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Dez momentos que marcaram a conquista do Corinthians em 2005, para o bem e para o mal

A quarta conquista de Campeonato Brasileiro do Corinthians completa exatamente dez anos nesta sexta-feira. Normalmente, efemérides de equipes vencedoras trazem uma narrativa sobre a força daquela equipe, os jogadores-chave, as partidas emblemáticas e os momentos esportivos determinantes para que o time levantasse a taça. A campanha vitoriosa do Alvinegro naquele Brasileirão de 2005, no entanto, não pode ser limitada aos feitos do time dentro de campo. Em um torneio marcado pela Máfia do Apito, pela remarcação de partidas manipuladas e por erros cruciais de arbitragem, limitar a lembrança à capacidade técnica do campeão seria contar a história de maneira incompleta.

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Resolvemos, portanto, elencar dez momentos marcantes e decisivos do quarto título brasileiro do Corinthians. As grandes vitórias, a derrota acachapante para o São Paulo no Pacaembu, a influência do Superior Tribunal de Justiça Desportiva e um lance capital na “decisão” do torneio se juntam para, entre outros capítulos, contar a caminhada do clube naquele ano.

Humilhação para o rival

Apesar da supremacia são-paulina em Majestosos em boa parte daquela década, o São Paulo não sabia o que era golear o Corinthians há 25 anos. Mandante, o Alvinegro chegava para o clássico pressionado para vencer. O caro elenco corintiano ainda não havia vencido nas duas primeiras rodadas do Brasileirão, tendo empatado na estreia, em casa, contra o Juventude, por 2 a 2, e perdido para o Botafogo na sequência, no Caio Martins, por 3 a 1. A decepção pela campanha no Campeonato Paulista e pelo início nada empolgante no torneio nacional, no entanto, não era nada perto do que o time sofreria naquele domingo.

Então técnico corintiano, o argentino Daniel Passarella já vivia sob pressão, reforçada pelo histórico de treinadores demitidos após derrotas para o Tricolor, e a impressão era de que uma derrota poderia custar-lhe o cargo. Para não deixar dúvidas na cabeça dos dirigentes, o São Paulo tratou de aplicar a maior goleada no rival desde 1946: 5 a 1, com três gols nos primeiros 15 minutos de jogo. O argentino acabou perdendo o emprego, dando lugar ao interino Márcio Bittencourt, e só então começaria a arrancada do time no campeonato.

Arrancada

Após o 5 a 1 para o São Paulo, Márcio Bittencourt assumiu o Corinthians dentro da zona de rebaixamento, na antepenúltima colocação, com apenas um ponto em três jogos. Material humano não lhe faltava para iniciar uma reação, mas o desafio não deixava de ser grande após uma das derrotas mais humilhantes da história do clube. O primeiro adversário seria o Atlético Paranaense, na Arena da Baixada. Com apenas sete minutos, Fabrício abriu o placar para o Furacão na estreia do novo técnico.

Para causar uma boa primeira impressão, Márcio conseguiu levar o time à primeira vitória no torneio mexendo na equipe durante o intervalo. Colocou em campo o atacante Bobô, que no início da segunda etapa empatou para o Alvinegro, de cabeça. Marcelo Mattos, antes dos dez minutos do segundo tempo, completou a virada em 2 a 1, também pelo alto. O triunfo deu início a uma sequência de quatro vitórias, no final da qual o Corinthians já acumulava 16 pontos, na terceira colocação, a apenas um da então líder Ponte Preta.

Corinthians 3×1 Palmeiras

Após as vitórias que catapultaram o time às primeiras colocações, o Corinthians voltou a demonstrar irregularidade, sendo derrotado em duas rodadas seguidas, por Fluminense e Fortaleza. Márcio Bittencourt fazia um ótimo início de trabalho, tendo tirado o time da péssima fase que vivia com Passarella, mas se naquela 12ª rodada perdesse para o arquirrival Palmeiras, chegando a três reveses seguidos, a pressão poderia aumentar consideravelmente. Para completar, o Alviverde ainda vinha de uma goleada por 4 a 1 sobre o Botafogo, com show de Marcinho, autor de três gols.

O primeiro tempo foi repleto de chances para ambos os lados e de muito trabalho para os goleiros Marcos e Fabio Costa. Após o intervalo, o Palmeiras não levou tanto tempo para conseguir tomar a frente. Após bola levantada na área e mal afastada pelo arqueiro corintiano, Gamarra arriscou um voleio, e Leonardo Silva completou para abrir o placar. Vantagem comemorada por pouquíssimo tempo, já que, em dois minutos, Gustavo Nery apareceria na área para empatar para o Corinthians. Rosinei, volante que ganhou projeção naquela temporada, foi o nome da virada corintiana, fazendo os dois gols restantes, entre os 16 e 21 minutos de segunda etapa, e fechando o placar em 3 a 1. O jogo ainda marcou a estreia de Mascherano, que roubou bola providencial e deu início ao contra-ataque que culminou no último tento do dérbi. Com o triunfo, o Alvinegro diminuiu para quatro pontos a distância para a Ponte, que liderava a competição.

Corinthians 4×3 Cruzeiro 

Com uma zaga formada por Sebá Domínguez e Marinho, o Corinthians não tinha nem de perto a estabilidade defensiva de que tira grande proveito sob o comando do Tite atualmente. A dupla, aliás, frequentemente fazia o coração do torcedor bater mais apertado com a série de erros que cometia, coletivos e individuais. Com uma equipe tão desequilibrada, de força no ataque e fraqueza lá atrás, os jogos do Alvinegro eram repletos de gols, tanto para o seu lado quanto para o do adversário. Em uma sequência de quatro vitórias com 13 gols marcados, o time não conseguiu vencer uma sequer por mais de um gol de diferença, e o jogo que mais representou essa discrepância de setores e causou maior apreensão foi a vitória por 4 a 3 sobre o Cruzeiro, no Pacaembu.

Como prova máxima do caos defensivo pelo qual passava, o primeiro gol daquela partida aconteceu graças a uma falha tremenda de Marinho, que ao tentar recuar uma bola para Fábio Costa após cruzamento cruzeirense, deslocou o goleiro e mandou contra a própria meta. O Corinthians foi buscar o empate com um chute preciso de Roger, mas no início do segundo tempo a Raposa voltou a tomar a frente no placar com Fred, que contou com a sorte, a ajuda da trave e das costas do arqueiro corintiano para fazer 2 a 1. Mais uma vez atrás no placar, o Corinthians se lançou ao ataque e conseguiu o empate com um dos gols mais lembrados daquela campanha de 2005, por causa sua peculiaridade. A zaga cruzeirense tentou afastar a bola, e, meio que à queima-roupa, Rosinei colocou a cabeça na frente e, de fora da área, conseguiu encobrir o goleiro Fábio.

O volante voltou às redes dois minutos depois, virando o jogo para o Corinthians, viu Moisés Moura empatar para o Cruzeiro em 3 a 3 após seis minutos e só pôde ver sua contribuição ao time valer algo na prática aos 29 minutos do segundo tempo. Tevez saiu cara a cara com Fábio, foi derrubado de forma estabanada pelo goleiro e conseguiu o pênalti. Na cobrança, o argentino converteu e deu números finais ao duelo: 4 a 3. Pela dificuldade apresentada e pelas diversas alterações no panorama do duelo, o jogo é lembrado como um dos triunfos mais complicados da campanha corintiana.

Show de gols em Campinas

O Brasileirão somava 19 rodadas, e a Ponte Preta já havia caído de rendimento. Naturalmente, não conseguiu manter o início de campanha impressionante que a deixou por algum tempo na liderança e começava a cair na tabela. Ainda entre as primeiras, a Macaca seria um desafio interessante ao Corinthians, e o time de Márcio Bittencourt não ficou devendo naquela tarde em Campinas. Fez uma de suas atuações coletivas mais vistosas em todo aquele Campeonato Brasileiro, com destaque para Roger e Tevez, que fizeram dois gols cada.

Após o argentino abrir o placar de pênalti, a Ponte chegou ao empate com Kahê, e o jogo foi para o intervalo em 1 a 1. A conversa de intervalo, no entanto, deve ter sido motivadora, especialmente para Roger, que voltou voando e, em cinco minutos, marcou dois gols para dar tranquilidade ao líder. Com um golaço, o meia Danilo, aos 22 do segundo tempo, diminuiu para a Macaca e chegou a fazer o torcedor ponte-pretano sonhar com uma reação, mas a esperança basicamente acabou instantes depois, com o quarto gol corintiano, de Tevez. Até Sebá conseguiu deixar o seu, e Izaías, aos 35 minutos, deu números finais fazendo o último da Ponte e fechando o placar em 5 a 3.

Demissão de Márcio Bittencourt

Para a diretoria corintiana, não importava o início impressionante de carreira de Márcio Bittencourt. A cúpula alvinegra e a parceira MSI, com o investimento pesado em contratações, queriam um treinador renomado à frente do time. O treinador e seus comandados foram até o Rio de Janeiro, e, antes do apito inicial do duelo com o Flamengo, Márcio foi comunicado sobre sua demissão.

Márcio Bittencourt havia conquistado 17 vitórias e perdido seis vezes em 28 jogos. Seus números eram os melhores dos últimos 15 anos, e, apesar de se calarem, os jogadores ficaram descontentes com a demissão do treinador. Tanto é que o único a comentar a saída do técnico foi justamente a estrela Carlos Tevez, que, assim como Nilmar, dedicou um de seus gols naquele 3 a 1 sobre o Flamengo ao comandante. “Foi muito errada a atitude da direção. O Márcio foi o único treinador que conseguiu arrumar a equipe quando estava mal. Nunca vi um técnico ser demitido quando briga pelo título”, queixou-se o argentino, em declaração publicada pela Folha em 26 de setembro daquele ano.

Para o seu lugar, chegou o experiente Antonio Lopes, que estava no Atlético Paranaense. O treinador conseguiu dar sequência à caminhada do time rumo ao título, mas não conquistou o carinho do elenco e da torcida como Márcio, que, como jogador, já havia defendido o Corinthians.

A interferência de Luiz Zveiter

No fim de setembro, uma reportagem da revista Veja trouxe à tona a Máfia do Apito, esquema de manipulação de resultados praticado pelos árbitros Edilson Pereira de Carvalho e Paulo José Danelon que fraudava partidas para o favorecimento de determinados apostadores em sites especializados. Após a revelação do conluio, os clubes prejudicados pressionaram pela anulação ou remarcação das partidas afetadas, enquanto os beneficiados defendiam, entre outras alternativas, um ressarcimento em dinheiro aos prejudicados.

Não havia provas de que todos os jogos tivessem sido manipulados, afinal as escutas feitas pela Polícia Federal haviam começado em 2 de agosto, quando Edílson já havia apitado 20 dos 26 jogos em que trabalhou naquele ano. Luiz Zveiter, então presidente do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, foi até a carceragem da Polícia Federal em que estava detido Edílson Pereira de Carvalho para ouvir o que o ex-árbitro tinha a dizer e determinar quais jogos haviam sido manipulados.

Diante do depoimento pouco elucidativo de Carvalho, Zveiter, sem poder saber exatamente quais resultados haviam sido diretamente afetados, decidiu unilateralmente pela remarcação de todos os jogos apitados pelo árbitro. Em termos de tabela, ao fim da realização das partidas remarcadas, o Corinthians saiu como maior beneficiado, já que havia sido derrotado em seus dois jogos remarcados, contra Santos e São Paulo, e no repeteco desses clássicos conseguiu quatro pontos, com uma vitória sobre o Peixe e um empate com o Tricolor.

Revolta na Vila

Após a remarcação das partidas apitadas por Edilson Pereira de Carvalho, o sentimento de descontentamento era quase generalizado entre as equipes que haviam vencido alguns desses duelos e mesmo algumas que não haviam sido envolvidas. A epítome da revolta de clubes e torcedores naquela época, maior parte dela direcionada ao fato de que o Corinthians terminou como o grande beneficiado pela repetição dos jogos, aconteceu em um dos duelos remarcados, o clássico entre o Alvinegro e o Santos, na Vila Belmiro.

Ainda com Robinho em seu elenco, o Peixe havia vencido o Corinthians por 4 a 2 na partida original, em 31 de julho, e se viu forçado a jogar novamente. No repeteco, o árbitro Cleber Wellington Abade não poderia ter tido desempenho pior. Deixou de marcar um pênalti duvidoso para o Santos e não assinalou um claro para o Corinthians no primeiro tempo, que terminou em 1 a 1. Na segunda etapa, expulsou corretamente Luizão, que acertou uma cotovelada no adversário, mas o clima apenas piorou para ele na Vila com a decisão de mandar o atacante mais cedo para o chuveiro.

Mesmo com um a menos em campo, o Santos chegou ao 2 a 1 com Luciano Henrique. Nilmar buscou o empate três minutos depois, recolocando o time na disputa. A três minutos do fim dos 45 minutos da segunda etapa, Cleber Wellington Abade protagonizou o ato final de sua noite desastrosa. Apitou pênalti polêmico para o Corinthians, após uma suposta carga faltosa de Zé Elias em Nilmar. Na cobrança, Carlos Alberto deu números finais ao clássico: 3 a 2.

Na reposição após o gol corintiano, o experiente Giovanni expressou toda a revolta santista, e o descontentamento do torcedor brasileiro em geral com a arbitragem, chutando a bola para a arquibancada. O gesto inflamou ainda mais os torcedores santistas, que invadiram o campo e forçaram Abade a ser protegido por um escudo humano de policiais após o jogo.

O Eterno 7×1

A grande consagração da equipe montada pela MSI, uma das maiores atuações de Tevez com a camisa do Corinthians e uma exibição de gala para confirmar as credenciais do time ao tetracampeonato brasileiro. Apesar das polêmicas daquela competição, o 7 a 1 sobre o Santos foi o maior resultado daquela equipe, o maior argumento dos que defendem que o Alvinegro mereceu, sim, a conquista de 2005. Mais do que isso, o passeio no Pacaembu entrou para a galeria de maiores clássicos entre os rivais.

O fôlego com que o Corinthians entrou em campo serviu de prelúdio para o que os comandados de Antônio Lopes apresentariam naquela tarde. Com menos de um minuto, Rosinei inaugurou o placar. Geílson respondeu sete minutos depois, empatando o jogo e passando a impressão de que o Peixe poderia desafiar o líder do Brasileirão. Mas isso logo ruiu tão cedo começou o show de Carlos Tevez. Aos 20 e aos 36 minutos de jogo, o argentino fez dois gols e abriu 3 a 1 para os corintianos. No segundo tempo, transformou em goleada o clássico ainda aos oito minutos. Nilmar, quatro minutos depois, ampliou para 5 a 1.

Diferentemente da narrativa de outras goleadas impressionantes, o Eterno 7×1 não foi construído em cima de um apagão de um dos times em um espaço curto de tempo. Os gols corintianos foram saindo relativamente espaçados. Cerca de 20 minutos separaram o quinto e o sexto, ambos marcados por Nilmar. Marcelo Mattos, de falta, já aos 45 minutos da etapa complementar, fechou o caixão do Santos.

Pênalti em Tinga

Por fim, o último questionamento à campanha do Corinthians veio a três rodadas do fim. O empate por 1 a 1 com o Internacional no Pacaembu manteve os alvinegros na primeira colocação e fez com que a equipe de Antônio Lopes dependesse apenas de si. No entanto, o desfecho poderia ter sido bem diferente, não fosse uma decisão controversa do árbitro Márcio Rezende de Freitas. O árbitro ignorou a falta de Fábio Costa sobre Tinga e, mais do que isso, expulsou o colorado por simulação. Tirou quaisquer chances de reação dos visitantes.

Se vencesse, o Inter é que tomaria a ponta e deixaria o campeonato em suas mãos. Lance que, posteriormente, virou motivo de um dossiê dos gaúchos e de uma rivalidade crescente entre os dois clubes. Não dá para tirar os méritos do grande time que o Corinthians montou para ser campeão, especialmente pelo desempenho estrondoso de seu ataque. Fechar os olhos para o contexto em torno daquele título, no entanto, também é ignorar a história como se deu. O título alvinegro não tem asteriscos, mas tem os seus questionamentos.

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