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Depois do título carioca, já dá para confiar em Eurico Miranda? Com a palavra, os vascaínos

O respeito ao Vasco voltou? Debatível se ele sequer um dia foi embora. Mas Eurico Miranda sem dúvidas retornou ao protagonismo do futebol carioca com os seus charutos, bravatas, um racha na federação (não que ele o tenha causado, mas também não atuou como mero espectador) e um título carioca. A quebra do jejum de 12 anos sem levantar o troféu estadual deixou os vascaínos em êxtase, independente ou não de apoiar o seu novo-velho presidente.

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A questão é: a vitória sobre o Botafogo referenda os métodos de Eurico? E depois dela, dá para confiar no seu projeto? Com a palavra, três vascaínos com opiniões distintas sobre o dirigente para uma reflexão: um declaradamente contra, um que fez oposição a Eurico, mas agora que ele ganhou, quer ver o que acontece, e outro que entende os métodos dele como parte do jogo do futebol brasileiro.

Tudo segue sombrio
Eurico Miranda e o indefectível charuto (Foto: Paulo Fernandes/Vasco)
Eurico Miranda e o indefectível charuto (Foto: Paulo Fernandes/Vasco)

Eurico Miranda intitulou-se responsável por trazer o respeito de volta, o que não é verdade, pois o clube nunca deixou de ser o Gigante da Colina, mas ele aproveitou a carência do cruz-maltino e a quase vacância administrativa dos últimos anos da Era Dinamite. Prometeu fazer o que qualquer um faria, defendendo o clube e cuidando do patrimônio, que estava dilapidado.

Sua forma de trabalhar, no entanto, presume que o diferente é inimigo, que outro clube e imprensa precisam ser odiados, o que acaba voltando para o Vasco, que fica com imagem negativa, antipática. Anos atrás, como isso acontecia em meio a uma série de títulos, e o torcedor pouco se importava. Agora, pelo menos no médio prazo, é difícil esperar conquistas além da estadual.

Eurico mudou em alguns aspectos, como, por exemplo, montar um time dentro das realidades financeiras do Vasco, para poder manter os salários em dia, o que vem acontecendo, mas segue dirigindo de forma antiga, se cercando dos filhos, montando uma administração quase familiar. O passo fundamental para tornar o clube mais transparente, mais eficiente, moderno para o torcedor, para o sócio, não deve acontecer. Por enquanto, tudo segue um pouco sombrio.

Bruno Guedes tem 31 anos é jornalista da Agência Efe, blogueiro do Vasco no ESPNFC e colaborador do Esporte Fino

Votei contra, mas já que ele foi eleito…
Eurico Miranda na sua posse, ao lado do ex-ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, e do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (Foto: Marcelo Sadio/Vasco)
Eurico Miranda na sua posse, ao lado do ex-ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, e do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (Foto: Marcelo Sadio/Vasco)

Eu militei contra o Eurico durante a última eleição porque acreditava que tínhamos opções melhores, cabeças novas, pra oxigenar o ambiente do clube, iniciar uma gestão verdadeiramente profissional. E, claro, embora o Dinamite tenha sido uma decepção, um inepto, ele herdou uma bomba do Eurico. Não dá pra tirar o Eurico da conta dos momentos ruins que o Vasco viveu. Além disso , Eurico é uma figura que desperta muita antipatia e isso é prejudicial ao Vasco. Pois bem. Acontece que ele foi eleito novamente, assim os sócios decidiram e aí fazer o quê? Restou torcer pra dar certo.

E, por enquanto, não há do que reclamar. Não adianta agora ficar pensando no que foi feito ou deixou-se de fazer no passado. Isso era papo pra campanha. Agora, é pensar pra frente. E pensando no presente e pra frente, acho que as coisas estão correndo melhor que eu poderia supor. O Vasco montou um time dentro das suas possibilidades financeiras, está conseguindo pagar em dia os atletas e funcionários, conquistou um título que tava engasgado. Reformou o ginásio com uma campanha bem legal junto à torcida. Está reformando outras instalações.

Enfim, eu acredito que o Eurico queira trabalhar pra reaver parte da moral que ele já teve com a torcida, QUE NÃO FOI POUCA! Mas aí é claro que é todo um “pacote Eurico”, que inclui charuto, bravata, declarações polêmicas. É um personagem, né? Para o bem e para o mau. E aí tem outra questão. O Vasco ficou esses anos todos sem uma voz forte, ficou acanhado. Eurico é um cara que vai na TV e fala que o Vasco é o maior time do mundo mesmo, que o Flamengo tem que assistir à televisão, que vamos entrar pra ganhar os campeonatos. Ele é um cara que encarna o torcedor, que enxerga o Vasco do tamanho que o Vasco tem. Não é um cara que vai sentar ali e ouvir passivo que na margem de erro a torcida do Vasco é do tamanho da do Cruzeiro, por exemplo. É um cara que vai chegar e falar que a torcida do Vasco é a maior, e se não é a maior é a melhor.

Veja bem, não é adesismo ao Eurico mas, nessa gestão, especificamente nessa, não vejo muito do que reclamar. Um bom termômetro são os próprios jogadores e comissão técnica que toda hora exaltam o bom ambiente que existe hoje no Vasco. Quando tiver que criticar, criticaremos. Por enquanto, não vejo razões.

João Vítor Carvalho é petropolitano e tem 26 anos. Vascaíno de arquibancada, tentou jogar bola, mas a estrela não brilhou e foi fazer jornalismo

Ele não inventou as regras, apenas joga o jogo
Poucos entendem os bastidores do futebol brasileiro como Eurico Miranda (Foto: Marcelo Sadio/Vasco)
Poucos entendem os bastidores do futebol brasileiro como Eurico Miranda (Foto: Marcelo Sadio/Vasco)

Ao analisarmos o dirigente, é preciso separar o Eurico presidente do Vasco, do Eurico político/figura pública. Como mandatário do clube, administrador, internamente, vem fazendo um trabalho até então irrepreensível, mantendo-se dentro do orçamento planejado, cumprindo o combinado com os atletas e recuperando esportes antes esquecidos. A vida social em São Januário aos poucos volta a ser restabelecida.

Eurico Miranda pegou um Vasco quebrado, com três meses de salários atrasados e sem um elenco sequer mediano para começar o ano. Apostou no barato, acertou na mão ao trazer Doriva e fez o que havia prometido: um time competitivo que brigaria por títulos. E já ganhou o primeiro. Com os salários em dia, vale ressaltar.

No trabalho político, de bastidores, Eurico tem suas convicções e certamente seguirá lutando por elas. É um furacão. Sempre foi assim e não mudará agora. Muitas vezes, o maior problema é a forma com que se expressa do que a ideia que defende. Afinal, debater ideias é necessário. Divergir é importante, mas o dirigente ainda peca na forma de lidar com as negativas e com o novo.

Eurico está longe de ser um santo, um herói. Mas certamente não é um lobo no meio de cordeiros. Joga o jogo que todos jogam, só que com menos sorrisos e mais charutos. Tarde demais para um media training?

André Schmidt tem 29 anos e é estudante de Comunicação Social. Escreve sobre o Vasco desde 2008 para sites e blogs sobre o clube. Atualmente, trabalha no setor de Mídia Sociais do Grupo LANCE! e é blogueiro do Lancenet

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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