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Duas vezes invictos: A análise final da Copa do Nordeste e do Ceará bicampeão

Por José Pereira, do Baião de Dois

“Eu venho das dunas brancas, onde eu queria ficar”

A canção ‘Terral’ ficou conhecida na voz de Belchior, Amelinha e Ednardo. Todavia, nesta semana, esse mesmo verso poderia ter sido dito pela Orelhuda Nordestina. O Ceará levantou o troféu da Copa do Nordeste pela segunda vez em cinco anos, o primeiro time a conseguir o segundo título após o retorno do torneio em 2013. Dentro desse roteiro repetido, veio a invencibilidade. Mas, apesar do fim idêntico, o meio dessa moldura não chegou nem perto de ser parecido – o que tampouco importa. Venceu o time que foi mais decisivo, e o mérito é alvinegro. 

É a primeira vez na história que um time ganha o Nordestão tendo três técnicos diferentes (Argel Fucks e Enderson Moreira antecederam Guto Ferreira), sendo Gordiola vencedor da competição duas vezes nas últimas quatro edições. Mesmo as condições sendo complexas para todos os times, devido à pandemia, o treinador foi anunciado em março e só teve o primeiro contato com o grupo no fim de maio, quando os treinos foram liberados na capital do Ceará. Até então, ele fazia reuniões virtuais para formar uma relação com o elenco e entender o que cada peça esperava do time. É claro que Guto não começou tudo do zero, havia uma estrutura já montada e algumas caras já conhecidas – como Charles e Vina, dois atletas que foram comandados pelo treinador paulista anteriormente.

O título traz um pouco de justiça ao bom trabalho administrativo que o Ceará tem realizado sob a gestão de Robinson de Castro, já que as decisões tomadas pelo departamento de futebol foram, com muita razão, sendo bem criticadas. O elenco do ano passado não era para passar o sufoco de brigar pelo rebaixamento e, depois de uma grande turbulência capitaneada pelo retorno de Adilson Batista à área técnica, a permanência teve relação direta com a incompetência do Cruzeiro, seu principal adversário. Para 2020, os reforços chegaram com a missão de resolver problemas evidentes no time e nomes como os de Fernando Prass e Rafael Sóbis trouxeram holofotes para a construção do elenco alvinegro. 

Só que eu gostaria de dar destaque para um jogador em específico, o capitão Luiz Otávio. O zagueiro é um dos, se não o principal, ídolo desse time do Vozão. O atleta faz parte do clube desde 2017, uma referência técnica e de postura. Unanimidade entre os adeptos, rivais e espectadores do futebol nordestino. Essa conquista também engrandece o legado dele no Ceará, como citado acima, faz justiça à história que ele está construindo no clube. Em outras épocas, Luiz seria muito assediado, não obstante de já estar com seus 31 anos de idade. O defensor encontrou na cidade alencarina um lar e retribui com um futebol muito bem jogado. 

O título dá uma energizada no Porangabussu, empolga para o restante da temporada e vai influenciar as expectativas para a Série A. Mas não se engane, estamos falando de um começo de trabalho de um treinador que não tem dez partidas no comando do Vozão. Muita coisa ainda pode acontecer. Principalmente dentro de um cenário extremamente confuso, quando, gosto de reforçar, nem deveria ter futebol sendo praticado. A imprevisibilidade nunca foi tão grande. 

E se tratando de uma final, não há só o lado vencedor. O Bahia repete a sina de ser o time de maior orçamento e sucumbir mais uma vez. O time de Roger Machado teve um rendimento bom apenas nos minutos iniciais da primeira perna da decisão. Depois disso, a apatia foi o sentimento predominante na exibição do Esquadrão. Muita gente já estava pedindo a cabeça do comandante, alguns apontam que ele é um dos “queridinhos da mídia” (eu discordo veementemente dessa afirmação) e que seu jogo tem grandes falhas. 

Realmente o esquema de Roger está extremamente previsível e isso já foi notado no segundo turno do Brasileirão de 2019. Houve algumas mudanças no elenco, mas os vícios e fraquezas continuam muito expostos.

A primeira fraqueza é a pobreza de dois pontas que não conseguem finalizar e dependem muito do bom chute de Gilberto. Porém, quando ele não joga, seu substituto direto está longe de cumprir esse atributo com eficiência. A defesa também dá sinais de fragilidade. Ter dois volantes que conseguem dar combate e sair bem para o jogo, como Gregore e Flávio, não está sendo suficiente. O miolo de zaga é muito fraco e, dependendo de quem joga nas laterais, a cobertura defensiva também sofre um grande baque e os adversários ganham caminhos diversos para atacar a meta tricolor. E é aí onde as críticas ao trabalho de Roger são muito justas: ele não varia o posicionamento de seus jogadores e tem pagado o preço por essa teimosia. 

No próximo ano, será a última edição da Copa do Nordeste sob o atual contrato. Sim, há o risco do torneio deixar de existir em um futuro próximo. Porém, os aficionados pelo futebol da nossa região farão pressão para que isso não aconteça e para que possamos fortalecer ainda mais o principal campeonato regional do Brasil. No mais, aproveito a canção que começou o texto e peço licença poética para mudar umas palavras. 

Aldeia, Aldeota
Estou batendo em quem meu caminho cruzar
Pra lhe aperriar, pra lhe aperriar
Eu sou a nata da bola, eu ganhei a Orelhuda
Eu sou do Ceará”

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O podcast Baião de Dois traz uma reunião de craques e mistura o futebol com elementos da cultura nordestina. Toda semana, na Central 3:

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