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Entre apostas feitas pelo clube, Hernanes é um tiro certo do São Paulo para reconstruir o time

O São Paulo anunciou na manhã de sábado (29) a contratação de Hernanes, de 33 anos. Será a terceira passagem do meio-campista pelo clube, mas diferente da última, que ele veio por empréstimo, sua transferência é em definitivo. O reforço custou € 3 milhões (pouco mais de R$ 13 milhões), um valor alto para um jogador dessa idade, mas parece um bom preço para um jogador tão identificado com o clube e capaz de fazer tanta diferença em campo, como mostrou em 2017.

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“Hernanes é um ídolo, um jogador extraordinário, que tem uma história maravilhosa no São Paulo. É um vencedor, um campeão, um jogador de ótima qualidade técnica que também é um líder dentro e fora de campo, com a mentalidade que queremos para o São Paulo em 2019. Concretizar a volta definitiva dele para cá é a realização de um objetivo grandioso que, tenho certeza, aumenta a capacidade técnica e competitiva da equipe. Estamos muito felizes com isso”, afirmou o presidente Carlos Augusto de Barros e Silva no anúncio, no site do São Paulo.

É justamente esse o primeiro ponto do reforço: Hernanes é um jogador experiente com história no clube. Identificado com o clube para o qual veio quando tinha 15 anos, se formou jogador e se tornou vencedor, campeão, jogador de seleção brasileira. Foi bicampeão brasileiro, em 2007 e 2008. É um reforço como símbolo entre arquibancada e campo, ao mesmo tempo que traz alguém com espírito vencedor em um time muito renovado. Não sobrou ninguém da fase vitoriosa do time. Nem sequer do último título do clube, em 2012. Nenhum jogador daquela conquista permanece no clube.

“No primeiro retorno ao São Paulo, em 2017, o Hernanes mostrou a qualidade que tem como jogador e a diferença que pode fazer. Ele atuou apenas na segunda metade do Brasileirão e teve um rendimento excelente, determinante, foi protagonista num momento muito difícil. Isso mostra a contribuição que ele pode dar como líder em momentos decisivos além da contribuição direta como atleta, reconhecida pelos prêmios que recebeu no ano passado”, declarou o executivo de futebol Raí.

Raí tem razão: Hernanes foi o principal jogador do São Paulo naquela arrancada em 2017, quando o time caía pelas tabelas no início do Campeonato Brasileiro e sentia a ameaça de rebaixamento. Dorival Júnior arrumou a casa, melhorou o rendimento do time e fez de Hernanes o melhor jogador do time e um dos melhores do Brasileiro.

Hernanes, do São Paulo (Foto: divulgação)

Hernanes pode atuar em diferentes formações de meio-campo. Tanto ao lado de um volante, como segundo jogador de meio-campo, quanto um meia mais ofensivo. Do primeiro modo foi como Hernanes se consagrou na sua primeira passagem pelo São Paulo, ao lado de Richarlyson em um meio-campo que marcava forte e jogava com qualidade com a posse de bola. Do segundo modo foi como o meia se consagrou ao chegar à Itália. Atuando um pouco mais à frente, Hernanes usava bem as suas características de bom passe e chute a gol com as duas pernas. O meio-campista pode atuar em um 4-3-3, formando bem a linha de meio-campo para marcar e sair para o jogo, quanto em um 4-2-3-1, como um meia central que ajuda o time a jogar.

“Ter trabalhado com o Hernanes em 2017 me fez ver de perto, aqui no São Paulo, o que ele é capaz de fazer por uma equipe, por um grupo de trabalho. A forma como ele atua como líder e a dedicação diária dele, mesmo já tendo conquistado tantos objetivos profissionais na carreira, fazem diferença e contagiam quem está ao lado dele lutando pelos mesmos objetivos. Nas últimas semanas vimos nele, mais uma vez, uma vontade e um esforço para voltar que foram decisivos para que fechássemos a contratação definitiva”, completou o gerente executivo de futebol Alexandre Pássaro.

O que diz Alexandre Pássaro é um outro aspecto que faltava ao São Paulo de 2018: liderança. O time teve Sidão como capitão em boa parte do ano. O goleiro, mesmo questionado, era um dos principais líderes do grupo. Suas atuações em campo, porém, não ajudavam muito nesse aspecto. Depois de se lesionar e ficar fora alguns jogos – quando Jean não conseguiu aproveitar a chance -, a braçadeira passou para Hudson. O volante foi bem em campo e se manteve como o líder do time até o final da campanha. Faltava, porém, uma referência para o time, em termos de liderança.

Diego Souza e Nene, experientes e tecnicamente muito bons, poderiam exercer esse papel, mas a falta de história no clube prejudica nesse sentido. O rendimento irregular de ambos – Diego Souza no início e Nene no final da temporada – também seria um problema. Nesse sentido, Hernanes chega para ser um líder como o São Paulo se acostumou a ter em Rogério Ceni: identificado com o clube e com um currículo de conquistas. Em um clube há tanto tempo esperando um título enquanto vê os rivais comemorarem seguidamente, é um ganho importante.

Anderson Hernanes de Carvalho Viana Lima, o Hernanes, tinha uma história inacabada no São Paulo. A sua saída repentina no começo de 2018, com a revelação de uma cláusula do contrato que permitia ao Heibei Fortune, seu clube na China, em chama-lo novamente sem precisar do aval do São Paulo foi uma derrapada administrativa do clube. Leco, presidente do clube, tomou uma decisão importante e decisiva ao chamar Raí para ser o seu executivo de futebol e dar ao ídolo da torcida o poder para tomar decisões no que diz respeito ao futebol, especificamente.

Não que o executivo acerte tudo, claro. As contratações do goleiro Jean por cerca de R$ 7 milhões e de Diego Souza, por cerca de R$ 10 milhões, no início de 2018, mostram que talvez fosse preciso escolher melhor. De qualquer forma, Diego Souza acabou sendo o artilheiro do time no ano, enquanto Jean tomou a posição de Sidão no final da temporada – tanto que o ex-goleiro de Botafogo e Audax acertou sua transferência para o Goiás.

Santiago Trellez foi outro comprado a peso de ouro: custou caro, também cerca de R$ 6 milhões, para ser apenas um reserva durante o ano. Outros, como Éverton Cardoso, vindo do Flamengo, e Joao Rojas, do Talleres, acabaram sendo um acerto – ainda que a chegada de Éverton tenha a ver com o empresário do jogador querendo tirá-lo do Flamengo e o São Paulo surgiu como uma possibilidade. Bruno Peres, outro contratado, não rendeu e deve deixar o clube. Para esta temporada, as contratações também são caras, embora a sensação seja de estar mais perto de acertar do que de errar. E, certamente, em termos de organização e negociações, Raí é mais confiável que Leco.

A contratação de Hernanes, contudo, é um tiro certo. O jogador é uma garantia em campo, pela postura, profissionalismo, qualidade técnica e inteligência. Com ele, o São Paulo se fortalece técnica e mentalmente. Ganha um líder pelo exemplo, mais do que pelas palavras, e isso é crucial. E o clube já foi acontecer antes.

Em 2014, com Kaká jogando por empréstimo de seis meses, o time do Morumbi conseguiu ser o vice-campeão e até chegou a sonhar com o título. Tinha Kaká sendo o coadjuvante e líder de um time com Paulo Henrique Ganso, Alexandre Pato e Alan Kardec jogando muito bem. Kaká era o equilíbrio e ajudava o time a jogar melhor, mesmo longe do protagonismo que o fez melhor do mundo em 2007. Sem ele, seria difícil imaginar o São Paulo tendo o mesmo nível de desempenho. A diferença é que Hernanes já mostrou que é o exemplo e também pode ser o melhor do time, ou ao menos um dos melhores, tecnicamente falando.

Pelo São Paulo, Hernanes tem 242 jogos, 131 vitórias, 56 empates e 55 derrotas. Marcou 47 gols no total. Esteve na seleção do prêmio Bola de Prata em 2007, 2008 e 2017. Também foi eleito para o time do ano do Brasileirão no prêmio da CBF em 2007, 2008, 2009 e 2017. EM 2008, foi também eleito o craque do campeonato. Passa a ser o jogador com maior tamanho no vestiário, com uma influência positiva.

Hernanes se junta a Tiago Volpi, goleiro de 28 anos que chega por empréstimo do Querétaro, Pablo, atacante de 26 anos que chega badalado do Athletico Paranaense, Léo, lateral esquerdo de 22 anos, formado pelo Fluminense e de bom Brasileiro pelo Bahia, e Igor Vinícius, lateral direito de 21 anos que veio depois de boa Série B pela Ponte Preta. O próprio São Paulo ressalta outras duas contratações fora de campo: Carlinhos Neves, preparador físico que retorna ao clube, e Sandro Forner, ex-Coritiba, que chegou como auxiliar técnico de André Jardine.

O São Paulo tem gastado muito dinheiro em contratações, como foi neste ano de 2018. Toda contratação é uma aposta, de certa forma. Hernanes é um tiro certo. É o tipo de contratação que tem muito mais chances de funcionar do que todas as outras feitas até aqui por Raí e pelo São Paulo desde o início de 2018. É certamente um bom motivo para o torcedor comemorar, mesmo antes do time entrar em campo. E entrará em campo cedo, porque as fases preliminares da Libertadores exigirão muito do time, em potenciais quatro jogos.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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