Era a Bolívia, mas a Seleção jogou um futebol vistoso para dar esperanças até aos desiludidos

A gente tenta respeitar a sensatez, manter os pés no chão, analisar friamente. Mas tem horas que não dá para esconder aquela pontinha de empolgação. Tudo bem, era a Bolívia, um adversário que ofereceu a mínima resistência na Arena das Dunas. Não é isso que anula a vistosa apresentação da seleção brasileira, sobretudo no primeiro tempo. Goleada por 5 a 0, permeada de belos gols e boas construções coletivas. Ofensivamente, foram raros os jogadores que não tiveram ao menos um momento de destaque. Já sem a bola, o empenho em recuperá-la sufocou a naturalmente ofegante equipe boliviana. Se é para “enganar” os corações de brasileiros desiludidos com a Seleção, Tite vem se saindo muito bem na missão. Entretanto, com três vitórias nas Eliminatórias, parece mesmo a evolução do conjunto que urgia há tempos.
O time-base brasileiro veio com quatro mudanças principais em relação à última Data Fifa. Filipe Luís substituiu Marcelo na lateral, Fernandinho fez o papel de Casemiro na cabeça de área, Giuliano deixou Willian no banco e Philippe Coutinho supriu a lacuna deixada pelo suspenso Paulinho. Todos se saindo muito bem em suas funções, especialmente os dois mais ofensivos no 4-1-4-1. Movimentando-se bastante e chamando a responsabilidade, a dupla ajudou a abrir o caminho na defesa da Bolívia. Filipe Luís, por sua vez, também merece os créditos pela eficiência tanto na defesa quanto no ataque.
O grande protagonista da Seleção, contudo, mais uma vez foi Neymar. O camisa 10 gastou a bola. Participou principalmente da criação e abusou dos dribles, embora também tenha se irritado com facilidade diante das entradas mais duras (várias violentas, a ponto de sair do campo sangrando com uma cotovelada) dos bolivianos. Além disso, ele se entregou até mesmo no combate. E assim nasceu o primeiro gol, aos 11 minutos. A partir de uma roubada de bola, o atacante tabelou com Gabriel Jesus e ficou com o gol aberto para escorar. A energia do camisa 9, aliás, facilitava o trabalho de Neymar em aproveitar os espaços deixados pelo frágil sistema defensivo boliviano.
Sem precisar ser tão incisivo na sequência da partida, embora tenha assustado bastante com Gabriel Jesus e Renato Augusto, o Brasil tocava a bola como queria. Coutinho, principalmente, parecia querer mostrar serviço. E foi ele quem ampliou aos 26, mais discreto na jogadaça de seus companheiros. Daniel Alves passou de letra e Giuliano deixou um marcador no chão, antes de rolar ao atleta do Liverpool. Caminho aberto para o show. Filipe Luís arrancou de trás para fazer o terceiro, após tabelar com Neymar – que, cabe dizer, vinha em posição irregular. Já o quarto teve de novo o toque do camisa 10, em enfiada de bola que Gabriel Jesus finalizou com maestria, por cima do goleiro. Ao fim do primeiro tempo, o time da casa tinha 73% de posse de bola.
Diante de um adversário que não preocupava, o Brasil tirou o pé no segundo tempo. Até assustou no início, com o goleiro Carlos Lampe salvando. Depois, Tite aproveitou para fazer as substituições, mandando a campo Willian, Roberto Firmino e Lucas Lima. O time passou a ser um pouco mais vertical em suas jogadas. E marcou o quinto com selo do Liverpool, em cruzamento de Coutinho que Firmino cabeceou com firmeza. Cabia o sexto? Cabia, mas os brasileiros se limitaram a chutes de longe, sem tanto perigo assim.
Há variação, há empenho, há coletividade. Tudo o que se costumava pedir à Seleção não faz tanto tempo. A Bolívia foi um mero sparring, com míseras duas finalizações contra 18 dos brasileiros. Mesmo com ares de jogo-treino, a noite em Natal serviu principalmente para apresentar as opções. Com três vitórias consecutivas desde a chegada de Tite, o Brasil se afirma na vice-liderança das Eliminatórias, com 18 pontos. É ver como será o amadurecimento deste time, principalmente nas partidas mais importantes. O torcedor até já se acostumou em vencer na caminhada do ciclo e fracassar na Copa do Mundo. Mas raras vezes a Seleção fez isso com um futebol tão vistoso, e dando pintas que pode evoluir ainda mais. Desse jeito, fica mais fácil se deixar enganar. Ou acreditar mesmo no trabalho bem feito.



