Enfim podemos dizer que Garrincha é um dos 100 melhores jogadores que o Brasil já teve
Ademir da Guia, Carlos Alberto, Didi, Djalma Santos, Domingos da Guia, Falcão, Friedenreich, Gérson, Gilmar, Jairzinho, Leônidas, Pelé, Nílton Santos, Ronaldinho, Reinaldo, Rivaldo, Rivellino, Romário, Ronaldo, Sócrates, Tostão, Zico, Zizinho. Qualquer lista de cem melhores jogadores brasileiros de todos os tempos terá esses nomes, na ordem que for. Mas não tinha necessariamente Garrincha. Nada contra o futebol do maior jogador da história do Botafogo, de uma das estrelas máximas do momento mais vitorioso do futebol brasileiro, do dono da Copa de 1962. O problema era jurídico.
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Nesta quarta, o Supremo Tribunal Federal decidiu liberar a publicação de biografias não autorizadas, entendendo que a obrigatoriedade da autorização representa censura e fere a liberdade de expressão. É a interpretação adotada na maior parte do mundo, mas era contestada devido ao uso da imagem e revelação de informações privadas.
Por anos, biografados usaram artigos do Código Civil para vetar as publicações, proibindo escritos sem autorização sobre pessoas com fins comerciais. A partir da decisão do STF, os livros estão liberados e respondem aos mesmos critérios de veículos de imprensa, estando sujeitos a processos e condenações por informações falsas ou caluniosas.
A causa era encampada principalmente pelo meio artístico e político, mas também tinha adeptos no esporte. Os mais ilustres são familiares de Garrincha. Herdeiros do craque chegaram a entrar na Justiça e tirar de circulação a biografia do jogador escrita por Ruy Castro. Além disso, criaram dificuldades para diversos autores que se interessaram em publicar algo sobre o jogador. No caso, o interesse era menos nas informações sobre a vida privada do ex-botafoguense e mais a cobrança de um valor pelo uso da imagem em um produto que eles consideravam comerciais.
Os jornalistas André Kfouri e Paulo Vinícius Coelho sabem bem disso. Em 2009, eles escreveram “100 Melhores Jogadores Brasileiros de Todos os Tempos“. O livro conta rapidamente a história de cem craques, com um mini-currículo, texto e uma ilustração para cada um. Durante a elaboração da obra, a editora Ediouro contatou os jogadores ou, no caso dos já falecidos, seus familiares. Conseguiram a autorização de 99. “A família de Garrincha foi a única a não autorizar. Pior, eles não autorizaram e ainda disseram que iriam à Justiça para tirar de circulação todos os exemplares se o livro fosse publicado com menção ao Garrincha”, conta Kfouri.
A solução foi levar ao leitor a história de 99 jogadores, e um capítulo sem texto e sem currículo, apenas a ilustração de uma camisa alvinegra com o número 7. Uma forma de manifesto silencioso. Tudo porque o uso equivocado de um artigo do Código Civil limitou a liberdade de informação e levou ao surgimento de alto impensável: uma lista de maiores craques do futebol brasileiro sem Garrincha.




