Brasil

Erros e erros

Diversos esportes surgiram naturalmente na humanidade. Eram atividades físicas cotidianas que se transformaram em esportes assim que duas ou mais pessoas decidiram ver quem era melhor. É assim com corridas de qualquer tipo, lançamentos, lutas, saltos, nado… Nesses casos, a existência de regras serve apenas para criar parâmetros para a competição. Mas é muito claro o que se deve fazer para ganhar.

Mas há esportes muito diferentes, geralmente os coletivos. Não é uma atividade comum do ser humano arremessar bolas a uma cesta pendurada no alto, chutar bolas dentro de um retângulo de metal, dar tapas na bola para que ela bata no chão, dar tacadas e sair correndo em um campo em forma de diamante, pegar uma bola oval e correr com ela até o fim de um campo. Nessas modalidades, a existência de regras é fundamental. Elas moldam a própria existência do jogo.

Por isso, as regras do futebol – como, aliás, muitas das leis – não devem ser vistas apenas como imposições ou formas de punição aos jogadores. Ela deve controlar a relação entre os atletas em campo, mais ou menos como o bom senso e a mediação informal prevalecem nas peladas de colégio ou da turma do trabalho. Por isso, e também por sua origem inglesa, o futebol tem regras interpretativas, que dão ao árbitro de cada partida o poder de decisão.

O brasileiro, talvez por ter uma cultura jurídica diferente – e certamente porque vive em uma sociedade na qual não se dá crédito a autoridades –, insiste em ver o futebol de modo diferente. Eventuais violações às regras são tratadas como crime. “Foi ou não impedimento?” e “foi ou não assassinato?” são dilemas que parecem compartilhar o mesmo universo. O cumprimento dessas leis seriam fundamentais para o funcionamento da sociedade. De fato, deve assim com assassinatos, mas ainda bem que isso não se repete com jogadores adiantados.

No mundo “normal”, uma violação da regra precisa ser punida sempre que possível. No futebol, o importante é manter a legimitidade e o bom andamento da competição. O que torna sem sentido o tempo que – e o modo como – jornalistas, técnicos, jogadores e torcedores perdem discutindo arbitragem.

O último fim de semana do Campeonato Brasileiro foi pródigo em erros de arbitragem. Barueri x Cruzeiro teve dois, ambos cruciais para a vitória mineira. São Paulo x Corinthians teve três, que contribuíram para o empate são-paulino. O Coritiba teve um gol legítimo não marcado contra o Náutico. A própria realização de Internacional x Flamengo foi um erro, ainda que a culpa maior seja do calendário do futebol brasileiro, nem tanto do apitador.

Não há dúvidas de que muitos dos lances polêmicos foram errados. Mas, salvo o gol de Gilberto contra o Barueri, será que eram realmente imperdoáveis? O gol não dado ao Coxa não impediu que o time vencesse. Inter x Flamengo poderia ter sido um jogo muito mais interessante, mas o empate não foi um resultado fora da realidade. E os lances do clássico paulista foram difíceis para quem não tinha o replay à disposição.

O modo como se discute arbitragem no Brasil é infrutífero e nocivo. Tratando-se erros comuns e erros clamorosos como se fossem iguais, como se tudo fosse crime, não é possível lutar pela melhoria da arbitragem (que sempre terá equívocos em lances difíceis, mas precisa melhorar nas jogadas claras), tampouco manter o princípio das regras, que é permitir uma disputa saudável e legítima. Além, claro, de alimentar polêmicas gratuitas e uma sensação falsa de que tudo é pré-arranjado.

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Equipe Trivela

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