Desta vez, o Palmeiras pelo menos tentou buscar algo diferente com Abel Ferreira
O Palmeiras teve que enfrentar muitas decepções em sua busca por um novo treinador. Miguel Ángel Ramírez não quis vir imediatamente. Sebastián Beccacece e Gabriel Heinze, outros nomes especulados, nem chegaram tão perto. É ruim ser rejeitado, mas o problema dessas rejeições específicas não é que elas existiram, mas que elas deveriam ter acontecido no final do ano passado quando as negociações por Jorge Sampaoli caíram por terra.
A frase “o futebol está mudando e temos que acompanhar essa mudança” entrou para os anais pelo contraste com a realidade. Seu sentimento, porém, tinha que ser verdadeiro e obrigava o clube a fazer exatamente o que fez dez meses depois: uma busca ampla por um treinador que estivesse por dentro do que há de mais moderno neste momento, independentemente de ele falar espanhol, português ou ser ou não brasileiro.
Em vez disso, Mauricio Galiotte, com a imaginação de uma colher de sopa, decidiu contratar um ex-YouTuber e desperdiçou quase um ano inteiro.
Além de ter ideias e métodos menos empoeirados, o profissional ideal também teria que estar disponível, e foi assim que o Palmeiras, após todas as negativas sul-americanas, chegou ao português Abel Ferreira, treinador de 41 anos que estava no PAOK, da Grécia, e foi anunciado oficialmente na noite desta sexta-feira.
Ferreira é um dos 186 jovens e promissores treinadores portugueses do momento, um pupilo do professor Jesualdo Ferreira, mentor de uns 150 deles. Foi lateral direito até os 31 anos, quando uma séria lesão no joelho o obrigou a encerrar a carreira precocemente. Manteve-se no Sporting como treinador das categorias de base e do time reserva até ser demitido por Bruno de Carvalho. Transferiu-se para o Braga, no qual também atuou nas equipes alternativas antes de assumir a principal, em 2017.
É muito difícil quebrar a hegemonia dos três grandes de Portugal. O prêmio realista ao restante da tabela é ser quarto colocado, o que Ferreira conseguiu em suas duas temporadas completas à frente do Braga. Na primeira, com recorde de pontos (75), gols (74) e vitórias (24). Conduziu o time aos 32 avos de final da Liga Europa, liderando o grupo que tinha Ludogorets, Istambul Basaksehir e Hoffenheim, ainda com Julian Nagelsmann. Foi eliminado pelo Olympique Marseille.
A sua segunda aventura europeia terminou precocemente e em decepção. Na terceira fase preliminar da Liga Europa, empatou com o Zorya Luhansk, por 1 a 1, na Ucrânia, e vencia em Braga por 2 a 1 até os 38 minutos do segundo tempo, quando Oleksandr Karavayev empatou e classificou a sua equipe nos gols marcados fora de casa. Por outro lado, chegou às semifinais das duas copas portuguesas, eliminado pelo Porto na principal e pelo Sporting, nos pênaltis, na Taça da Liga.
Foi para a Grécia, como jovens treinadores portugueses costumam fazer. Assumiu o PAOK, que havia acabado de conquistar a Dobradinha nacional. Mas seria a temporada em que o Olympiacos encerraria o seu longo jejum de dois anos sem ser campeão grego – o mais longo em 25 anos – com uma campanha arrasadora. Ferreira conseguiu o segundo lugar, mas, a 18 pontos do líder, nem chegou a brigar de fato pelo caneco. Parou no Olympiacos na semifinal da Copa da Grécia.
Nas duas temporadas em Portugal, teve números equilibrados, sempre entre os melhores nos índices ofensivos, como posse de bola e finalizações, e também nos defensivos. O denominador comum em seus dois trabalhos até agora é que sempre pegou equipes em posição de inferioridade financeira, embora o PAOK fosse o atual campeão grego. Chegou até a escrever, em um texto para o Coache’s Voice – um Player’s Tribune de treinadores – que esse hábito vem dos tempos em que jogava Football Manager.
“Meus amigos sempre escolhiam times como Barcelona ou Real Madrid – times em que, claro, você vencerá. Você pode comprar todo mundo! Do jeito que eu via, o maior desafio não era ser esses grandes times, mas competir contra eles, com menores recursos. Então, eu sempre treinei times pequenos, times da segunda divisão, como o Penafiel, em Portugal, no qual eu comecei minha carreira de jogador, ou o Braga. Ou times que nunca vencem títulos, como o Tottenham”, escreveu.
“E sempre acreditei que venceria? Como? Como iguais? Atacando da mesma maneira? Não. Como um cara pequeno como Napoleão conseguiu vencer as pessoas? Com estratégia. Com truques”, completou. Ferreira cita Jesualdo Ferreira como principal influência, mas diz que também presta atenção no que nomes como Mauricio Pochettino e Pep Guardiola estão fazendo. Não se define com um cara de posse de bola ou contra-ataque, retranqueiro ou ofensivo. O aspecto do seu trabalho do qual ele mais parece se orgulhar é a capacidade de adaptar as suas táticas ao adversário. Cita um jogo contra o Hoffenheim, pela Liga Europa, como o que mais o deixou satisfeito.
“Para mim, o futuro é um jogo de gato e rato dentro de uma única partida. Adaptar-se a mudanças táticas em reação ao seu adversário. O Hoffenheim começou com uma formação 3-5-2, que mudou para 4-3-3 durante a partida: três atacantes, laterais ofensivos. Começamos em um 4-4-2, mas terminamos em um 5-4-1 para combater o que eles estavam fazendo. Vencemos aquele jogo por 2 a 1”, contou Ferreira.
“Se o adversário tem o mesmo nível que você, então tudo bem, posso atacá-lo. Mas se eu atacar uma montanha, tenho que fazê-lo de maneira diferente. Em outros jogos, você quer ser protagonista, dominar a bola, mas às vezes tem que aceitar que seu adversário é mais forte que você. Neste caso, tem que ser equilibrado”, acrescentou.
Por vias tortas, porque Ferreira foi mais ou menos a décima opção, o Palmeiras pode ter encontrado um treinador que se encaixa bem às exigências do futebol brasileiro. Ele não está mais na posição de zebra. Tem um dos melhores elencos do país, mas precisará se adaptar a todas as particularidades do futebol brasileiro, às longas viagens, ao calendário e à insana cobrança por resultados – da qual ele também reclama no texto ao Coach’s Voice, embora, temo dizer, o pior ainda esteja por vir.
Ele pode ter sucesso se perceber que precisará se adaptar às realidades frequentemente injustas do futebol do Brasil da mesma maneira como busca se adaptar ao que o treinador adversário está fazendo em campo. Isso pode se manifestar adequando a tática jogo a jogo de acordo não apenas com o oponente, mas também com as condições físicas dos jogadores ou com a pressão externa daquela semana em particular.
Abel Ferreira tem contrato até 2022, o que costuma ser irrelevante para treinadores que trabalham no Brasil, mas, segundo o bem informado jornalista Bruno Andrade, uma multa rescisória de R$ 10 milhões pode lhe dar um pouco mais de tranquilidade. De qualquer maneira, ele tem apenas três anos como treinador principal e pode ser que fracasse também. Mesmo que seja realmente bom, precisará de tempo e um pouco de sorte, como qualquer um. Mas, pelo menos, o Palmeiras está finalmente tentando fazer alguma coisa diferente.
Mais sobre Abel Ferreira: multa rescisória no Palmeiras gira em torno de 1,5 milhão de euros (R$ 10 milhões). Para tirá-lo do PAOK, foi preciso pagar 600 mil euros (R$ 4 milhões), com a chance de desembolsar mais 800 mil euros (R$ 5,3 milhões), a depender de metas atingidas
— Bruno Andrade (@brunoandrd) October 30, 2020
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