Brasil

Do som da vitrola ao grito da torcida, sete histórias de Elza Soares ligadas ao futebol

No adeus a Elza Soares, relembramos alguns episódios em que a cantora se aproximou do futebol - e não só ligados a Garrincha

Elza Soares ecoará por muito tempo na música brasileira, como uma das vozes mais potentes do país. Tal potência da cantora, aliás, não se reserva apenas ao seu timbre, mas também está em sua história de vida e nos temas sobre os quais cantava. Elza foi uma das mulheres mais fortes do Brasil e isso se evidenciou até os 91 anos, quando o país se despede de uma das maiores artistas de sua história. O legado fica, e é amplo, construído ao longo de uma vida repleta de obras relevantes.

Numa carreira que transcende, Elza Soares também penetra com força no futebol. A relação com Garrincha é provavelmente a mais conhecida do futebol brasileiro, em 15 anos vividos de maneira intensa entre o amor e os conflitos. Durante muito tempo Elza estampou o noticiário esportivo, não apenas pelo apoio ao companheiro, chegando a bancar até cirurgia no joelho. A cantora também precisou lidar com pesadas críticas, de quem achava que a carreira de Mané degringolou por sua causa até aqueles que a chamavam de “oportunista”. O tempo traria suas respostas, seja pelo sucesso da intérprete através de décadas, seja pelo triste fim do craque entregue ao alcoolismo.

A história de Elza Soares e Garrincha é brilhantemente contada por Ruy Castro na biografia “Estrela Solitária – Um brasileiro chamado Garrincha”. Os laços da cantora com o futebol, ainda assim, não se restringem ao camisa 7. Das músicas gravadas ao amor rubro-negro, Elza possui relações intrínsecas com o esporte. Nesta semana de luto pelo adeus da cantora, recontamos sete delas. Algumas, óbvio, estão ligadas a Mané, mas há outras boas e emocionantes histórias.

– O futebol cantado por Elza

Elza Soares cantou sobre futebol, e muito. Não são poucas as letras de músicas gravadas por ela que mencionam o esporte de maneira despretensiosa entre seus versos ou que o trazem como tema principal. Sua voz potente canta sobre o futebol como conversa de botequim ou como refúgio para os mais pobres. Canta sobre o grito da torcida do Flamengo ou sobre ídolos do futebol paulista, como Ademir e Rivellino. Canta até sobre a oração que o futebol proporciona numa tarde azul no Maracanã. E, numa obra com tantos traços biográficos, canta também sobre Garrincha, numa música póstuma lançada dois anos depois do falecimento do craque.

Pela maneira como entrelaçou futebol e música, Elza Soares se via como uma pioneira. “Eu também sou da parte do coração de chuteiras e bandeiras. Praticamente posso dizer que fui causadora da ligação da música com o futebol, tão criticada, e hoje todo mundo quer fazer música para o futebol. Antes de tudo, é bom lembrar como era estranho, como era esquisita essa relação. Não era tão bem vista assim”, diria ao livro ‘Futebol no país da música’, de Beto Xavier.

“Eu sempre tive muito entrosamento com a música e o futebol, pois sempre fui muito moleca, é a minha cara. Mas eu dificilmente ia ao campo, pois se fosse não iria comer no dia seguinte. Não podia gastar o dinheiro. […] Desde criança eu gostava de futebol, mesmo que não tivéssemos nem rádio para acompanhar os jogos. Bem, agora o futebol tá dando muita grana e todo mundo quer fazer uma musiquinha sobre o tema. Pois agora que todo mundo quer fazer, eu não quero”, complementaria.

– O coração rubro-negro

Pai de Elza Soares, Seu Avelino era o grande herói da cantora. Tocava violão e trompete, primordial para incutir a paixão musical na filha. E seria ele também o responsável por influenciá-la no futebol, como torcedora do Flamengo. Rubro-negro fanático, Avelino faleceu num dia de clássico no fim dos anos 1950. “Meu pai era tão flamenguista que morreu num jogo Vasco x Flamengo. Meu pai não aguentou, teve um infarto. Para você ver como meu pai era um torcedor doente. Era tão doente que foi embora. E a gente é flamenguista a vida toda. Meu pai, sendo Flamengo, tinha que ser flamenguista também”, rememorou Elza, ao podcast Futebol Arte, de André Rizek no Globo Esporte.

Elza Soares não via os jogos do Flamengo nos últimos anos. Preferia não assistir, por ficar muito nervosa. Os avisos sobre os resultados eram dados por Vanessa, sua neta, que comunicava cada gol. Assim, a cantora acompanhava sua paixão. O problema veio às vésperas de um show em 23 de novembro de 2019, dia da final da Libertadores. “Eu acompanho sem assistir, porque não aguento assistir aos jogos do Flamengo. Rolou um gol contra o Flamengo e fiquei maluca. Falei: ‘Não, não pode’. Daqui um bocadinho o Flamengo virou o jogo, aí falei: ‘Não, não, agora vou esperar’. Esperei até o final”, contou Elza, que certamente teve mais força para o show com o Fla campeão em cima do River Plate.

– A Madrinha da Seleção

Em 1962, Elza Soares vivia grande sucesso. E acabou convidada para participar de um evento no Chile, paralelo à Copa do Mundo, organizado por um empresário uruguaio. Artistas de diferentes países se apresentariam nos palcos chilenos durante o Mundial. Elza ajudaria a promover a passagem dos brasileiros pelas cidades locais, ganhando ainda a pomposa alcunha de “Madrinha da Seleção”. Seria uma figura recorrente nos treinos.

Na época, Elza Soares e Garrincha se aproximavam. O primeiro contato da cantora com o craque aconteceu em 1958, quando Elza percebeu uma aura diferente em Mané durante o desfile dos campeões do mundo no Rio de Janeiro. Porém, seria apenas anos depois que os dois de fato se conheceram, às vésperas de outro Mundial. O botafoguense pediu a ajuda da artista numa competição do Jornal dos Sports para eleger o jogador mais popular do Rio de Janeiro e, a partir de então, os dois começaram a se encontrar. O clima se fortaleceu durante um evento em Campos do Jordão, onde o Brasil se preparava à Copa. Já no Chile, as visitas ficaram frequentes e o casal deu o primeiro beijo em público.

Apesar do carinho expresso, Elza Soares e Garrincha não tinham assumido qualquer relacionamento ainda. A cantora preferiu se resguardar, temendo que ela se tornasse alvo da opinião pública por qualquer derrota. O resguardo contava com a linha dura de Aymoré Moreira, técnico da Seleção, que não permitia visitas na concentração. Mas, apaixonada, Elza defendia Mané com unhas e dentes onde quer que fosse. A ponto de desejar brigar com um tal de Alfredo Di Stéfano, adversário do Brasil com a seleção da Espanha naquele Mundial.

“Um dia eu estava almoçando e ouvi, no restaurante do hotel, alguém chamar Garrincha de ‘aleijado’. Quando eu virei para ver, era o Di Stéfano. Fiquei enfurecida, senti vontade de chegar ali perto e dar um tapa na cara dele. Ele dizia que, como o Garrincha estava machucado, iria quebrar ele em campo quando o Brasil jogasse com a Espanha”, contou Elza, em sua biografia escrita por Zeca Camargo. No fim das contas, ela se controlou e viu o troco em campo, com a classificação do Brasil para cima da Espanha num jogo repleto de controvérsia. Di Stéfano, sem condições físicas, sequer atuou.

Garrincha prometeu ganhar a Copa para Elza Soares. E cumpriria. A cantora até pensou em não ir para o Estádio Nacional no dia da final, para “não tirar a concentração” do ponta direita, mas um amigo em comum passou o recado do camisa 7 para que a amada estivesse nas arquibancadas. Elza participou da comemoração efusiva com os 3 a 1 sobre a Tchecoslováquia e, depois do apito final, correu para os vestiários em busca de um encontro com Mané. Na tentativa de passar pela barreira policial, seria mordida por um cachorro da polícia, mas conseguiu penetrar no estádio.

“Quando eu finalmente entrei no vestiário, aí, sim, foi a maior confusão. Aquele monte de homem sem roupa, foi uma gritaria. Vários jogadores que tinham dado em cima de mim ao longo de toda a Copa ficavam se exibindo, mas eu só queria saber de dar um beijo no Mané! Ele tirou a toalha e me abraçou pelado – eu quase desmaiei de tanta alegria. Só depois de um beijo bem demorado que eu parei e pensei: ‘Onde é que eu fui me meter, meu Deus?’ Mas aí já era tarde demais…”, lembrou à sua biografia, com um sorriso no rosto.

– O samba com Mané

Certo dia, Elza Soares preparava um feijão em sua casa na Ilha do Governador quando ouviu Garrincha assobiar um samba. Era um ritmo novo, desconhecido. Quando a cantora perguntou onde o craque tinha ouvido aquela música, ele contou que havia criado a melodia. “Não sou sambista, mas dou meus assobios”, respondeu, segundo a revista O Cruzeiro. Faltava só a letra, que acabaria composta na própria cozinha. “Receita de Balanço” seria gravada em 1964, com assinatura de Mané na voz de Elza, num disco com outros três sambas.

A letra era a seguinte: “Vamos balançar/ Cantando/ Vamos balançar/ Sambando/ Vamos balançar/ E deixando a tristeza da vida pra lá. Como é que nasce o amor? / Balançando/ Como é que se cura uma dor? Cantando/ Então vamos balançar/ E deixando a tristeza da vida pra lá”. Um ano depois, Garrincha ainda compôs “Pé redondo”, presente no disco “Um show de Elza”.

– Garrinchinha, o menino que amava a bola

Manuel Garrincha dos Santos Júnior nasceu em 1976, do relacionamento entre Elza Soares e Garrincha. O garoto cresceu distante do pai, já que o casamento se encerrou quando ainda era bebê, e não sentiu tanto o impacto da morte do craque em 1983. Mesmo assim, honrava a memória do camisa 7 de outra forma, com a bola. “Uma criança nem entende direito o que é a morte, teve de ser aos poucos, pra que ele não sofresse também. Acho que ele não sofreu tanto. Ou se sofreu, transformou aquela tristeza em paixão pelo futebol – como aquele menino gostava de uma bola…”, afirmaria Elza, em sua autobiografia.

Elza Soares narrava para o filho as histórias de Garrincha e os grandes feitos do pai no futebol, deixando para trás o relacionamento conturbado. O garoto era torcedor orgulhoso do Botafogo por isso. “Acho que um dos dias mais felizes da vida dele foi quando a gente foi visitar o Botafogo, ele vestido com o uniforme e tudo – tiramos um monte de fotos, Juninho era uma alegria só. Aliás, ele não tirava a camisa do time por nada desse mundo, tinha dia em que eu tinha que brigar pra ele não dormir com a camisa toda suja”, contava Elza. De vez em quando, o menino visitava treinos e jogos feito um talismã.

Garrinchinha jogava no Clube Federal, no Leblon, e vestia a camisa 7. Segundo Elza Soares, o menino driblava como o pai. Porém, conhecedora dos descaminhos do futebol, a mãe também queria proteger o filho. “Ele gostava muito de bola, mas eu não estimulava. Não é que não quisesse uma vida como a do Mané para o Juninho. A imagem que eu tinha de um jogador de futebol era a do pai dele, sempre explorado, sem conseguir ganhar dinheiro, mesmo com o talento que tinha. Eu queria que Juninho crescesse pra ser o que ele quisesse ser. Da mesma maneira que eu não insistia para ele cantar ou ser artista como eu, também não forçava nada pra ele se meter com futebol. Mas o menino gostava de uma chuteira – fazer o quê?”, diria Elza. “Eu não sei se o futebol era uma herança bem-vinda. Eu tinha minhas dúvidas. Eu queria mesmo que ele estudasse, mas se o futebol estava chamando…”.

Manuel Júnior gostava de jogar bola na praia e tinha, com os amigos, um time apelidado de “Alegria do Povo”. Em janeiro de 1986, no aniversário de três anos sem Garrincha, o menino planejava fazer um jogo em homenagem ao pai em Pau Grande. Uma semana antes, ele visitou pela primeira vez a terra natal de Mané. Porém, na volta ao Rio de Janeiro, o Opala onde estava Garrinchinha derrapou na estrada e caiu num rio. A porta do carro se abriu e o garoto foi lançado nas águas. Faleceu com apenas nove anos. Foi a única vítima fatal, num veículo com outras quatro pessoas. O motorista, funcionário de Elza, estava bêbado.

“Não quis ver o Juninho morto. Não quis ir ao enterro. Aliás, eu não tinha condições”, se emocionaria a mãe. “Eu queria era guardar aquela imagem alegre, vibrante, aquele menino tão lindo que corria usando a mesma camisa de listras pretas e brancas que era a paixão do pai”.

– O apoio ao futebol feminino

Elza Soares cantou em muitas de suas letras o empoderamento feminino. Sua própria história de vida servia de exemplo a tantas mulheres. E o futebol feminino também foi um dos interesses da cantora. Em 2019, ela atrasou uma sessão de fotos para assistir ao Brasil x França da Copa do Mundo. “Como eu digo sempre: quando uma mulher quer, ela consegue, ela pode. Ela é a mãe do mundo, ela é a mãe de tudo. E eu sempre torci muito pelo futebol feminino. Eu acho um absurdo não ter um apoio, não ter uma divulgação. Nós temos um grande futebol e nossas mulheres brasileiras não tinham nenhum apoio. Estou muito feliz com a melhora”, afirmaria ao podcast Futebol Arte.

Elza, inclusive, apontava Marta como a jogadora que mais se aproximou do nível de Garrincha: “Eu disse uma vez que a Marta era o Garrincha de saias. Mas ela foi tão tadinha, tão interrompida dentro de sua arte… A Marta é grande, muito grande, maravilhosa”.

Béla Guttmann e Mario Coluna, do Benfica, com um disco de Elza Soares

– Como Elza via Mané como jogador

“Hoje, os jogadores de futebol têm muito medo do fracasso, de não se tornarem algo como a elegância do futebol do Mané e o poder que Deus deu a ele com aquelas pernas tortas. Os grandes ídolos que pensamos que temos, nós já não temos mais. Eles vivem fora do país. Hoje os astros jogam pelos dólares. Eu não acho que isto está errado, mas as coisas mudaram muito. Com aquele futebol-arte, aquele futebol-beleza, eu não lembro que o Mané tivesse ganho na vida um prêmio como a Bola de Ouro. E mesmo que oferecessem a ele, ele não aceitaria. Era mais fácil ele aceitar um pássaro ou um animal do que esses grandes prêmios que dão como destaque aos maiores jogadores de futebol do mundo. Ele nunca ambicionou isso”, analisaria Elza Soares, em 1998.

“Hoje eu vejo tanta gente batendo no peito e dizendo ‘nós somos tetracampeões’. E eles esquecem que o Mané foi a pedra fundamental e a base desse estardalhaço todo. Ele foi o grande mensageiro do futebol brasileiro. O futebol do Mané era o futebol-arte. Eu até considero ele como o Charles Chaplin do futebol. Eu tenho em casa uma imagem do Charles Chaplin que eu cultuo como se fosse a imagem do Mané. Os dois levavam alegria ao povo”, complementaria a cantora na mesma entrevista.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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