Brasil

Defesa do território

O leão não sai à caça. Até teria força para fazê-lo, mas seu corpo pesado dificulta os ataques rápidos a zebras, gnus e outras presas. Melhor deixar esse trabalho com a leoa, mais esguia e rápida. E, enquanto a fêmea vai à busca de comida, o macho fica em “casa”, garantindo a proteção do grupo. É assim com os leões africanos e, no Brasileirão 2009, tem de ser assim com o leão pernambucano.

Entre as equipes que, neste momento, lutam contra o rebaixamento, o nome do Sport é o que mais causa estranheza. Botafogo, Náutico, Avaí e Atlético Paranaense claramente sofrem com elencos sucateados e uma incrível falta de futebol nessas primeiras rodadas. O Rubro-Negro tem um pouco mais de crédito, pois praticou um futebol competitivo na Libertadores e mostrou ter condições de estar em situação mais confortável.

O parâmetro automático de qualquer análise sobre o potencial do Leão (o clube, não o técnico) é a campanha na Libertadores. Sem ser vistoso, o Sport soube usar a Ilha do Retiro para fazer os resultados e ainda aproveitou de sua condição de azarão para surpreender os adversários fora de Recife. Não fosse a brilhante atuação de Marcos no jogo de volta das oitavas de final, os pernambucanos teriam ido mais longe.

O problema é que isso não deixa de ser um pouco fantasioso. O Rubro-Negro vivia um outro momento, em que a facilidade do Campeonato Pernambucano lhe dava sossego para se concentrar nos jogos internacionais (ainda que o clube tenha colocado o time titular em campo mesmo no estadual). Além disso, havia uma clara química entre torcida, elenco e comissão técnica. A cada jogo importante, o Sport se superava.

Esse encanto acabou. A sinergia entre elenco e técnico se mostrou vulnerável com a exposição dos atritos entre Nelsinho Baptista e Paulo Baier (ambos já fora do clube). Além disso, o nível de exigência do Brasileirão é mais alto e, com um torneio de pontos corridos, a tendência é que embalos momentâneos sejam neutralizados. Desse modo, o Sport precisa aproveitar ao máximo suas virtudes.

Apesar da boa campanha nos últimos 18 meses, o elenco pode ser considerado um ponto fraco do elenco rubro-negro. Com exceção de Ciro – ainda inconstante pela inexperiência – e do seguro Magrão, o time-base é recheado de jogadores medianos, que normalmente compensam a limitação técnica com muita entrega. É o caso de Durval, Dutra, Daniel Paulista, Sandro Goiano, Fumagalli, Weldon e, agora, Arce.

Em condições normais, essa equipe não tem condições de brigar por uma vaga na Libertadores. A torcida pode sonhar com o reencontro com o momento mágico da Copa do Brasil de 2008, quando o Sport jogou como poucos times no país. Mas o mais realista, sobretudo se considerado que o time tem apenas 8 pontos e beira a zona de rebaixamento, é ter um segundo semestre tranquilo.

A diretoria rubro-negra não prima pela autocrítica e contratou Leão (agora sim, o técnico) pensando no topo da tabela. Mas pode ter acertado pela capacidade do treinador de dar confiança a elencos limitados na luta contra o rebaixamento. A indicação de Élder Granja e Fabiano, que há um bom tempo não apresentam um bom futebol, não é um bom ponto de partida para o trabalho, mas o histórico do ex-goleiro – inclusive na Ilha do Retiro – merece respeito.

Se Leão der aos jogadores o espírito de competição adequado, o clube tem todas as condições de manter a Ilha do Retiro como um dos estádios mais complicados para os visitantes. Se souber manter sua casa segura, o leão pode ficar tranquilo, mesmo que a caça da leoa fora não seja das melhores.

2010 é logo ali

O Corinthians é a notícia da semana. Primeiro, porque foi campeão da Copa do Brasil – principal feito no futebol nacional neste mês (considerando que o Cruzeiro está na Libertadores, torneio internacional). Segundo, porque qualquer coisa que envolve o Corinthians – para o bem e para o mal – sempre é tratado na imprensa como o fato mais importante do mundo. Como faz uma semana que o time superou o Internacional e já houve a devida overdose alvinegra, o clube do Parque São Jorge ficou como o segundo assunto desta coluna. O que não significa que não haja nada de relevante a se falar do time.

Apesar de o título da Copa do Brasil (leia-se a vaga na Libertadores 2010) servir de álibi para quase qualquer coisa que o Alvinegro fizer no segundo semestre, o clube tem meses muito mais traiçoeiros do que imagina. Pela solidez coletiva do time e a situação da tabela (pulará para quinto se vencer o Fluminense nesta quarta), o Corinthians reúne condições de brigar pelo título nacional. Ao mesmo tempo, é claro para todos no Parque São Jorge que a prioridade do clube em longo prazo é estar forte na Libertadores 2010, o que seria um título inédito no ano do centenário.

Ou seja, Mano Menezes precisa manter o time competitivo para buscar o Brasileirão, mas tem de, ao mesmo tempo, ir montando a equipe para 2010. Claro que estar forte na Série A ajuda a chegar bem no ano que vem. Mas é possível que, em alguns momentos, surjam conflitos. Como, por exemplo, experimentar novas formações ou testar jogadores. Outro problema é que, se o título nacional se transformar em objetivo palpável, uma eventual perda pode criar a sensação de derrota.

Claro, ganhar o Brasileiro precisa ser prioritário sempre. Simplesmente porque é um campeonato importante, que merece ser valorizado (e não tratado como caminho para a Libertadores). Mas, pelo modo como as coisas funcionam no Corinthians e como um título internacional se transformou em obsessão, a realidade pode ser distorcida. E saber navegar calmamente nessa corredeira cheia de pedras é o desafio do elenco e da comissão técnica.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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