Brasil

É preciso nomear os racistas que perseguem Cristóvão Borges

Os mais antigos no futebol não precisam de legenda sob o nome de Béla Guttmann. O húngaro, que também foi jogador, é considerado um dos maiores técnicos da história do esporte. Treinou, além do São Paulo, pelo qual foi campeão paulista em 1957, Porto, Milan, Peñarol e Benfica, pelo qual conquistou duas Copas dos Campeões, e onde é considerado também o grande mentor de Eusébio.

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Além de ser um dos maiores técnicos da história, Guttmann era judeu. Era judeu em um momento em que o antissemitismo na Europa – e no mundo – recrudescia devido à barbárie da Segunda Guerra, mas, lembremos, a Segunda Guerra era recém-terminada. Não só era judeu como atuou pelo Hakoah de Viena, time formado apenas por judeus que se apresentava como um time judeu.

Trago o assunto à baila depois de ouvir as palavras de Cristóvão Borges para a ESPN sobre racismo. Entre outras coisas, o técnico do Flamengo menciona o fato de ter sido chamado de “Mourinho do Pelourinho”. O apelido surgiu na época em que o treinador estava no Fluminense, mas ainda é utilizado constantemente por Renato Maurício Prado, comentarista da Fox Sports e colunista d’O Globo.

“Aliás, na saída do Luxa, se tivessem deixado o Jayme como interino, poderiam ter pegado o Marcelo Oliveira, antes do Palmeiras. Resolveram apostar no Mourinho do Pelourinho, deu nisso”, escreveu em 14 de julho em sua coluna colocando as palavras na boca do personagem fictício Bagá (a quem se refere, diga-se, como “crioulo”, e de quem diz que a baba “escorre pela beiçola”). Em 25 de novembro do ano passado, já tinha dito que ‘irritados com a irregularidade do Fluminense, tricolores lançaram novo apelido irônico para Cristóvão Borges: “o Mourinho do Pelourinho”’, para depois se referir a isso como uma “gozação divertida.”

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Pois bem, não pode haver dúvida quanto a isso: a simples menção de um pelourinho ao se referir a um negro é, sim, racista, e da pior maneira possível. Seria a mesma coisa que se referir a Guttmann como “Mourinho do Holocausto”. O pelourinho, tronco no qual eram amarrados e torturados escravos fugitivos é, para os negros brasileiros, tragédia histórica comparável ao holocausto para os judeus em todos os aspectos. E usá-lo para marcar um técnico negro é racista, clara e inegavelmente racista.

“Mas há um bairro em Salvador chamado Pelourinho, e Cristóvão é baiano”. Sim, e também há um bairro em Salvador chamado Pituba, e se alguém quisesse mencionar Salvador sem ser racista poderia tê-lo escolhido – ou uma meia dúzia de outros bairros que seriam reconhecidos por qualquer brasileiro, e que não ofenderiam mais da metade da população brasileira.

Se Renato Mauricio Prado é racista em sua vida cotidiana, pouco me importa – se tem um primo do cunhado do amigo dele que inclusive é negro. O que importa é a maneira como utiliza seu sagrado direito à liberdade de expressão. E quando usa o Pelourinho para diminuir o trabalho ou o indivíduo do qual sabidamente não gosta, Renato Maurício Prado está sendo racista.

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