Especial: O novo lateral brasileiro

Alessandro, 32 anos, titular e capitão do Corinthians campeão brasileiro. Kléber, 31 anos, parte da espinha dorsal do Internacional em 2011 e um dos jogadores mais cobiçados por outros clubes nesse fim de ano. Léo, 36 anos. Titular do Santos durante boa parte da temporada 2011, tanto no Campeonato Brasileiro quanto na conquista da Copa Libertadores. Três jogadores que conseguiram boa longevidade na carreira atuando em uma posição em que o preparo físico, mais do que importante, é fundamental para que as funções determinadas sejam exercidas com eficiência: a lateral. Longevidade à qual não se via com tanta frequência em gramados brasileiros.
Esse fenômeno se explica na mudança da configuração tática dos times em campo. Na década de 90, com o 4-4-2 brasileiro (chamado de 4-2-2-2 pelos europeus), os laterais eram estimulados a buscar mais o ataque. A Seleção Brasileira campeã mundial em 1994, por exemplo, era armada com quatro meio-campistas ativos na marcação para que os laterais apoiassem sem que a defesa ficasse desguarnecida. Em 1998, após a vitória da França sobre o Brasil na final, o técnico Aimé Jacquet declarou que venceu a partida porque conseguiu anular Cafu e Roberto Carlos. No 4-2-3-1, sistema dominante no momento, já existem jogadores com a função de explorar os lados do campo no meio, o que faz, em tese, com que o número de piques dados pelos laterais durante a partida e a distância dessas arrancadas sejam menores.
O técnico do Fluminense, Abel Braga, concorda com a hipótese. “O lateral antigamente era muito massacrado, tinha que ir ao ataque e voltar com frequência, corria o campo todo. Agora, com o 4-2-3-1, o campo fica mais bem dividido e não é mais tão necessário. Por isso eles já conseguem aguentar mais as partidas”, analisa. Dorival Júnior, treinador do Internacional, concorda. “O lateral que vai e volta o tempo inteiro não é mais necessário, e isso possibilita que a exigência física para a posição seja um pouco menor”. Geninho, que comandou Atlético Paranaense e Vitória em 2011, aponta para mais uma mudança na maneira de atuar dos laterais brasileiros. “Defensivamente, eles atuam mais por dentro, marcando mais”.
Nem todos os técnicos, porém, concordam com essa ideia. Para Antônio Lopes, que comandou América-MG e Atlético Paranaense no Campeonato Brasileiro, a questão da longevidade do jogador é bem pessoal. “O preparo físico do jogador brasileiro evoluiu bastante. A longevidade do jogador aumentou em todas as posições, e não apenas nas laterais, e isso não depende só do esquema tático do time, mas de outras questões, como a genética do jogador e a vida que ele leva fora de campo”, observou.
Outro que discorda é Osmar Loss, que comandou o Internacional por um breve período em 2011. “O lateral brasileiro está mudando porque perceberam a importância defensiva da linha de quatro jogadores. E no ataque, busca-se hoje a eficiência, e não a repetição, portanto se exige que o lateral suba com mais inteligência, ao invés de ir o tempo todo”, argumenta Loss, que admite não gostar muito do 4-2-3-1. “É um sistema muito estático, que facilita a marcação adversária.”
Outros casos de laterais brasileiros que tiveram mais longevidade aconteceram na maioria das vezes na Europa. É o caso de Serginho e Cafu, no Milan, e Roberto Carlos, no Real Madrid, que precisaram se adaptar às exigências táticas dos treinadores da época. Os dois últimos, porém, foram muito criticados na Copa do Mundo de 2006, quando, aos 36 e 33 anos, respectivamente, já não conseguiam atacar com a mesma frequência e ímpeto, e não eram protegidos por três zagueiros, como em 2002.
O uso de três defensores, aliás, foi responsável por possibilitar que em 2005 jogadores como Junior, então com 32 anos no São Paulo, e Paulo Baier, um ano mais jovem no Goiás, atuassem como alas, apoiando o ataque de maneira mais despreocupada e armando boas jogadas ofensivas. Outros, como Jorginho, não tiveram a sorte de atuar no “esquema da moda” no Brasil do início dos anos 2000 e; migraram para o meio-campo por volta dos 30 anos, quando seus técnicos perceberam que o rendimento na lateral caíra. Um caminho que, com as novas exigências da posição, deverá ser feito com menos frequência nos próximos anos.



