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Dom Paulo Evaristo Arns aproveitou o futebol (e o Corinthians) para falar a fundo com o povo

A importância de Dom Paulo Evaristo Arns transcendeu a religião. Independentemente da crença (ou da ausência dela), não dá para ignorar o trabalho realizado pelo cardeal e arcebispo-emérito de São Paulo, falecido nesta quarta. O catarinense atuou em diferentes frentes em prol dos mais necessitados. Fundou grupos de apoio a moradores de rua e da periferia, assim como ajudou a sua irmã, a pediatra Zilda Arns, a fundamentar a Pastoral da Criança. Intercedeu pelo ecumenismo. Além disso, também foi uma voz ativa contra a repressão em meio à ditadura. Chegou mesmo a ser indicado para ganhar o Prêmio Nobel da Paz em 1989. Por boa parte de seus 95 anos, se voltou a causas que deveriam ser base de qualquer religioso, mas tantas vezes acabam ignoradas.

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Só que o amor de Dom Paulo não se concentrava apenas em seu olhar para com o próximo. Ele, também “mundano”, era apaixonado por um clube de futebol. O Corinthians se tornou um ato de fé paralelo, cultivado pelo sacerdote não apenas aos domingos. Exibia aos quatro cantos a sua torcida pelos alvinegros, a ponto de ser capa da Revista Placar e de lançar, em 2004, um livro intitulado ‘Corintiano graças a Deus’. Mas, além, a torcida corintiana também servia de metáfora para o religioso falar sobre o povo, de uma maneira geral. “O domingo é, de fato, de comunicação com Deus e de comunicação com os irmãos. Agora, essa comunicação com Deus a gente faz rezando. Com os irmãos, a gente faz às vezes no esporte, jogando, e sobretudo sendo amigos uns dos outros, como são os corintianos verdadeiros”, declarou à Placar, na época da publicação.

Como bom brasileiro, Dom Paulo teve contato com o futebol desde cedo. Aos cinco anos, ganhou a primeira bola. E gostava de balançar as redes como atacante. Já a paixão pelo Corinthians, segundo as suas palavras, vem de berço. O catarinense, contudo, demorou a morar em São Paulo. Fez sua formação no Paraná e no Rio de Janeiro, onde foi ordenado. Em Petrópolis, tomou gosto pelo Flamengo, em tempos nos quais era comum torcer por uma equipe de cada estado, diante da inexistência de competições nacionais. Em 1947, mudou-se para a França, concluindo doutorado em letras na Sorbonne. Já na década de 1960, foi nomeado bispo em São Paulo.

Dom Paulo tornou-se cardeal em 1973, quando vendeu o palácio episcopal para construir centros comunitários nas periferias. Na mesma época, figurou na capa da Placar, para falar sobre a sua relação com o Corinthians. E o religioso ofereceu sua sabedoria também nos últimos anos de jejum dos alvinegros. Em dezembro de 1976, na manhã que antecedeu a Invasão Corintiana, teve um texto publicado pela Folha de S. Paulo intitulado ‘Desta vez é  pra valer’, em que discutia a esperança a partir do futebol.

“Nunca vou ao estádio, mas também nunca deixo de discutir um jogo e até uma jogada do Corinthians. Sofro como todos sofrem, espero mais do que muitos outros, sou vaiado quando numa reunião me apresentam como corintiano, mas tenho a certeza de que a maioria sempre está a meu lado. Ser corintiano significa viver com o povo, amar São Paulo e continuar em pé, quando todos vacilam”, escreveu. “O Corinthians vive de esperança em esperança. Mas o dia chega e vai chegar daqui a pouco. Então haverá a explosão da vitória. E esta explosão é elemento fundamental da esperança, porque é uma promessa para aqueles que acreditam”.

Já em 1977, quando a prometida explosão da vitória finalmente se concretizou ao Corinthians, com a conquista do Campeonato Paulista após 23 anos de jejum, Dom Paulo voltou a escrever aos torcedores. Mas, na verdade, a qualquer um. Sua ‘Pastoral ao Povo Corintiano’ nada mais era que uma mensagem cifrada em tempos de censura por parte da ditadura. “O Corinthians é mesmo o símbolo do povo que não chega lá. Do povo que sofre todas as decepções, desde as mais legítimas, como também as de seus sonhos. Mas é um povo que aguenta. Que é humilde. Povo que se abate, mas que, ao mesmo tempo, sabe que precisa recomeçar. E recomeça mesmo! […] É isto o espelho do povo? Ou a sua realidade mesma? Ou, ainda, alienação desta realidade, para refugiar-se em alguma coisa que se passa no campo, mas que tem interferências incalculadas? Minha pergunta mais séria é esta: quando é que o Corinthians vai vencer mesmo?”, afirma.

“A impressão que tenho é que o Corinthians irá vencer no dia em que todos os filhos do nosso querido povo, tiverem campos de esporte para boas ‘peladas’. Então, não precisarão mais falar dos outros craques, mas falarão entre si, na agilidade das pernas, na malícia dos passes e também na camaradagem, tão importante para as crianças. O Corinthians terá vencido quando vencer nos campos das escolas que possibilitarão aos jovens saberem o necessário para a existência, podendo tomar a vida na mão. Quando o povo souber o que fazer com tantos talentos, grandes talentos, brotados como que das fontes, em terras regadas por chuvas. Quando o Corinthians vencer nos campos da saúde e puder aguentar a vida desde os primeiros dias de nascimento. […] Tenho certeza que a vitória do Corinthians deve levar a vitórias essenciais na vida. E vai levar a tanto. Acreditamos, sempre de novo, nesta era que está para chegar em favor do povo, com a participação do povo e criada pelo mesmo povo”, complementa.

Por fim, o maior legado do ‘corintianismo’ de Dom Paulo veio em 2004, com a publicação de seu livro sobre o clube. Nele, reunia diversos episódios sobre a sua relação com o Corinthians. Em um deles, inclusive, conta como ajudou São Jorge – ele mesmo, o santo. Décadas antes, o Papa Paulo VI cassou vários santos sem documentação histórica suficiente e, na mira, estava o soldado romano da Capadócia. Então, o arcebispo de São Paulo enviou um bilhete ao Santo Padre: “Nosso povo não está entendendo direito a questão. São Jorge é muito popular no Brasil. Sobretudo ante a imensa torcida do Corinthians, o clube de futebol mais popular de São Paulo”. Para “não prejudicar a Inglaterra e nem o Corinthians”, Paulo VI garantiu o santo. Aos corintianos, seu padroeiro.

Nos últimos anos, Dom Paulo Evaristo Arns continuava participando de eventos ligados ao Corinthians, apesar da idade avançada. Uma maneira de seguir alimentando a sua paixão. E, dentro da visão que construiu, também de manter o contato com o povo. Povo este que ele auxiliou durante décadas, e de maneiras tão diversas. Tão importantes.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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