Brasil

Dê certo ou errado, Santos merece elogios por tentar algo diferente com Jesualdo Ferreira

O Santos foi ousado ao apostar em Jorge Sampaoli, em baixa após seu trabalho na Argentina e estranho ao ambiente do futebol brasileiro. Colheu os frutos, com uma campanha acima das suas capacidades financeiras. Com o fim das negociações para renovar o contrato do argentino, se viu em uma encruzilhada: poderia ir na suposta bola de confiança com nomes batidos e pouco empolgantes ou arriscar novamente. E se a gestão José Carlos Peres tem uma série de problemas, merece elogios por ter insistido na tentativa de buscar algo diferente com a chegada de Jesualdo Ferreira.

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Sem contar com poder de investimento dos concorrentes, o Santos precisa de um trabalho técnico superior para poder competir. Encontrou isso em Sampaoli e agora procura o mesmo em Jesualdo Ferreira, referência da geração de treinadores portugueses que se espalhou pela Europa nos últimos anos. Foi professor de José Mourinho, inspiração de nomes como Leonardo Jardim, André Villas-Boas, Paulo Fonseca, Marco Silva e outros.

E também admirado por Jorge Jesus, cujo sucesso no Flamengo contribuiu para que, aos 73 anos, o veterano abandonasse os planos de aposentadoria para embarcar na aventura pelo seu quarto continente. Foi campeão na Europa com o Porto, na África com o Zamalek, na Ásia com o Al-Sadd e tentará o ser também na América do Sul, com o Santos.

Jesualdo Ferreira não tem passado relevante como jogador. Sua origem é a academia. Era professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF), no começo da década de oitenta, quando recebeu a ligação de um ex-aluno lhe oferecendo um emprego no Rio Maior, que na época militava na segunda divisão. Naquela época, contribuía para as categorias de base da seleção portuguesa e do Benfica. Foi quando recuperou contato com Toni, que estava em plena transição entre uma carreira de sucesso como jogador para outra também vitoriosa como técnico.

Jesualdo continuou dando aulas e tendo chances em clubes menores, como o Torreense e a Acadêmica, até que a amizade com Toni lhe desse oportunidades como auxiliar técnico. Acompanhou o amigo no título português de 1993/94 pelo Benfica e na temporada seguinte no Bordeaux, no qual comandou um jovem Zinedine Zidane. Após a passagem pela França, os dois se separaram. Jesualdo treinou o FAR Rabat, do Marrocos, e depois as seleções sub-20 e sub-21 de Portugal.

O status que havia ganhado como auxiliar valeu um cargo no Alverca que naquela época, começo da temporada 2000/01, era um time de meio de tabela da elite. Terminou em 12º lugar e recebeu o convite para se reencontrar com Toni no Benfica, preferência do presidente Manuel Vilarinho em detrimento de José Mourinho. Assumiu interinamente o comando da equipe quando o colega foi embora, meses depois, e acabou ficando cerca de um ano no comando. “É um homem competente e um amigo. Tem uma trajetória no futebol português que merece o respeito de todos que o acompanham”, disse Toni, ao deixar os Encarnados.

Sua carreira enfim decolou. Foi responsável por modernizar o Braga e consolidá-lo como a quarta força de Portugal. Teve, em seguida, o seu ápice ao substituir o holandês Co Adriaanse no Porto. O holandês, último estrangeiro campeão pelos Dragões, havia deixado o título português como legado. Jesualdo foi além: ganhou a liga nacional três vezes seguidas, o único a conseguir tal feito. “Os colegas do Porto com quem falava sempre diziam que, com ele, todos os jogadores atuavam melhor – ou seja, o homem conhece, tem olho, tem conhecimento”, afirma o jornalista João Almeida Moreira, correspondente do A Bola no Brasil.

E, agora, começam os problemas. Depois do Porto, Jesualdo teve passagens apagadas por Málaga, Panathinaikos e Sporting. Precisou sair da Europa para ter sucesso, com o Zamalek, do Egito, e depois durante quatro temporadas no comando do Al-Sadd. Foi campeão nacional no Catar e deixou a equipe arrumadinha para Xavi começar a sua carreira como treinador. Está há seis anos assistindo ao futebol europeu de longe e há quase uma década sem fazer um grande trabalho no mais alto nível.

As comparações com Jorge Jesus serão frequentes, por serem treinadores da mesma escola e que, inclusive, duelaram pelo título português de 2009/10. Foi o atual treinador do Flamengo que, no comando do Benfica, encerrou a hegemonia do Porto de Jesualdo. Há algumas diferenças fundamentais. Jesus era um fanático pelo futebol brasileiro, famoso por ver partidas até de divisões inferiores, enquanto Jesualdo, embora estivesse comentando o campeonato na televisão portuguesa, precisaria se aprofundar, e ainda bem que o estudo é seu principal atributo.

Se Jesus e Sampaoli são elogiados pelo estilo ofensivo, Jesualdo prefere uma abordagem mais equilibrada e mais conservadora, em contraste com as constantes experiências do argentino. É o mestre do 4-3-3, o que levou o próprio Jesus a dizer que “ninguém sabe dinamizar” o esquema tático melhor do que ele. Mistura o soberbo conhecimento tático com habilidade no vestiário – abordagem de “paizão rabugento”, segundo este perfil do Goal.com -, conseguindo tirar o melhor dos jogadores e manter o bom ambiente. Mas não passa uma imagem das mais simpáticas.

“Ao contrário de Jorge Jesus, que é muito carismático, que todos sabem quem é, mesmo quem não acompanha futebol sabe quem é aquele cara da cabelereira branca que fala muito mal português, o Jesualdo é a ausência de carisma”, diz Moreira. “Caladão, fechado, meio antipático – ninguém votaria nele para cargo nenhum. Mas ganhou, justamente, a fama de alguém que sabe de bola. Não é solar, como o Jorge Jesus, que é mais alegre, mais expansivo, mais adaptável ao jeito brasileiro. Também não tem o estatuto de Sampaoli. Conhecedor, professoral, teórico, mestre de muitos outros treinadores portugueses, mas sem carisma, sem mover paixões”.

São alguns fatores de risco que se juntam ao fato de que Jesualdo estava pronto para se aposentar, quando foi atraído pela oportunidade de ter sucesso no clube de Pelé e ganhar títulos em mais um continente. Tem oito anos a mais do que Jesus, que já um profissional muito experiente, e resta saber o quanto está disposto a aprender os meandros do futebol brasileiro e se dedicar a fazer com que o Santos, longe de ser o clube com mais recursos do país, tenha mais uma temporada acima das expectativas. Mas é competente, sábio, experiente, admirado e muito mais interessante do que insistir na mesmice, uma lição que o Santos parece ter aprendido.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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