Brasil

Eles são necessários

Começaram os campeonatos estaduais de 2010. E as primeiras rodadas deles, quase sempre, dão vazão para um discurso básico: ainda é cedo para avaliar como as equipes estão, o trabalho de pré-temporada está em pleno andamento, os times ainda estão sendo montados, é até injusto fazer julgamentos. E tudo isso tem seu fundo de verdade. O problema é quando tal discurso segue para o caminho que defende o fim imediato dos estaduais.

Evidentemente, do modo como são organizados, tais torneios são, realmente, prejudiciais. São campeonatos deficitários, que desgastam demasiadamente os grandes clubes, tomando lugar de um Campeonato Brasileiro mais bem desenvolvido. Entretanto, defender o final deles, de um modo puro e simples, é ignorar a realidade atual do futebol brasileiro – e a influência que o interior do país ainda pode ter, na formação de um cenário interno forte e próspero.

Até porque os Estaduais são, ainda, uma grande fonte de visibilidade para os clubes do interior, que pagariam por algo de que não são culpados – a crise que aflige vários grandes clubes do país. Além disso, pessoas que vivem em grandes metrópoles brasileiras tendem a minorar a importância que torcedores de times tradicionais, morando em cidades pequenas, dão ao “simples” fato dos clubes de seu coração viajarem para jogar em suas cidades.

Completando, há o fato expresso por uma velha frase: o Brasil é, realmente, um país de dimensões continentais. Que a rivalidade entre os grandes clubes nasceu (e teve seu fortalecimento) nos campeonatos estaduais, é outro fato que também não pode ser ignorado. Não se pode pensar na questão apenas pelo viés dos grandes clubes – que tende a ser elitizado.

Entretanto, assim como a intenção não pode ser privilegiar os grandes, também não pode ser privilegiar os pequenos. Do modo como estão, ainda com datas demais, os Estaduais acabam sendo um modo de “dar o peixe” aos pequenos, não de “ensiná-los a pescar”. Traduzindo: ao invés de incentivá-los a construír um trabalho de qualidade, bem fundamentado, acaba sendo dado a eles um espaço, uma ajuda pela qual, muitas vezes, não se faz por merecer.

Evidentemente, a motivação não é, nem pode ser, a de tentar impor aos clubes a necessidade de se organizarem, de virarem grandes empresas, coisas impessoais. Até porque isso, muitas vezes, é visto com bastante reservas pelos torcedores, quando não com assumida oposição. No entanto, o cenário atual não resolve o problema de nenhuma das partes: nem é um campeonato que traga muitos dividendos aos clubes tradicionais, nem traz grandes vantagens aos menores. No máximo, uma surpresa esporádica num campeonato, uma chegada às semifinais, ou até à final. Mas apenas isso. Não se vê ganhos duradouros, como condições melhores de trabalho.

E estes ganhos poderiam ser vistos em um novo cenário, com os estaduais redimensionados. Por exemplo, transformando-os em divisões regionalizadas do Campeonato Brasileiro, semelhante ao que se faz na Alemanha, com a Regionalliga (quarta divisão) e a Oberliga (quinta divisão). Ou, então, colocando-se em prática a velha proposta de colocar os clubes grandes apenas nas fases finais da competição, o que permitiria dar um espaço maior e necessário aos menores – e isso até permitiria, quem sabe, aumentar a duração dos estaduais.

Enfim, a discussão é bastante longa, inclui várias abordagens para vários problemas, e deve ser discutida com bastante profundidade. Por enquanto, a única solução é ver a bola rolando – mas sem deixar tal assunto de lado. Uma discussão madura e sólida é fundamental.

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Equipe Trivela

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