Em cada comentário de futebol internacional no Brasil, há um pouco de Silvio Lancellotti
Jornalista, falecido aos 78 anos, não teve sua única faceta profissional no esporte - mas nela foi um pioneiro inquestionável

Havia quem fizesse piadas das palavras antigas que Silvio Lancellotti usava em seus comentários nas tantas transmissões de jogos de futebol internacional que fez – como “prélio”, “pugna” ou mesmo “contenda”, todos sinônimos de jogo ou partida (Silvio dizia fazer isso para não soar repetitivo, além de enriquecer o vocabulário do espectador). Havia quem fizesse piadas de informações tão periféricas que soavam até duvidosas nas transmissões. Havia até quem desgostasse das várias reminiscências que ele fazia, de suas longas andanças – como esquecer que ele “foi” o autor do primeiro gol da história do Mineirão? Porém, as piadas talvez só fossem feitas pelo fato de que o jornalista/escritor/arquiteto/gourmet, falecido nesta terça-feira, aos 78 anos, vítima das complicações de um infarto, era uma figura que inspirava carinho. Até por ser um pioneiro indubitável no acompanhamento de futebol internacional no Brasil – que teve na sua relação com o Campeonato Italiano o símbolo máximo disso.
Em 1969, a sorte com Zaluar; em 1970, a sorte no palitinho
Nascido em São Vicente, litoral paulista, “Lance” (como ficou conhecido no meio jornalístico, principalmente pelos colegas de geração) amou o futebol desde a mais tenra idade. Lembrava-se sempre, por exemplo, de ter ido com o pai, Edoardo, e a mãe, Helena – apelidada “Nena” no meio familiar -, ao Rio de Janeiro, em 1950, para acompanhar a reta final da Copa do Mundo daquele ano. Ao assistir ao Brasil x Uruguai, nas arquibancadas do Maracanã, Silvio guardou na memória a visão do pai fazendo questão de ficar até o fim da traumática derrota da Seleção, para aplaudir o título que o Uruguai conquistava. Muitos anos mais tarde, redigiria: “Uma lição de esportividade e de compostura que jamais esquecerei”.
O tempo foi passando. Na infância, Silvio já tinha duas paixões futebolísticas. No Brasil, o Corinthians tomou seu coração – embora, em 2010, o jornalista advertisse: “Embora um corinthiano, não faço parte do clã daqueles que ironizam os fracassos do Palmeiras. Principalmente em homenagem ao meu pai, um democrata, que nunca me criticou pela escolha antifamiliar. Ao contrário, até que eu pudesse ir ao campo sozinho, invariavelmente meu pai me carregava aos jogos do alvinegro”. Na Itália de ascendência tão direta, Silvio sempre declarou seu amor pela Juventus.
E as paixões se avolumaram no seu crescimento. Silvio se aprofundou na outra paixão de sua vida: a cozinha – inspirado pelo pai, também hábil no preparo de pratos, dominou a culinária para valer desde a adolescência. Depois, se formou em Arquitetura – e mesmo já jornalista renomado, manteve por algum tempo um escritório no setor. Em 1968, instigado por um anúncio da Editora Abril, foi incluído no projeto de nascimento de uma revista semanal de informações – e terminou por ser o primeiro editor de Assuntos Internacionais da revista “Veja”, trabalhando nela antes mesmo do lançamento oficial em bancas de revista. Nos quatro primeiros anos, sendo mais proximamente ligado aos temas dos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã, o assassinato do senador Robert Kennedy e as questões da gestão de Richard Nixon na presidência norte-americana.
Porém, Silvio aproveitava as chances que surgiam para lidar com as raras pautas futebolísticas na “Veja”. A primeira delas, em novembro de 1969, lhe trouxe sorte. A “Veja” faria uma matéria se valendo da proximidade do milésimo gol de Pelé para abordar a paixão brasileira pelo futebol. Viajando ao Rio de Janeiro, para o Santos 2×1 Vasco em que o gol afinal ocorreria, o jornalista tirou a sorte grande no voo: o passageiro a seu lado era simplesmente Zaluar Torres Rodrigues – que, em 1956, goleiro do Corinthians de Santo André, tomara o primeiro gol marcado profissionalmente por Edison Arantes do Nascimento, e se orgulhava publicamente disso. Falando ao site “Surto Olímpico”, Silvio riu: “A imprensa toda do país atrás do Zaluar e ele caiu no meu colo…”
A sorte vivida em 1970 seria ainda mais marcante. A ainda iniciante “Veja” designou dois jornalistas para viajarem ao México e cobrirem a Copa do Mundo. Um deles já era certo: Tim Teixeira, editor de esportes da publicação. Outro ficaria para definição num jogo de palitinho. Numa “melhor-de-três” mediada por Mino Carta, diretor de redação da revista na época, Lancellotti disputou o outro posto de viagem ao México com Armando Salém. Ganhou. No México, trabalhou junto a Tim Teixeira – e a jornalistas como Michel Laurence (1938-2014) e José Maria de Aquino, membros da redação da “Placar”, publicação esportiva que a Abril começara naquele ano.

Silvio sofreu com três coisas: a altitude, o trabalho incessante e as poucas roupas para o longo tempo de viagem. Em 2010, comentando sobre o longo tempo de hotel com Tim Teixeira, foi curto e grosso na descrição: “Fedíamos”. No 21 de junho de 1970 da final contra a Itália, Silvio teria responsabilidade ainda além do trabalho: teria de guiar o carro a levar toda a equipe da Abril, “Veja” e “Placar”, para o estádio Azteca. Ficou tão nervoso que simplesmente começou a viagem se esquecendo de levar Michel Laurence para lá (Michel tomou um táxi). Só o título do Brasil, com os 4 a 1 da final, fez com que ele esquecesse o nervosismo. E ficasse com as boas memórias que relatou aqui.
Em 1972, o periodista ganhou uma bolsa de estudos da Editora Abril, na Universidade de Stanford, na Califórnia. Para lá foi, seguindo o trabalho como editor de Assuntos Internacionais – e cobrindo de perto a reeleição de Richard Nixon à Casa Branca. Mas também ampliou sua intimidade com o esporte em geral: aproximou-se do futebol americano e do beisebol (este, convertido em paixão definitiva) no tempo passado em Stanford.
De volta ao Brasil em 1973, Lancellotti se afastou mais do esporte. Na revista “Veja”, foi para a editoria de Artes e Espetáculos. Ganhou proximidade da música: fez trabalhos com grandes nomes da música brasileira para a “Série Documento”, colaboração que prestou para a TV Bandeirantes, e uma entrevista para a “Veja” em 1974 lhe rendeu grande e longa amizade com Elis Regina (1945-1982). A vinculação maior à cultura continuou quando Silvio se transferiu para a “Istoé”, em 1977 – além de dirigir, simultaneamente, a revista “Vogue”. Paralelamente, ele seguia com o escritório de Arquitetura.
Mas logo o futebol voltaria. E seria para valer.
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Do jogo de botão ao jogo na Itália
Na “Istoé”, Silvio arrumou um espaço para colaboração futebolística. Em janeiro de 1982, deu o pontapé inicial na cobertura da publicação para a Copa daquele ano ao organizar a pesquisa e a redação de “Espanha 82”, série de fascículos com a história do futebol e dos Mundiais, além de um alentado guia detalhando cada uma das 24 seleções que participariam da Copa. Mas sua principal colaboração com o futebol viria a partir de um “hobby profissionalizado”, como ele brincou em depoimento ao jornalista Nivaldo de Cillo, para o programa “Doc. Bandsports”, em janeiro de 2020.
Além de todas as atividades profissionais, Silvio tinha uma paixão no tempo livre: o futebol de botão. E tinha um parceiro muito próximo na paixão: seu filho, Eduardo Penteado Lancellotti, então adolescente, hoje publicitário. Ambos organizavam campeonatos de botão, chegando ao ponto de encomendarem os botões numa fábrica paulistana. Porém, querendo tornar a brincadeira mais detalhada, com botões de times internacionais, Eduardo reclamou ao pai: não sabia os nomes dos jogadores do exterior.
Bastou: pouco tempo depois, Silvio Lancellotti passou a assinar a “Gazzetta dello Sport”. O conhecimento trazido pelo célebre jornal italiano de esportes (e tantas outras publicações que passou a assinar) fez com que todos os times de botão que o pai tinha com o filho Eduardo passassem a ter os nomes dos jogadores anotados em etiquetas e colados nos botões. Falando a uma entrevista ao site da editora “L&PM”, Silvio reconheceu: “Ficamos, os dois, especialistas amadores em futebol internacional”.
Paralelamente, as outras facetas profissionais seguiam. Àquela altura, mesmo mantendo a Arquitetura como fundamento profissional, Silvio migrara da “Istoé” para a “Folha de S. Paulo” – e em 1982, após o grande sucesso de uma coluna que escrevera sobre a história da pizza, foi convidado para também escrever sobre Gastronomia.

E em 1984, enfim, o futebol virou tema regular na carreira profissional de Silvio Lancellotti. Certo dia, almoçando com Luciano do Valle, começou a falar sobre o futebol italiano. O conhecimento impressionou tanto o narrador e diretor de esportes da TV Bandeirantes que ele fez a proposta: Silvio estava convidado para comentar uma partida do Campeonato Italiano, um dos trunfos da emissora paulista, que começava naquele ano a exibir o célebre “Show do Esporte” aos domingos.
Silvio foi. Falando a Vanderlei Lima, para o UOL, em 2019, foi sincero: “Fui preparadíssimo, tinha idade, altura, peso de todos os jogadores, sabia onde moravam, o que eles comiam e etc. Modestamente, sem nenhuma vaidade, eu dei um puta show na transmissão e todo mundo se impressionou. No dia seguinte, o Luciano me chamou para ser comentarista do Italiano”.
Começava ali a sua vinculação definitiva com o que já conhecia tão bem, até pelo histórico familiar: o futebol italiano.
E isso ainda teria o capítulo mais vivo.
O especialista em “Calcio” marca época com o “xará” – sem deixar o resto do futebol
Seguindo na “Folha de S. Paulo”, Silvio Lancellotti continuou abordando o futebol internacional. Pelo diário paulistano, cobriu momentos fundamentais – como quando, às vésperas da Copa de 1990, contou ter viajado de avião atrás de Ricardo Teixeira, já então presidente da CBF, ouviu dele frases como “O Lazaroni é burro, só não demito esse cara porque ficou tarde demais” e as relatou no jornal. Mais do que isso: naquela mesma Copa, correu Itália afora, cobrindo várias outras seleções, como Inglaterra, Holanda, a Itália de que era tão próximo… e a Argentina. Nesta, acompanhou os vários problemas físicos de Diego Maradona durante o Mundial – numa das reportagens para a “Folha” em 1990, redigiu que o inchaço do tornozelo de Maradona tinha “o diâmetro de um ‘pomello’, uma laranja.
Mas àquela altura, já era claro: se Silvio Lancellotti era símbolo de algo dentro de futebol, era dos mistérios e da cultura do futebol italiano. A vinculação quase umbilical se consolidou de vez a partir de 1987: Silvio virou o principal comentarista das partidas da Serie A, que a Bandeirantes exibia no domingo, quase sempre com a narração de… Silvio Luiz, que virou um amigo, conforme a lembrança ao UOL em 2019: “A parceria era perfeita. O Silvio é um cara por quem eu tenho um carinho e uma admiração. É um cara que amo. A gente fumava muito e a cabine era um inferno. Um dia, a Band proibiu que a gente fumasse na cabine, mas a gente fumava escondido”.
Além da “dupla SL” (que também trabalharia junta nos jogos da Copa Zico, como ficou conhecido em 1990 o clássico torneio de seleções nacionais de veteranos – aqui, a final entre Brasil e Holanda), uniu-se às transmissões do Campeonato Italiano um nome conhecido da época, ampliando a vinculação à cultura da Bota: Giovanni Bruno (1936-2014), dono da cantina Il Sogno di Anarello, um dos restaurantes mais célebres de São Paulo naquele fim de década de 1980. Juntos, os três relatariam os históricos títulos nacionais do Napoli, guiado por Maradona e Careca, em 1986/87 e 1989/90; as conquistas do Milan em 1987/88 e 1991/92, com o trio Rijkaard-Gullit-Van Basten à frente; e os títulos de Internazionale (1988/89, com Lothar Matthäus como destaque) e Sampdoria (1990/91, com Toninho Cerezo, Gianluca Vialli e Roberto Mancini como símbolos).
Entre tantas histórias engraçadas, uma merece citação. Num jogo do Napoli, Silvio Luiz narrava com franca inclinação pelos Partenopei, até pela presença de Careca – ou “Carecone”, como o atacante brasileiro passou a ser galhofeiramente chamado. Porém, no dia, o Napoli perdeu, tomando um gol no final. Silvio Luiz, então, mostrou seu desalento perguntando a Giovanni Bruno: “Giovanni, como se diz ‘a vaca foi para o brejo’ em italiano?”. O convidado especial de sempre respondeu: “Bem… é ‘la mucca è andata in montagna”. Silvio Lancellotti, já rindo um pouco, interferiu: “Mas o Silvio disse ‘brejo’, não ‘montanha’, Giovanni!”. E o terceiro terminou: “É, mas como na Itália não tem brejo, a vaca foi para a montanha mesmo”.
Apenas um caso, de tantos que criaram forte memória afetiva dos acompanhantes brasileiros de futebol internacional com o Campeonato Italiano, esteja ele na fase em que estiver.
(Íntegra de Napoli 1×1 Milan, pelo Campeonato Italiano 1990/91, na transmissão da TV Bandeirantes, com a narração de Silvio Luiz e os comentários de Silvio Lancellotti. Postado no YouTube por Salomão)
O vínculo com a Itália – e com o futebol – continua
Silvio Lancellotti chegou à década de 1990 seguindo com a vinculação profissional com o futebol. Mais precisamente, com o futebol italiano. Mesmo quando o narrador não era Silvio Luiz, era ele o comentarista das transmissões da TV Bandeirantes para o Campeonato Italiano, ao longo dos primeiros anos da década. Além do mais, com a Copa de 1990 sendo na própria Itália, mesmo mais envolvido com a cobertura da “Folha”, Lancellotti volta e meia participou de programas do canal naquele torneio – e até mesmo fez comentários, em partidas mais alternativas daquele torneio. Nada mais natural para quem conhecia a cultura do país-sede como a palma da mão.
(Lances de Torino 1×1 Milan, pelo Campeonato Italiano 1992/93, na transmissão da TV Bandeirantes, com a narração de Jota Júnior e os comentários de Silvio Lancellotti)
Na “Folha de S. Paulo”, não só ganhou uma coluna sobre futebol internacional – a “Futebol no Mundo”, de publicação semanal, até 1997 -, como cobriu a Copa de 1994. Nela, disse ter acompanhado toda a história do doping que causou a exclusão de Maradona naquela Copa. Na supracitada entrevista ao UOL, em 2019, jurou: “O Maradona não se dopou em 94. Ele estava tomando remédio para emagrecer e foi sacaneado pela própria AFA [Associação de Futebol Argentino]. No livro, conto como a mulher do Julio Grondona [ex-presidente da entidade] odiava o Maradona. Ela falava aos berros: ‘esse índio tem que se foder’. Odiava por preconceito racial. Conto em detalhes”.
Por falar em livro, se Silvio teve incursões literárias conhecidas – seu “Honra ou Vendetta” inspirou a novela “Poder Paralelo”, da TV Record, além de tantos livros de receitas -, ele já lançara uma enciclopédia olímpica de fôlego: “Olimpíada 100 anos” (São Paulo, Nova Cultural, 1996), com todos os resultados de todas as competições dos Jogos Olímpicos. E em 1998 foi a vez dele se focar na Copa do Mundo. “Almanaque da Copa do Mundo” (Porto Alegre, L&PM, 1998) foi um desenvolvimento do trabalho insinuado naquela longínqua série de fascículos para a revista “Istoé”, em 1982. Também era completo: todas as fichas dos jogos dos Mundiais entre 1930 e 1994, quase todos os jogadores relacionados pelas seleções (faltou espaço), um breve histórico do futebol, um breve histórico de cada Copa. E o lançamento teve o que hoje seria chamado “spin-off”: “Brasil, o (quase) campeão do século”, lançado logo após o Mundial da França, com o mesmo formato – todos os convocados, todas as fichas, todos os jogos da Copa de 1998, além de um longo texto abordando o ocorrido com Ronaldo antes da final.
Mas o Campeonato Italiano era, como sempre seria, a grande paixão de Silvio Lancellotti relativa ao futebol. A Serie A deixou de ser exibida pela Bandeirantes, em 1994. Mas não perdeu os comentários de Silvio: apresentando o programa independente “A Cozinha do Lancellotti”, na TV Manchete, ele foi a óbvia escolha quando a TVN, produtora dirigida por Osmar Santos, comprou os direitos de exibição do torneio, a partir da temporada 1994/95.
(Abertura da transmissão de Juventus 3×2 Fiorentina, pelo Campeonato Italiano 1994/95, na transmissão da TV Manchete, com a narração de Osmar Santos e os comentários de Silvio Lancellotti. Antes, os melhores momentos dos jogos da rodada anterior. Postado no YouTube por Guilherme Lima)
O Campeonato Italiano mudou novamente sua sede televisiva: a partir de 1995/96, foi para a TV Record, que também exibiu a Liga dos Campeões daquela temporada. E Silvio teve ali um espaço para expor todo o seu conhecimento esportivo: mesmo que a “Cozinha do Lancellotti” seguisse na TV Manchete, o jornalista se tornou o comentarista das “giornatas” (rodadas) do Calcio na Record, e também foi a voz a comentar as partidas da Champions League, na rápida experiência que o canal paulistano teve no fim dos anos 1990. De quebra, ainda comentou várias modalidades – de boxe a iatismo – nas transmissões da Record para os Jogos Olímpicos de Atlanta.
(Abertura da transmissão de Internazionale 1×1 Milan, pelo Campeonato Italiano 1995/96, na transmissão da TV Record, com a narração de Carlos Valadares e os comentários de Silvio Lancellotti. Antes, os melhores momentos dos jogos da rodada anterior, com a apresentação de Silvio. Postado no YouTube por Guilherme Lima)
O tempo passou. Em 1997, Silvio deixou a coluna “Futebol no Mundo” para Rodrigo Bueno, outro jornalista que começava a conhecer o futebol internacional na Folha de S. Paulo. Em 1998, parou também de comentar o futebol italiano na televisão. Ausência que durou alguns anos. Mas não muitos. Em 2003, a ESPN exibia os Jogos Pan-Americanos, em Santo Domingo, com o beisebol como uma das modalidades. Então diretor de jornalismo do canal, José Trajano se lembrou do gosto de “Lance”, colega de geração, pelo esporte. E aí, ele se lembrou ao UOL, em 2019: “Eu tinha uma antena parabólica que pegava aquele canal das forças armadas americanas, isso antes da ESPN. Acho que eu era um dos cinco brasileiros que viam beisebol e alguém contou para o José Trajano que eu entendia. Ele estava precisando de um comentarista de beisebol para o Pan-Americano de 2003, em Santo Domingo, e eu fui”.
Além do mais, a ESPN possuía então os direitos de transmissão do Campeonato Italiano. Era óbvio: tão logo o Pan-Americano se acabou, Lancellotti fechou contrato para voltar ao Calcio que conhecia tão bem. Ali reencontrou aquela liga – e outras mais alternativas (chegou a comentar o Campeonato Holandês), e outros esportes (comentou beisebol vez por outra, e também apareceu no futebol americano). Ali, até, comentou jogos de Copas do Mundo, em 2006 e 2010, ficando na equipe de retaguarda da redação, em São Paulo. E ali, acima de tudo, reforçou sua marca simbólica do futebol italiano no Brasil. E a própria ESPN incentivou isso – a ponto de fazer uma matéria mostrando suas reações, enquanto comentava o Eslováquia 3×2 Itália, que eliminou a Azzurra da Copa de 2010, ainda na fase de grupos. Seu estilo era até gozado em programas humorísticos: “Milton Bolotti”, comentarista de várias divagações criado pela trupe dos programas “Hermes & Renato”, lhe fazia rir, e o Casseta & Planeta também chegou a ostentar um “Silvio Lanchonete” em alguns esquetes.
A longa colaboração com a ESPN acabou em 2012, simultaneamente à perda dos direitos de transmissão da Serie A para o FOX Sports que surgia então – e também simultaneamente à saída de José Trajano da direção de jornalismo, coincidência que chateava Lancellotti, quando relembrou ao UOL em 2019: “Ficou claro que foi uma limpa de todo mundo que era ligado ao Trajano. O Trajano foi sacaneado”. Fosse como fosse, sua carreira continuou. Preferencialmente, em textos: Lancellotti começou naquele ano o blog “Copa & Cozinha”, no portal R7.

A trajetória ficou mais dificultada a partir de 2016, quando um acidente de carro sofrido lhe causou fraturas no fêmur e no quadril, forçando cirurgias para a implantação de próteses. Ficando a maior parte do tempo sentado, acabou sendo acometido de uma neuropatia periférica, lesão nos nervos do sistema nervoso. E as cordas vocais passaram por um desgaste, deixando sua voz rouca. Todavia, ele ainda aparecia aqui e ali. Em 2019, comentou os Jogos Pan-Americanos para a TV Record; neste 2022, lançou mais um livro ficcional, “Assassinos do Abecedário”.
Todavia, foi só o infarto sofrido no fim do mês passado que impediu Silvio Lancellotti de continuar escrevendo como fazia no R7. Eram vários textos sobre futebol internacional, com seu estilo inconfundível – a ponto de, disciplinadamente, começar a chamar de “Neerlândia” o país que também mencionava como “ex-Holanda”. As rodadas do Campeonato Italiano e de torneios como a Champions League também eram cuidadosamente descritas, assim como foi lamentada a queda da Azzurra na repescagem das eliminatórias da Copa de 2022. Durante a fase mais aguda da pandemia de COVID-19, inclusive, chegou a receitar o melhor modo de preparar batatas fritas – como fez com tantas receitas, em tantos jogos do Campeonato Italiano.
Enfim, é justo dizer: a árvore hoje frondosa de comentaristas que conhecem o futebol internacional a fundo teve a sua semente plantada por Silvio Lancellotti. Um pouco dele sempre viverá em cada transmissão de partida de campeonato alternativo – ou em cada transmissão de campeonato de futebol que tenha algo relativo à Itália.



