Duas como visitante

Desde que foi implantada no Brasil, a fórmula de pontos corridos trouxe consigo um caminhão de clichês de imprensa, treinadores e jogadores. Muitos até têm um fundo de verdade, mas não dá para levar tudo ao pé da letra. Um desses chavões é que “todo jogo é importante e, por isso, é importante vencer sempre”. Ótimo. Lindo. Mas isso não existe. Se nem em Portugal, Escócia e Holanda, países com campeonatos nacionais notoriamente desequilibrados, um time consegue vencer todas as partidas, não é no Brasil que isso ocorrerá.
Os exemplos são evidentes. O Cruzeiro de 2003 é tido por muitos como o melhor time do Brasil na história dos pontos corridos. Pois esse time perdeu em casa do Juventude durante a competição. O São Paulo de 2007, equipe com melhor aproveitamento desse sistema de disputa por aqui, perdeu para Juventude e Corinthians, dois clubes que foram rebaixados.
Assim, a coluna desenvolveu uma teoria, ainda que mais fácil de explicar como uma filosofia, um conceito, do que transformar em regra matemática. É sabido que um time, por melhor que seja, terminará o torneio com vários tropeços. O importante, então, não é fingir que tem de vencer tudo. É conseguir sempre o resultado necessário para se manter em uma situação confortável na tabela (e perder quando a derrota não comprometer essa condição) e fazer resultados estrategicamente importantes quando possível.
O que isso significa? Por exemplo, se o time busca o título, ele precisa estar sempre no pelotão da frente. Pode perder pontos pelo caminho, mas não pode jamais se desprender do grupo dos líderes. Empatar ou perder em jogos muito complicados (fora de casa contra um time em grande fase – mesmo que esteja no meio da tabela – ou em um clássico ou confronto direto) é até aceitável em doses reduzidas. Mas quando houver a oportunidade de fazer um bom resultado em partida supostamente difícil (como quando o adversário está em má fase, em dia azarado ou com muitos desfalques), é recomendável aproveitá-la.
Isso fica evidente como quase todos os campeões brasileiros desde 2003 – o São Paulo de 2008 talvez seja a exceção – perderam muitos pontos, mas só o fizeram diante de adversários frágeis quando a situação da tabela permitia. Além disso, foram eficientes em alguns confrontos diretos, que serviram para se distanciar dos concorrentes nos momentos mais delicados.
Tendo esse parâmetro, a campanha do Internacional no Brasileirão 2009 dá excelentes sinais. Nas três primeiras rodadas, o Colorado já coletou alguns resultados estrategicamente importantes que serão carregados até a 38ª rodada. Por exemplo, iniciou a campanha aproveitando uma ótima oportunidade de vencer fora de casa um potencial concorrente direto. Ainda que até a derrota contra o Corinthians no Pacaembu fosse aceitável, os paulistas estavam com a formação reserva e os gaúchos tinham uma grande chance (aproveitada) de vencer.
Na segunda rodada, o Inter venceu o Palmeiras – outro potencial concorrente – em casa mesmo atuando com poucos titulares. Mantendo o embalo, o Colorado bateu o Goiás no Serra Dourada. Ainda que dificilmente os goianos se coloquem na briga pelas primeiras posições, voltar de Goiânia com três pontos é um luxo que raros times terão.
O triunfo no Planalto Central também representou algo simbolicamente importante. Independentemente das circunstâncias e dos adversários, foi a segunda vitória colorada fora de casa. Com isso, a equipe de Tite já igualou a marca alcançada em todo o campeonato de 2008. Das 17 partidas em que não venceu, muitas foram contra adversários ruins, em má fase ou desfalcados.
O principal exemplo dessa passividade ocorreu na 15ª rodada. Depois de um início ruim, o Inter ganhou embalo e ficou seis partidas sem derrota (entre 8ª e 14ª rodadas). A série foi completada com um 2 a 0 sobre o então bicampeão São Paulo. Os gaúchos estavam muito próximos dos líderes, mas, em seguida, perderam para o fraco Ipatinga. O time ficou sem confiança e, logo depois, caiu em casa diante do Santos (que estava na zona de rebaixamento naquele momento). Até a metade do segundo turno, eram esses seis pontos que deixavam os vermelhos fora da luta pelo título.
Isso mostra como faltou uma atitude mais vencedora no Beira-Rio durante o Brasileirão do ano passado. Algo que, no pouco que já houve de Brasileirão em 2009, parece ter reaparecido. E isso é mais importante do que ter 9 pontos.



