Brasil

Dependente de Ronaldo

Quando anunciou Ronaldo, o Corinthians pretendia não contar com ele. É claro que um negócio que envolve quantias e expectativas tão grandes não é feito por puro chute, mas a expectativa corintiana era a de que o seu sucesso na temporada não fosse condicionado ao do Fenômeno. O ano ainda está no início de março, mas já é possível dizer que dificilmente os torcedores alvinegros conseguirão sorrir em 2009 se o maior reforço não emplacar em campo.

Primeiro porque as receitas para a temporada estão comprometidas. O Corinthians gasta demais desde o início da gestão de Andrés Sanchez. Mais do que pode, diga-se. A chegada de Ronaldo, além de uma manobra eleitoreira para a reeleição do presidente, encheu o Parque São Jorge de expectativas que giravam em torno das finanças que seriam incrementadas com Ronaldo. 

Ignorava-se a crise mundial e, enquanto o São Paulo admitia o golpe e renovava com a LG por cerca de R$ 15 milhões, o Corinthians pensava até no dobro. Hoje, com dois meses transcorridos, é difícil imaginar que o clube consiga a mesma quantia tricolor. A pressão pela estréia de Ronaldo passa pela necessidade de se fechar um contrato o mais rápido possível. E os números dificilmente chegariam sequer perto dos R$ 30 milhões utopicamente projetados. Imagine então o prejuízo que uma lesão de início, mesmo leve, pode causar a esses anseios dos dirigentes corintianos?

Neste momento, o Corinthians se esforça para manter seus compromissos em dia, mas já há credores batendo às portas do Parque São Jorge e os vencimentos dos atletas não têm sido honrados com a mesma rigorosidade de outros momentos – o que, diga-se, tem deixado Mano Menezes possesso. Fechar um bom contrato é a esperança de reverter o quadro, mas os patrocínios das mangas, meias e calções, também, ainda não têm acertos. O mercado e o Corinthians esperam por Ronaldo, que ainda não passa de uma interrogação.

Não bastasse essas expectativas fora de campo, o Fenômeno precisa ser o que tem faltado para a equipe de Mano Menezes. Reforços como Túlio e Souza tiveram um trágico início, mesmo no risível nível técnico do Paulista-09, e já são negócios vistos com certo temor. Souza, aliás, que exigiu um esforço financeiro bastante razoável do Corinthians – cerca de R$ 4 milhões – para fazer os gols e preencher o espaço que Ronaldo naturalmente não preencheria, é um fiasco até aqui.

O futebol corintiano, a despeito do que pode indicar a invencibilidade em 2009 e a vice-liderança no Paulista, tem sido mais que modorrento. Otacílio Neto, Chicão e Elias têm sido os únicos a mostrar o ‘punch’ que exige o estadual. André Santos e principalmente Douglas e Morais, vão mostrando que há um abismo entre Série B e Série A e o Brasileiro nem começou. Alguém de peso precisará chamar a responsabilidade. E, com o perdão do trocadilho, esse cara só pode ser Ronaldo.

A questão é que o jogador não pode ser encarado como uma certeza. A despeito de seu discurso afinado, Ronaldo causou um transtorno fenomenal pela indisciplina no que foi a primeira viagem com o Corinthians, para Presidente Prudente. Além disso, mantém os hábitos noturnos agitados. Se isso não pode ser condenado, pode sim ser lamentado. São cenas que o jogador poderia evitar se estivesse, de fato, compenetrado em um retorno em grande estilo ao futebol. 

Hoje, os atos de Ronaldo repercutem de maneira dobrada ou triplicada. Se a idéia era que ele fosse só mais um, o que tem sido visto é um aparato especial que precisa ser feito, mas vem sendo muito mal feito. A saída de Antônio Carlos, confirmada nesta terça-feira, e o racha entre os departamentos de futebol e de marketing, em razão das baixas receitas adquiridas pelos marqueteiros, mostram que o Fenômeno precisa dar certo no Parque São Jorge. E se isso não acontecer…

O mesmo filme no São Paulo

Sete bons reforços e uma geração bastante promissora de jovens surgindo. Muricy Ramalho tinha esses dois importantes elementos para adicionar ao elenco campeão brasileiro. A lógica apontaria para uma equipe quase imbatível. Ou, então, para um rodízio que desse chances a todos e fizesse surgir mais alternativas. Afinal, a equipe campeã no último Brasileiro não é forte o bastante para brigar com sobras na Copa Libertadores.

Passados quase dois meses da temporada, o trabalho de Muricy Ramalho segue com os mesmos problemas dos outros anos. Em termos de esquema, o São Paulo segue incapaz de jogar as partidas decisivas sem três zagueiros. Muricy trabalha com uma linha de quatro jogadores na defesa apenas contra adversários como o Oeste, por exemplo. Contra vários rivais da Libertadores, ter uma trinca de beques significa jogar com um a menos no meio-campo. Foi assim, por exemplo, contra o Independiente de Medellín. 

O segundo e principal ponto passa pelo aproveitamento dos reforços. Arouca e Júnior César foram protagonistas na última Libertadores, mas são subutilizados pelo técnico. Como em outros anos, o São Paulo demora a encaixar seus novos jogadores. 

Com os jovens nomes, também, o conservadorismo de Muricy ainda tem prevalecido. Após as férias com o fim da Copa São Paulo, nomes como Oscar, Wellington, Henrique e Bruno Formigoni também precisarão trabalhar muito para receberem um olhar do técnico. Se ele falava em rodízio e em até escalar um time de garotos no Paulista, bastou a primeira derrota, contra o Santo André, para o discurso mudar. 

A coluna não discute os méritos, qualidades e títulos de Muricy Ramalho. Afinal, são mesmo indiscutíveis. Mas, se há defeitos em seu trabalho – e de fato há -, eles passam pelo conservadorismo. Pelo medo de sofrer uma derrota, por mais inexpressivo que seja o torneio em disputa.

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Equipe Trivela

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