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Em busca do DNA ofensivo, Santos surpreende e, dez anos depois, dá nova chance a Cuca

Em busca do DNA ofensivo, que segundo a diretoria é um clamor da torcida e foi argumento para demitir Jair Ventura, o Santos procurou um novo treinador. De forma meio atrapalhada. A lista de compras era pouco coesa. Zé Ricardo chegou a ter um acordo verbal, embora seu estilo fosse mais próximo ao do demissionário do que do desejado. Havia pressão nos bastidores por Vanderlei Luxemburgo, que na televisão ainda prega um futebol dos anos noventa. O retorno de Dorival Júnior foi cogitado, assim como Juan Carlos Osorio, de saída da seleção mexicana. No fim, porém, nenhum deles foi contratado. O novo comandante da Vila Belmiro atropelou a concorrência na reta final e foi anunciado, nesta segunda-feira: quase um ano depois de ser despedido do Palmeiras, Cuca está de volta à ativa.

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O presidente José Carlos Peres citou o sonho da ofensividade na entrevista em que explicou a saída de Jair Ventura, e o executivo de futebol, Ricardo Gomes, corroborou que a busca era por um profissional que tivesse “as características que a torcida pede”. Os discursos levantam questionamentos sobre a escolha de Jair, lá no começo do ano, porque, entre vários méritos demonstrados no Botafogo, nenhum era a capacidade de armar um time que marca muitos gols. É plausível que o Santos tenha lhe dado uma chance de provar que tinha mais recursos, o que não se concretizou. E, no fim das contas, ele caiu por não conseguir fazer um time que nem atacava e nem defendia com um mínimo de qualidade.

Por linhas tortas, o Santos chegou a um treinador que pode ser o homem que estava procurando. Cuca teve a ofensividade, às vezes anárquica, como uma das suas principais características em vários momentos da carreira e possui trabalhos vitoriosos mais frescos do que os outros profissionais tarimbados que foram procurados – exceção feita a Osorio, que sempre foi uma possibilidade distante.

A derrota para o América Mineiro, no último domingo, com recorde de cruzamentos e 32 finalizações, mas 0 a 1 no placar, pode ter acelerado as coisas. Segundo Ricardo Gomes, as negociações começaram na manhã desta segunda-feira e foram rapidamente concluídas. “É um treinador competente, com experiência, títulos. É ofensivo. Reúne todas essas qualidades”, explicou o executivo, em entrevista no CT Rei Pelé.

Paira sobre ele, porém, o último trabalho pelo Palmeiras. A segunda passagem no Palestra Itália passou longe de ser tão bem sucedida quanto a primeira, quando ele foi campeão brasileiro. Não era uma equipe pragmática como a vitoriosa, nem ofensiva. Tinha dificuldades de criação e abusava dos cruzamentos precoces a partir da intermediária. Quando quebrou o jejum de 22 anos do clube no Brasileirão, Cuca recusou-se a ficar para resolver problemas pessoais e, pouco tempo depois, foi convencido a retornar no lugar de Eduardo Baptista.

Não estava com a cabeça no lugar certo e, depois de ser demitido em outubro, embarcou de vez no ano sabático que estava precisando. Recusou propostas, comentou a Copa do Mundo da Rússia e, segundo ele, está finalmente renovado. “Feliz com o acerto com o Santos, após um ano sem trabalhar para resolver questões pessoais. Estou motivado por assumir este grande desafio. Muito feliz e muito confiante”, respondeu, por meio de sua assessoria, ao jornal Lance.

Cuca foi jogador do Santos, em 1993. O Twitter do clube relembrou uma frase interessante que ele disse naquela época, quando desfilava com a camisa 10. “Quando você entrava no vestiário da Vila Belmiro, tinha um armário lacrado do Pelé. Vestir a camisa 10 é um baque. Toda sua infância passa dentro de você. Eu falo que muitas coisas têm seu preço e algumas o seu valor. Essa tem um valor inestimável”, disse. O respeito pela tradição do Santos é um bom começo para conquistar a torcida. No entanto, ele terá que apagar as memórias ruins da sua primeira passagem pela Vila como treinador.

Dez anos atrás, referendado pelo bom trabalho no Botafogo, assumiu o Santos em maio, com a saída de Emerson Leão, depois de uma goleada por 4 a 0 para o Cruzeiro, na terceira rodada do Brasileirão. Não foi nada bem. Não houve vitórias em seus primeiros nove jogos pelo torneio. A equipe havia entrado na zona de rebaixamento no começo do campeonato e nela continuou até a saída de Cuca, em agosto, com apenas 14 jogos, três triunfos, quatro empates e sete derrotas. Márcio Fernandes foi quem conseguiu evitar a queda.

A situação atual é semelhante. O Brasileirão está mais avançado, e o Santos não está na zona de rebaixamento, mas, no momento, apenas pelo saldo de gols – e com um jogo a mais do que o Bahia. Concentrado e motivado, Cuca pode realizar o bom trabalho que não conseguiu fazer em 2008. E, se o estilo de jogo for mais próximo de momentos anteriores da sua carreira, em vez dos mais recentes, também responder ao anseio do clube por um futebol mais ofensivo.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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