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Do salão em Boa Vista a campeão olímpico: as pedras no meio do caminho de Thiago Maia

Thiago Maia saiu de Boa Vista, em Roraima, para virar titular de um clube grande de São Paulo, campeão olímpico pela seleção brasileira e despertar o interesse de clubes europeus. Esse trajeto nunca é completado sem pular várias pedras no meio do caminho, e o jovem volante de 19 do Santos conta, nesta entrevista, concedida durante sessão de fotos para divulgação da nova coleção de chuteiras da Nike, a Floodlights Glow, à qual a Trivela teve acesso com exclusividade, a sua própria história particular: a primeira decisão importante, a rejeição, as dúvidas e os problemas que teve que superar rumo ao sonho de ser jogador de futebol profissional.

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Segundo Maia, sua ideia, quando criança, era jogar futebol de salão. Disputou a modalidade durante cinco anos em Boa Vista e era um fixo “artilheiro”, que marcava “no mínimo 23 gols por campeonato”. “Hoje em dia, eu amo futebol de campo, mas, na época, eu queria ser jogador de salão. Ganhei várias bolsas de escola para jogar, mas meu pai não deixou”, afirma. “Então, o culpado de tudo é o meu pai”. Como bom craque do salão, ele tinha uma marca registrada: a lambreta. Mas, na transição para o campo, deixou essa arma guardada na gaveta. “Tenho até vídeos”, garante. “Mas não rola (fazer no campo) porque eu sou volante, mano, qualquer merda que acontecer ali é gol”. Foi nessa passagem que aprendeu a marcar. “Eu não sabia marcar porque jogava de meia, era mais um Ganso. Hoje, sou mais um Mascherano”.

Thiago Maia, do Santos (Foto: Divulgação/Nike)
Thiago Maia, do Santos (Foto: Divulgação/Nike)

Já em busca de uma vaga nas categorias de base de algum clube grande, Thiago Maia encontrou, no Corinthians, o que mesmo os grandes craques já encontraram no começo da carreira: a rejeição. “Peguei o meu primeiro ‘não’ no Corinthians”, conta. “Fiz três testes, e o cara falou que eu estava muito abaixo do nível. Queria desistir. Acho que toda criança que vai atrás de um sonho, quando pega o primeiro ‘não’, quer desistir, né? Mas minha mãe me incentivava, meu pai me incentivava. Até anos atrás, meses atrás, recebemos pedrada, crítica e queremos desistir, porque é muita pressão no meio do futebol. Tem o lado bom e o lado ruim. O lado bom é conquistar muitas coisas. O lado ruim é muita pressão e muita responsabilidade”.

Pressão e responsabilidade sentidas por Thiago Maia mesmo depois de subir ao time profissional. Quando foi muito mal em uma goleada do Goiás sobre o Santos, no começo do Brasileirão do ano passado, pensou outra vez em desistir. “Entreguei duas socas (gols) e tinha acabado de subir para o profissional”, conta. “Muita crítica, torcedor xingando, muita pressão e falei: ‘pronto, acabou meu futebol’. Eu vim a viagem todinha chorando. Queria desistir. ‘Não vou mais jogar futebol, não dá mais para mim essa coisa, achei que ia conseguir’. E, quando estávamos na base, no CT do Santos, e víamos os caras treinar e pensávamos ‘nossa, nunca vamos chegar ali’. Na época, eram vários jogadores. Tinha o Cícero, tinha o Arouca. Ficávamos imaginando: ‘será que vamos conseguir, será quê?’. Vemos na TV os caras jogando muito. ‘Será que vou chegar um dia a este nível’. Então, eu tive paciência e, graças a Deus, estou aqui”.

Quem o ajudou a seguir em frente, mesmo diante dos percalços, foi a família. O pai e a mãe. A própria história de vida da mãe serve de inspiração. “Tenho lembranças da minha mãe de quando ela teve câncer. Foi quando eu me fortaleci mais ainda. Toda vez que quero desistir de alguma coisa eu me lembro dela perdendo os cabelos e me lembro do que ela é hoje. Minha mãe largou tudo para viver minha vida. Antes de querer desistir de alguma coisa eu penso nela. Fico muito feliz pela vida dela. É uma mulher abençoada também”, afirma.

Dorival Júnior também tem sua parcela de responsabilidade. Uma bem grande. Thiago Maia subiu com Enderson Moreira, depois da lesão de jogadores da posição. Enderson foi demitido logo em seguida, e Marcelo Fernandes assumiu a equipe. Mas foi ganhar espaço de verdade com Dorival. “Nós, moleques, que erramos muito, agradecemos a vinda dele. É um cara que está sempre ajudando. Ele é mais um pai do que um treinador para nós”, disse. “Com a chegada dele, o meu futebol só vem crescendo. Ele tem bastante paciência. Erramos, erramos e ele está ali para ajudar. Tem treinador que, quando você erra, ele já o tira do time, já manda voltar para a base. Ele não. Acho que quanto mais eu erro, mais ele me apoia. E eu fico muito feliz com isso porque é um cara que me ajudou a ser mais tranquilo, dosar minha correria dentro de campo, posse de bola, passe, cabeceio. Acho que o Dorival, junto com a sua comissão, me mudou. Sou outro menino. Sou um pequeno homem, como eu sempre falo”.

Thiago Maia ainda tem objetivos – aos 19 anos, ainda é cedo mesmo para estar satisfeito. Buscar um lugar na seleção principal e, como todo jovem de hoje em dia, uma transferência para um grande clube da Europa. Rumores do Milan já surgiram, mas, se depender dele, seu destino será outro. “Sou muito fã do Mascherano. Tenho um sonho de jogar ao lado dele. Acho que temos características muito parecidas. Acho que ele faz mais gol que eu, né, mas eu sei que vou chegar nessa fase aí”, encerrou.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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