Escrevendo certo por linhas tortas

A busca por reforços e situações de impacto nos tempos recentes não é novidade nas Laranjeiras. O Fluminense, a despeito do sucesso de atingir a final da Copa Libertadores, traçou planejamentos imperfeitos, fez apostas duvidosas e nem sempre foi merecedor de elogios. Em um momento em que só vai se falar bem, o que é natural, é bom lembrar também dos erros. E tentar fazer o futuro ainda melhor.
Parceiros como a Unimed, que vêem o clube como fonte para publicidade, naturalmente buscam o impacto, a atenção da mídia, e a expansão de sua marca. Diferentemente, por exemplo, do objetivo da Traffic no Palmeiras, que se contenta em contratar jogadores com perspectivas e que, futuramente, engordem os cofres da empresa.
Essa medida fez com que o Fluminense, por exemplo, fosse uma espécie de Real Madrid do Rio de Janeiro. Em 2004, o Flu jogou o Brasileiro com Ramon, Roger, Romário e Edmundo. Foi um grande arremedo e foi preciso que Alexandre Gama – aquele que o Baixinho disse que estava sentando na janelinha – viesse salvar a equipe da luta contra o rebaixamento.
Na temporada seguinte, o Fluminense se livrou dos quatro medalhões, vendeu o então jovem Carlos Alberto para o Porto e remontou todo o time com Abel Braga, campeão estadual com o Flamengo no ano anterior. A grande contratação foi Felipe, que vinha bem no Fla e, inclusive, era convocado para a Seleção Brasileira por Carlos Alberto Parreira.
Logo de cara, após algumas más partidas, Felipe recebeu 180 dias por suspensão e deixou de ser um problema para o time. Abel acertou a equipe com Arouca e Diego Souza, dois jovens de Xerém, e encaixou Juninho, Tuta e Leandro no ataque. O Fluminense jogava bem, foi campeão estadual – ainda que com a ajuda da arbitragem, finalista da Copa do Brasil – ainda que perdendo de maneira desastrosa para o Paulista de Jundiaí, e vinha muito bem no Campeonato Brasileiro.
Voltou Felipe e, de quebra, o Fluminense foi buscar Petkovic. O resultado é que o ambiente azedou, o time perdeu os últimos jogos e a vaga na Libertadores ficou com o Palmeiras.
Os anos seguintes não foram diferentes e em 2007, por exemplo, o Fluminense só deslanchou na temporada quando se livrou de Carlos Alberto, negociado com o Werder Bremen. Ali, descobriu Thiago Neves, o melhor jogador do time no segundo semestre. Até acertar com Renato Gaúcho também no ano passado, aliás, o Flu teve Ivo Wortmann, Paulo Campos, Osvaldo de Oliveira, Josué Teixeira, Antônio Lopes, Vinícius Eutrópio e Joel Santana – em pouco mais de um ano.
O sucesso atual do Fluminense, inclusive, teve de superar os mesmos obstáculos. As contratações de Leandro Amaral, Dodô e Washington – para não citar Gustavo Nery -, fizeram com que Renato Gaúcho demorasse a encontrar a formação ideal. Naturalmente, o time só decolou quando Dodô foi para o banco e Renato abandonou a idéia de jogar com três atacantes.
É indiscutível que o Flu tem um grande trabalho. Fez com que Xerém se tornasse a principal fonte de jovens jogadores do futebol brasileiro, tem dinheiro para montar bons times e oferece uma estrutura suficiente. Mas, daí dizer que faz tudo maravilhosamente bem, é mentira. O sucesso de 2008 poderia ter vindo antes.
Recuperação rápida
Flamengo e Cruzeiro foram rápidos e não deixaram as eliminações na Libertadores atrapalharem o Campeonato Brasileiro. Hoje, após cinco rodadas, lideram a Série A e parecem bem mais seguros que os times naturalmente apontados como os outros favoritos: São Paulo, Fluminense, Internacional e Palmeiras. É cedo para traçar grandes perspectivas, mas já dá para observar pontos interessantes nos dois líderes.
O Cruzeiro confirma o bom futebol que mostrou nos primeiros meses do ano. A eliminação para o Boca Juniors não podia, mesmo, ser encarada como algo trágico. E mesmo perdendo Marcelo Moreno para o Shakhtar, a Raposa continua jogando bem, equilibrada e com variações táticas, e de jogadores, muito interessantes. Adílson Batista é fundamental em todo esse processo.
O Flamengo conseguiu vencer logo após a eliminação incrível diante do América, e assim foi ganhando moral. Caio Júnior fez pequenas modificações no que fazia Joel, e começa a pensar o time sem Ibson, que deve partir da Gávea no meio do ano. Marcinho vem sendo o principal jogador flamenguista e a torcida já pode voltar ao Maracanã.
Os maiores perigos para o Cruzeiro são possíveis saídas de jogadores valorizados. O time está muito bem encaixado e arrumado, mas dificilmente funcionaria sem Ramires e Wagner, por exemplo. Para o Flamengo, a dificuldade de manter o foco é sempre um desafio e esta própria temporada já deixou isso à mostra.
Desvios perigosos
A Ponte Preta parecia fazer um bom trabalho para a disputa da Série B. Renovou o contrato de seus principais jogadores, só perdeu Elias – mas pôs um dinheiro no bolso -, e deixou claro que a derrota na final do Campeonato Paulista não traria efeito nocivo para o planejamento da temporada. Como não poderia trazer mesmo.
Ao contrário do que ocorre com equipes do interior que atingem bom desempenho nos estaduais, a Ponte deixou sempre claro que o objetivo para a temporada, indiscutivelmente, era voltar à primeira divisão nacional. Para reforçar o elenco vice-campeão paulista, trouxe atacantes para Sérgio Guedes: o bom Leandrinho e o trombador Moraes, do Santos.
Sérgio, aliás, vinha sendo parte fundamental nesse processo. Mesmo assediado por equipes da Série A, como o Náutico e o Santos, deixou claro que nenhum dinheiro lhe tirava do Moisés Lucarelli. Sujeito de palavra, manteve o discurso que repetia desde janeiro, quando ressaltava a importância de colocar o clube entre os 20 melhores do país.
Bastou a Série B começar, porém, para o discurso, na prática, sair de cena. Como boa parte das equipes que vivenciaram situação parecida, a Ponte Preta deu uma esfriada, foi claudicante nas últimas rodadas e conseguiu resultados bastante ruins, principalmente uma derrota em casa para o Gama, de virada.
A enorme insatisfação de torcedores e da própria diretoria, que demitiu Sérgio no último sábado, é precoce e injustificável. Se o acesso da Ponte Preta há alguns dias parecia certo, hoje é só um grande ponto de interrogação.



