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Esporte Interativo conquistou os direitos de transmissão dos clubes sendo o “anti-Globo”

“Parabéns aos presidentes que deram o pontapé inicial para quebrar essa estrutura viciada no Brasil”, afirmou Zico, comentarista do Esporte Interativo, antes de tocar a bola com a perna esquerda para o seu colega Rivellino, simbolizando o começo da parceria do canal de televisão do grupo Turner com 14 clubes*, das Séries A, B e C, oficializada nesta terça-feira, no Museu do Futebol. O Galinho referiu-se à consolidação de um novo personagem no mercado de direitos de transmissão, que durante muitos anos foi monopolizado pela Rede Globo, e à confiança que essas equipes depositaram nele. Para ganhar essa oportunidade, o Esporte Interativo aproveitou justamente os problemas do relacionamento anterior, acumulados ao longo de tantos anos.

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A estratégia de oferecer o que o namorado ou a namorada anterior não conseguia (ou não queria) já foi utilizada milhões de vezes pelas mais diversas pessoas ao redor do mundo, mas não deixa de ser inteligente. Com esse objetivo ou não, a realidade é que o Esporte Interativo reuniu na proposta aos clubes vários pontos que eram alvos de reclamações: a negociação separada de direitos diferentes, como TV aberta, fechada e pay per view; mais participação na determinação de horários e datas que favoreçam a ida da torcida aos jogos e a saúde física dos atletas; mencionar o nome dos patrocinadores, como os naming rights dos estádios, durante as transmissões; uma distribuição mais igualitária do montante total de dinheiro; mais dinheiro, é evidente; e um número mínimo de jogos transmitidos para cada clube.

Pontos que os clubes nunca conseguiram negociar com a Globo, e não pense que “nunca” trata-se de uma hipérbole. “Nunca. Nunca”, afirma o presidente do Conselho Administrativo do Atlético Paranaense e ex-presidente do clube, Mario Celso Petraglia, à Trivela. “Intransigente. A direção que conduzia os negócios era o pega ou larga. Não havia concorrência na mesa. Não critico isso. Acho que eles estão no direito deles. Buscam seus negócios e seus resultados”. Petraglia não quis dizer com todas as letras que havia reclamações contra a Globo nesses aspectos, mas não conseguiu fugir para muito longe. “Não que nós reclamássemos da Globo. Tudo na vida tem prós e contras. A Globo tem ótimos pontos favoráveis e outros nem tanto. Esses pontos, em que podemos usar a semântica de que reclamávamos, ou criticávamos, ou que buscávamos mudanças, foram determinantes”.

A questão financeira, naturalmente, foi muito importante. Segundo Vitório Piffero, presidente do Internacional, a primeira proposta de renovação da Rede Globo para os direitos de TV fechada era menor que o contrato anterior. “Pelo menos do Internacional. Acredito que dos outros também porque o descontentamento era geral”, afirma. O Esporte Interativo afirma que ofereceu nove vezes mais dinheiro aos clubes, um total de R$ 2 bilhões pelos seis anos que se passarão entre 2019 e 2024. Há variáveis na distribuição do montante, como desempenho em campo e audiência, mas uma estimativa de R$ 25 milhões por temporada para cada clube foi aprovada pelo presidente da emissora e vice-presidente da Turner para a América Latina, Edgar Diniz. “É um valor razoável para uma média por clube”, confirma.

Piffero conta que houve uma tentativa da Globo de renegociar a primeira proposta, apresentada em setembro segundo ele, mas apenas depois que o Internacional já estava comprometido com o Esporte Interativo. “A partir do momento em que firmamos nossa posição, parece que a concorrência acordou e procurou fazer alterações na sua proposta inicial. Outros clubes aproveitaram aquela oportunidade e buscaram negociações com a Globo”, diz. Corinthians, São Paulo, Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, Cruzeiro, Atlético Mineiro e outros fecharam com o SporTV na televisão fechada. “Por conta da gente ter entrado (no mercado), os outros se beneficiaram e fizeram contratos razoáveis com a Globo. Embora os clubes que estejam fechados conosco tenham contratos melhores de TV fechada”, afirma Diniz.

Tanto Petraglia quanto Piffero tocaram na questão da espanholização do futebol brasileiro, uma teoria um pouco contestável de que a disparidade na distribuição do dinheiro transformaria Corinthians e Flamengo no Barcelona e no Real Madrid do Brasil. O Esporte Interativo divide o bolo no modelo inglês: 50% igual para todo mundo, 25% pelo desempenho em campo e 25% pela audiência. “Não sabemos exatamente quanto cada clube ganha. Causa uma disparidade de forças que evidentemente, ali na frente, aumentará ainda mais e se refletirá também dentro de campo”, afirma o presidente colorado. “Caminharíamos para que virássemos a Espanha com a concentração de recursos em somente dois clubes brasileiros”, completa Petraglia.

A possibilidade de ter voz na hora de determinar os horários e os dias dos jogos também foi música para o ouvido de clubes que durante muitos anos observaram a Rede Globo e a CBF moverem as partidas para lá e para cá de acordo com seus próprios interesses. “Não tem cabimento jogarmos em Macapá na quinta-feira e depois disputarmos a semifinal do Campeonato Paulista no domingo”, reclama o presidente do Santos, Modesto Roma. “Não é mais possível vivermos esse problema. Estou tendo que mandar o time B do clube”. O diretor de futebol do Bahia, Nei Pandolfo, acrescenta: “Nós vamos terminar o primeiro semestre com quase 30 jogos e vários atletas lesionados, indo para uma reta final decisiva. Se jogássemos apenas de domingo a domingo, seriam 15, 20 jogos, a torcida não estaria cansada de ver um jogo atrás do outro, os jogadores estariam mais recuperados. O espetáculo seria melhor”.

Essa autonomia maior foi a contrapartida que Roma pediu à CBF quando votou no Coronel Nunes para ser vice-presidente no lugar de José Maria Marin, preso em Nova York. No entanto, o Santos e outros clubes que reclamam constantemente do calendário e das tabelas poderiam ter tido ainda mais independência se tivessem apoiado o catarinense Delfim Peixoto, declaradamente a favor de uma liga para organizar o Campeonato Brasileiro. Como vice mais velho, Peixoto assumiria a presidência quando Marco Polo Del Nero renunciou para cuidar da sua defesa contra as denúncias de corrupção do FBI. No entanto, Nunes foi eleito vice com 44 dos 67 votos possíveis e – pelo menos nas aparências – comandou o futebol brasileiro durante os meses em que Del Nero ficou afastado. O paraense foi candidato único à vaga de vice-presidente deixada por Marin. Nessa eleição, o Bahia se absteve.

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Mencionamos isso porque a única coisa da qual não podemos nos esquecer é que, se existe uma disparidade gigante na distribuição do dinheiro da televisão, se a tabela e o calendário não são realizados em consulta com os clubes, se os patrocinadores não são mencionados nas transmissões, ou se ocorre qualquer uma das coisas que constam entre as reclamações dos dirigentes contra a CBF, a Globo ou outra entidade a sua escolha, isso é culpa da inércia e da desunião dos próprios dirigentes.

“Eu vejo como única e exclusiva culpa dos dirigentes”, afirma Petraglia, “por esse conflito, essa falta de cultura, essa falta de modernização, de conhecimento, de vários pontos negativos. Não olharam o todo e estão sempre olhando para o próprio umbigo”. O ápice desse problema aconteceu em 2011, quando o Clube dos 13 foi implodido sob a liderança de Andrés Sánchez, e a negociação coletiva de direitos de televisão, abandonada. Começou um cada um por si que minou a força que os clubes poderiam ter se estivessem unidos para negociar com a Globo ou qualquer outra emissora. “Eu acho que 2011 é o nome da fera, acho que foi um grande erro”, confirma Modesto Roma. O problema é que mesmo antes de toda a epopeia de destruição do C13 alguns problemas, como horários ruins de partidas, já existiam, e a entidade que surgiu nos anos oitenta como o embrião de uma liga não conseguiu impedir que isso acontecesse. “Nós nunca tivemos força, nem no Clube dos 13, para mudar, mesmo quando estávamos juntos. Sempre acabou se concordando”, admite Piffero.

E continuam não tendo. Ainda não existe uma união entre os clubes. O Santos, por exemplo, está fechado com o Esporte Interativo, mas não participa da Primeira Liga. O Cruzeiro, o Flamengo e o Fluminense jogam a nova competição, mas preferiram o contrato do SporTV. Aqui, age muito mais o livre mercado e a iniciativa do Esporte Interativo de oferecer aos clubes aquilo que eles queriam para convencê-los a romper uma longa e complicada relação com a Globo.

“O foco não foram as reclamações contra a Globo, mas como podemos ajudar os clubes a gerarem mais receita”, afirma Edgar Diniz. “E coincidiu. Foi uma demanda que consideramos boa para o fortalecimento do futebol. Temos uma filosofia muito clara de que, se o espetáculo melhorar, nosso produto de transmissão melhora. Estamos dispostos a pagar mais caro por um produto melhor. Se conseguirmos fazer os clubes terem mais receita, investir nas categorias de base, segurar os craques por mais tempo, melhorar o produto futebol, todos saímos ganhando”.

*Atlético Paranaense, Bahia, Ceará, Coritiba, Criciúma, Fortaleza, Internacional, Joinville, Paraná, Paysandu, Ponte Preta, Sampaio Corrêa, e Santos. O Figueirense ainda não confirmou o acerto. O Santa Cruz foi anunciado, mas afirmou que quer romper o seu contrato. 

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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