Brasil

Dorival mergulha no sonho de comandar Seleção, mas pode ter se metido em um pesadelo

Ao realizar desejo pessoal e legítimo, treinador aceita as regras (?) do estranho mundo da CBF

Dorival Júnior aceitou trocar a continuidade de um bom trabalho no São Paulo pela realização do sonho pessoal de dirigir a seleção brasileira. Sonho que Fernando Diniz, agora só no Fluminense, viu ser transformado em pesadelo. Assim é a vida de quem aceita jogar pelas regras da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). De gênio inovador a burro incompetente, a cabeça oferecida como prêmio para o escatológico ajuste de contas nos bastidores.

Sonhos não envelhecem, ensinou Lô Borges em Clube da Esquina Número 2. Mas podem ser sepultados pelos conchavos de política e economia que movem a engrenagem do futebol brasileiro. Dorival tem todo o direito de fazer o que bem entender de sua vida e buscar a realização de seus sonhos. Há um mantra popular entre treinadores de futebol do Brasil que, mais ou menos assim, afirma ser impossível dizer não para a seleção brasileira. Muricy Ramalho, que era chefe de Dorival no São Paulo, disse não e certamente explicou seus motivos para o ex-treinador do clube.

Há alguns anos, Dorival Júnior tomou algumas várias decisões equivocadas

Há alguns anos, quando ainda era um treinador em busca de afirmação no mercado, Dorival Júnior tomou uma série de decisões que se mostraram equivocadas. Após o sucesso com o Santos em 2010, quando venceu a Copa do Brasil, perambulou por trabalhos que ou escaparam por pouco de rebaixamentos ou terminaram com rebaixamentos de fato. Em 2013, passou por Vasco, Flamengo e Fluminense e escapou da degola de fato no Flu pelo famoso e até hoje confuso caso que culminou com a queda da Portuguesa. No ano seguinte foi salvo pelo Santos de ser rebaixado pelo Palmeiras no Campeonato Brasileiro. Com o tempo, foi se consolidando até alcançar o melhor momento da carreira, do qual desfruta hoje.

Uma análise fria e técnica apontaria para o nome de Abel Ferreira como o treinador ideal para a seleção. Desde 2020 ele é o melhor em atividade no Brasil. Talvez a CBF tenha feito convites recusados por ele, não se sabe. Ou talvez o perfil sanguíneo de Abel, um feroz crítico do que ele chama de “sistema” e de vários aspectos do futebol brasileiro, consequentemente da CBF, impeça essa parceria de se viabilizar.

Dorival representa uma certa correção de rota. Tecnicamente, com o perdão da redundância, estava à frente de Fernando Diniz numa lista de candidatos. Tem carreira mais longa, mais conquistas e experiência. Diniz representa uma suposta modernidade, um encantamento com sua proposta de jogo, que demanda tempo para a execução, com aproveitamento em termos de conquistas ainda muito baixo. A seleção sob seu comando viveu alguns de seus piores dias em termos de desempenho e resultado.

A dúvida que paira é: Dorival vai ter tempo necessário na Seleção?

Resta saber se o precioso tempo será dado a Dorival. Seja pelos resultados ou pela politicagem que envolve a CBF. Retirado e reconduzido ao cargo em tempo recorde por canetadas judiciais, Ednaldo Rodrigues tem a consistência de uma maria-mole no poder. A possibilidade de que ele saia do cargo antes da estreia de Dorival não é pequena.

Ao entrar nesse jogo, Dorival aceita as regras da mesa. O cacife é alto, os blefes são poderosos. Jogador noviço costuma ser engolido por mestres da dissimulação.

Recorro novamente aos poetas das montanhas de Minas. Desta vez, a Godofredo Guedes, pai do grande Beto Guedes, que cunhou os seguintes versos na canção “Um Sonho”, gravada pelo filho:

Acorda, amigo meu acorda

Do grande pesadelo em que estás.

Não vês que o sonho é ilusão

Que nos maltrata o coração

E que nos faz a alma padecer.

Às vezes um sono tranquilo

Ao invés de deixar-nos alegres

Nos deixa a saudade pungente

De um bem que mesmo longe, ausente

Nunca podemos esquecer”.

Foto de Mauricio Noriega

Mauricio Noriega

Colunista da Trivela
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