É hora de Mano mostrar o que já fez

Mais ou menos no meio do segundo tempo da final olímpica contra o México, quando eu ainda tinha certeza absoluta de que o Brasil viraria o jogo e ganharia a medalha de ouro, escrevi no twitter que Mano Menezes, ganhando ou perdendo, devia deixar o comando da Seleção. O argumento era o de que o time, como tal, não existe: não há uma jogada ensaiada, não há qualquer tipo de consistência, e o time jogou o torneio inteiro com base nas jogadas individuais de seus melhores jogadores. E isso, como se viu, nem sempre resolve, mesmo contra times fracos, como é o caso do México.
Após a partida, a crítica inteligente se dividiu. Há quem concorde com a avaliação, mas há os que acham que o time, bem ou mal, vem evoluindo. E há ainda os que acham que não dá pra trocar simplesmente porque não há outro para colocar no lugar.
Trocar de técnico no meio de um trabalho sempre é ruim. E estamos claramente no meio de um trabalho. Portanto, a substituição de Mano Menezes, haja alguém melhor que ele ou não, só pode acontecer se ficar claro que o trabalho não vai evoluir da maneira como é necessário. Neste caso, a hora de trocar é agora, e não a um ano da Copa do Mundo.
O argumento de esperar a Copa das Confederações para tomar uma decisão me parece o pior de todos. Se é injusto julgar Mano pela Olimpíada, na qual o time tinha limite de idade e a baixa qualidade dos adversários não ajudou a preparar a equipe, o mesmo não pode ser dito sobre a Copa América. Mano foi mal nas duas oportunidades em que teve o time por algum tempo para treinar.
Há quem cite o caso de Tite no Corinthians: ficou depois da eliminação para o Tolima, e ganhou tudo o que veio depois. A diferença fundamental é que Tite é técnico de um clube, e Mano, de uma seleção. Que Tite tem um grupo que mudou pouco, o que Mano até poderia ter, mas não tem. Quer dizer: o Corinthians de Tite continuou se vendo todo dia, jogando quarta e domingo, treinando. Pôde, além disso, se ater ao básico: defesa fechada e algumas boas jogadas no ataque. Contra Santos, Vasco e Boca, foi suficiente. Mas será contra Alemanha, Argentina e Espanha? Dificilmente.
Note-se, no caso, que Mano Menezes não chegou ainda nem neste ponto, e é esta a maior preocupação da seleção brasileira: não temos uma defesa formada. Defesa, além de bons jogadores, é treino, entrosamento. Além de proteção. É um sistema defensivo, não apenas os quatro caras da linha de trás. Temos alguns zagueiros razoáveis, um Thiago Silva que ainda é jovem para ser tudo o que se espera que seja, mas que claramente é um defensor muito acima da média. Ninguém precisa de mais que isso para montar uma boa defesa. O Corinthians foi campeão com Chicão. O São Paulo teve ótimas defesas com jogadores medianos como André Dias, Fabão e até Lugano. O uruguaio, porém, exercia liderança, o que não parece haver ninguém no time brasileiro que possa fazer.
A ausência de um sistema defensivo, aliás, parece ser sintoma de algo maior: a ausência de um sistema. O ciclo de trabalho de Mano Menezes é de quatro anos, e esperar que ele já tivesse definido um time e uma forma de jogar desde o primeiro ano é contraditório com muitas das críticas que foram feitas a Dunga. Estamos, entretanto, no meio deste ciclo. Mano teve dois anos para escolher entre três e quatro jogadores por posição, avaliar os melhores e definir o esquema, ou os esquemas, que melhor se adaptem a eles. Não se pode entrar na segunda metade do ciclo de trabalho sem que isso já esteja definido, para que, a partir de agora, a equipe possa treinar estes esquemas, definir jogadas ensaiadas e ganhar entrosamento.
Em tese, portanto, pode até ser que o trabalho de Mano Menezes esteja indo por um caminho que acabe sendo vencedor. O problema é que precisa ficar claro que a primeira parte do trabalho foi feita, e está concluída. Os próximos amistosos da Seleção tem que servir, portanto, para Mano mostrar como o time vai jogar, e como vai encaixar os jogadores deste time. Mesmo que perca partidas, mesmo que aconteçam erros. Se ficar claro que há um princípio, há tempo suficiente até a Copa de 2014 para o time ficar bom.
Na Olimpíada, isto não ficou claro. Mano mudou demais o time, inventou soluções mirabolantes como a de Alex Sandro no meio, e acabou com um time perdido, sem saber o que fazer. Acabou com jogadores jovens e sem espírito de liderança – lideranca, aliás, que o treinador também precisa pensar de onde virá – tentando resolver sozinhos. Na Copa América, onde não havia limite de idade, ficou menos ainda.
Que Mano mostre imediatamente o que fez na primeira metade do ciclo. Se não mostrar, há que pelo menos se considerar a hipóitese de que outro poderia fazê-lo. Quem? Esta é uma discussão para o próximo momento.



