, seja de envolvimento no escândalo da Fifa ou da própria venda de amistosos. No Allianz Parque, muita gente pagou caro mais para conhecer o estádio do que para ver o time. No Beira-Rio, nem isso, com o público ínfimo de pouco mais de 20 mil presente, metade do que o Inter levou no domingo.

A Seleção tem potencial para ganhar a Copa América. Embora a Argentina tenha um elenco melhor, não vai ser a primeira vez que o Brasil lidará com isso nos últimos anos. Só que Dunga, Neymar e companhia terão muito trabalho para conquistar algo mais difícil: a confiança do torcedor de uma maneira geral. Se a exigência costuma ser grande, o 7 a 1 e a CBF só pioraram a situação. Vencer não é o suficiente para tornar os elogios maiores do que a cornetagem, ainda mais neste momento.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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