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Em diferentes aspectos, o clássico entre São Paulo e Corinthians entrou em ebulição

Há poucas certezas tão grandes no futebol quanto um clássico de ânimos exaltados. Principalmente quando os últimos duelos vêm sendo bastante movimentados, quando há trocas de farpas públicas, quando a rivalidade se alimenta muito além dos próprios encontros em campo. O embate, no fim das contas, serve como o apogeu de todo o contexto. E era de se esperar que, em um dérbi com 51,8 mil presentes nas arquibancadas do Morumbi, o clima esquentasse no Campeonato Paulista. Corinthians e São Paulo fizeram um primeiro tempo pouco interessante. No entanto, a etapa complementar entrou em ebulição. Prevaleceu o empate por 1 a 1, assim como uma série de discussões sobre o que aconteceu no Majestoso.

Naquilo que realmente interessa (ou deveria interessar) a todos, a bola rolando, algumas marcas deste início de temporada se repetiram, sobretudo no segundo tempo. O São Paulo tentou ser ofensivo e atacar em velocidade. Marcou o gol em uma bola parada, com Maicon. Entretanto, justamente num erro de marcação do zagueiro, a vulnerabilidade nas bolas aéreas voltou a perturbar. Enquanto isso, o Corinthians mantém o seu jogo defensivo, com postura resguardada, e dependeu do poder de decisão de Jô. O centroavante, que já havia balançado as redes contra Palmeiras e Santos, buscou o empate. Por aquilo que aconteceu estritamente no jogo, a igualdade é bastante compreensível. O problema é que o clássico esteve distante de se concentrar apenas na bola.

A arbitragem, por sua vez, desagradou a todos. A falta de pulso de Vinícius Furlan foi gritante. Especialmente em um dérbi no qual já se esperava que os nervos estivessem mais à flor da pele. Poderia ter expulsado Cícero no primeiro tempo, por solada. Já na etapa complementar, se perdeu. Deveria ter expulsado Wellington Nem, duas vezes, especialmente pela entrada desleal em Léo Jabá. Do mesmo jeito, ficou barato a Pablo, que não viu cartão por carrinho em Wellington Nem, quando deveria receber o segundo amarelo. Ao final, o são-paulino foi para o chuveiro mais cedo justamente pelo lance em que menos merecia.

E ainda houve a discussão (um tanto quanto enfadonha) sobre a comemoração de Maicon. A provocação não é exatamente uma novidade em um clássico e nem necessariamente um ato execrável.  No entanto, todas as partes envolvidas agiram com certa demagogia: o zagueiro, por tentar negar o óbvio na saída do Morumbi, dizendo que não provocou; os jogadores corintianos, pela reclamação, como se não tivesse acontecido nada durante a semana; e o árbitro, naquele show de autoritarismo coordenado pela Fifa, fazendo uma avaliação moral sobre a celebração. Após o jogo, os rivais concordaram apenas em um aspecto: “o futebol está chato”.

Afinal, o que ficou chato no futebol? Há uma dose cavalar de subjetividade nesta resposta. Mas repetir o clichê se torna irresistível, quando quase sempre ele não passa de uma frase de efeito vazia, buscando limpar a própria barra. Quando serve de álibi para desviar as atenções, sem assumir os próprios atos e as suas consequências.  E, que fique claro, o ponto aqui não se centra em uma dicotomia entre provocar ou ser provocado, sem entrar nos méritos disso. Chato mesmo é ver cada uma das partes tentando se colocar como dona de uma pretensa razão, sendo que tudo não passa de uma questão de ponto de vista – mal este que não é apenas de São Paulo ou Corinthians, mas de uma realidade um bocado moralista do futebol. Falta mais atitude, genuína, no esporte. E, apesar de interessante em partes, o Majestoso precisou conviver com estas pequenas chatices.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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