Brasil

Entidades místicas do futebol brasileiro: o jogador polivalente

O texto abaixo foi divulgado inicialmente na newsletter da Trivela, no dia 11/09.Assine agora e não perca nenhuma edição, toda sexta no seu e-mail! Para ver os episódios anteriores da série, clique aqui.

O lateral esquerdo titular está machucado. O reserva, suspenso. Tem alguns moleques na base, mas o treinador não sente aquela confiança. Teme pelo seu emprego. Vai que coloca o garoto e todos os gols do adversário saem por ali? O que importa no Brasil são os resultados. Melhor improvisar. Até porque, se der certo, terá “achado uma solução”. Se der errado…bom, não precisamos de negatividade neste momento. Ele pega a lista do elenco para pensar em qual jogador pode exercer essa função e decide pelo meia canhoto que não é tão ruim (ou tão bom) nem no ataque e nem na defesa.

LEIA MAIS: Um rei brasileiro na Inglaterra: 20 anos da estrondosa passagem de Juninho pelo Middlesbrough

O jogador aceita o fardo de atuar fora de posição porque precisa provar com ações o discurso de estar sempre disponível para ajudar o time e seguir as ordens do professor. E se ele conseguir se firmar, matematicamente tem mais chances de ser titular, pois pode jogar em mais de uma posição, e será conhecido no mercado como o jogador que pode sempre quebrar o galho, um profissional muito valorizado em um futebol com elencos curtos e pouco dinheiro.

O processo que começou na boa vontade acaba definindo a sua carreira. Ninguém mais lembra direito a sua posição de origem. Na mesa do bar, vários acham que ele é volante, muitos cravam que é lateral, e tem uns dois perdidos achando que é zagueiro, mas ninguém lhes dá ouvidos. Gritam aos ventos. E não é mais relevante essa discussão porque, para sempre, ele será conhecido como o jogador polivalente.

richarlyson

Richarlyson foi um caso clássico de versatilidade, outro jeito de nomear o nosso faz-tudo. Ele chegou ao São Paulo como “meia do Santo André”. No melhor momento da carreira, fez a dupla de volantes com Hernanes no time de Muricy Ramalho e foi convocado para a seleção brasileira. Como lateral esquerdo. Atuou assim contra a Irlanda e contra a Suécia, porque os boatos de que era um bom coringa já haviam ressoado nos ouvidos de Dunga. A diferença aqui é que o técnico do Brasil pode colocar qualquer lateral esquerdo que nasceu entre o Oiapoque e o Chui no seu time e preferiu um quebra-galho. Mas esse é outro assunto.

Richarlyson também chegou a ser usado como zagueiro pela esquerda, e as mudanças de posição foram tantas que resultaram em uma certa crise de identidade. “Engraçado porque todo mundo pergunta qual a minha posição fixa e eu não sei definir”, disse.

A Wikipedia define Iomar do Nascimento como ex-meio campo e lateral esquerdo, mas isso é muito pouco para explicar o futebol de Mazinho. O jogador que se destacou em Vasco e Palmeiras atuou nas duas laterais e em várias posições do meio-campo. Deve ser uma espécie de lenda na reunião anual do clube dos polivalentes porque sua voluntariedade foi premiada da melhor maneira possível: com a titularidade na Seleção campeã do mundo em 1994. “Eu fazia a função que o Parreira exigia”, disse à Rádio Gaúcha. “Era difícil suprir um jogador como o Raí, nossas características são diferentes, mas minha sorte é que eu já tinha atuado em várias funções, e jogar no meio-campo pelo lado direito não gerava dificuldades”.

O jogador polivalente na sua plenitude, com versatilidade em todos os fios do cabelo castanho claro, foi mesmo Wilson Mano, o segundo volante que mais fez gol pelo Corinthians, com 35 bolas na rede, e que também deveria fazer parte da lista de artilheiros de outras posições. Todas as outras. “Só não fui goleiro”, contou, rindo, ao site do clube paulista, e de fato, ele disputou suas 405 partidas pelo Timão nas laterais, na defesa, no meio-campo e no ataque. Como se Nelsinho Baptista, técnico do auge de Wilson Mano pelo Corinthians, girasse o pião da casa própria antes do apito inicial e sorteasse a posição do jogador. “Foi uma necessidade da época”, disse.

Sempre começa por necessidade. Sempre é “quebra esse galho só uma vez”. Mas o treinador acostuma-se a contar com ele para o que der e vier, e de repente, o jogador tem tantas posições que uma só não consegue defini-lo. E os torcedores cornetam que, na verdade, ele não é bom em nenhuma e só tem espaço no time porque consegue ser razoável em várias delas. Uma opinião que pode ser injusta e ao mesmo tempo incrivelmente precisa.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo