Brasil

Empatesintomático

Nenhuma equipe do mundo enfrentaria a Seleção Brasileira no Rio de Janeiro considerando o empate um resultado ruim. Algumas poucas ainda teriam coragem de tentar encarar o Brasil, mas a esmagadora maioria ficará na defesa, sonhando com o surgimento de algum contra-ataque. Qualquer pessoa com um mínimo de familiaridade com o futebol sabe que a Bolívia faria isso no Engenhão. O que surpreende é que, aparentemente, o Brasil não sabia.

A Bolívia entrou em campo em um 4-4-2 bastante tradicional, com duas linhas (defesa e meio-campo) muito definidas e dois atacantes isolados na frente. É um sistema de jogo pouco usado no Brasil, mas é o mais comum na Europa, de onde vêem quase todos os jogadores da Seleção. Como a idéia do técnico Erwin Sánchez era perder de pouco, a postura foi conservadora. Assim, os atacantes voltavam para marcar no meio-campo e a linha de meias ficou bastante recuada, se aproximando dos quatro defensores de modo a congestionar os últimos 25 m de campo.

É um esquema simples e passível de falhas considerando a baixa qualidade técnica da seleção boliviana e a incessante pressão à qual era ficou sujeita. Mas funcionou. O ponto mais marcante do empate por 0 a 0 contra os bolivianos foi a falta de opções ofensivas. Não havia alternativas para testar a resistência do adversário. Se a infiltração não funcionava, o Brasil continuava insistindo nela. No máximo, tentava alguma jogada aérea, mas sem organização suficiente para que elas tivessem boas chances de sucesso.

Aí está o dedo do técnico e de alguns jogadores-chave como Robinho e Ronaldinho. Durante o tempo em que a Seleção fica na Granja Comary, não há tempo para criar sistemas táticos complexos. Mas é possível treinar jogadas ensaiadas, ultrapassagens, modos de acionar outros jogadores. Ou seja, fazer um mínimo para o Brasil ter um jogo diversificado e que se adapte às condições apresentadas pela partida.

No caso do duelo contra a Bolívia, o time de Dunga foi quadrado. Por exemplo, quando o adversário congestiona sua área, a equipe precisa desenvolver mais jogadas em outros setores do campo. Por exemplo, usando jogadores que ficam teoricamente mais atrás e, por isso, não têm tanta marcação.

A opção mais simples seria usar mais os volantes. Podendo atuar antes da linha de marcação boliviana, eles têm condições de lançar com mais cuidado ou mesmo arrematar de longa distância. Lucas e Hernanes têm características adequadas para essa função. Meias como Ronaldinho e, principalmente, Diego também poderiam recuar esporadicamente para pegar a defesa desprevenida. A defesa pode adiantar sua marcação para tirar os volantes de ação, mas acabará abrindo espaços atrás.

Outra possibilidade seria movimentar bastante os jogadores de frente, o que desnortearia os marcadores bolivianos e, em alguns momentos, abriria espaços. Nessas duas situações, a defesa boliviana poderia até ter sucesso e segurar o empate. Mas estaria em desvantagem estratégica no duelo com o ataque brasileiro.

No entanto, tal maturidade tática só ocorre se os movimentos forem treinados e se o técnico der orientação aos jogadores para buscarem alternativas ofensivas. Os jogadores mais experientes e capacitados do elenco também podem liderar o processo, assumindo a responsabilidade de conduzir as jogadas. Mas Dunga não treina a Seleção adequadamente, tampouco passa confiança aos jogadores mais importantes. Nem o mínimo, que seria “incendiar” o grupo para que se entregassem em campo, foi feito. Os brasileiros foram passivos, como se o jogo nada valesse.

A impotência tática, técnica e psicológica do Brasil contra a Bolívia evidenciou problemas que foram ocultados na partida contra o Chile. Em Santiago, os chilenos se abriram em demasia confiando em um suposto favoritismo e deixaram uma defesa extremamente frágil desprotegida diante do ataque brasileiro. Aí, o excesso de espaços, a ingenuidade do trio defensivo chileno e a determinação em vencer a qualquer custo (para calar os críticos, a começar pelo presidente Lula) compensaram qualquer falta de treino e permitiu que Luis Fabiano e Robinho comandassem os 3 a 0 da Seleção.

A vitória sobre o Chile foi convincente, por mais que o adversário tenha feito tudo par expor suas fraquezas e esconder suas virtudes. Mas o jogo mais sintomático da rodada dupla das Eliminatórias foi o empate com a Bolívia. Essa partida, sim, mostrou as carências do Brasil de Dunga.

 

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Equipe Trivela

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