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Cuca retorna ao Atlético Mineiro entre seu passado vitorioso e a rejeição pelo caso de estupro em que se envolveu

É sempre um momento especial quando um antigo ídolo retorna. Parte da torcida do Atlético Mineiro está feliz por se reencontrar com Cuca, oficializado nesta sexta-feira como o novo técnico da equipe. Eles certamente se lembrarão do título da Libertadores de 2013, o maior e mais épico da história do Galo. Outra parte, porém, está incomodada. Porque, 34 anos depois, o caso de estupro em que ele se envolveu ainda é um assunto mal resolvido.

Cuca, então um jogador de 23 anos do Grêmio, Eduardo Hamester, Fernando Castoldi e Henrique foram acusados de abuso sexual contra uma garota de 13 anos durante uma excursão do Grêmio à Suíça, em 1987. A menina havia entrado no hotel em busca de souvenirs e, segundo a acusação, foi puxada para dentro do quarto em que eles estavam. O vice-presidente jurídico do clube gaúcho na época, Luiz Carlos Martins, o Cacalo, alegou ao Esporte Espetacular que apenas um deles teve relação sexual com a jovem e de maneira consentida. De qualquer jeito, a lei considera a ação um estupro presumido porque a vítima era jovem demais para dar consentimento. Os quatro atletas passaram um mês detidos em Berna. Dois anos depois, foram condenados a 15 meses de prisão por atentado ao pudor com uso de violência. Como o Brasil não extradita seus cidadãos, a pena de Cuca prescreveu antes que fosse cumprida.

O caso teve repercussão na época, mas não exatamente do jeito que deveria. Os jogadores foram recebidos como heróis em Porto Alegre, segundo as antropólogas Carmen Rial e Miriam Pillar Grossi, que foram ao aeroporto cobrir o desembarque e fizeram uma reportagem para o jornal feminista Mulherio, publicada naquela época e que repercutiu nas redes sociais mais recentemente durante a discussão sobre a contratação de Robinho, condenado por estupro na Itália, pelo Santos.

A matéria, aliás, contradiz o relato de Cacalo porque traz uma declaração do advogado à Zero Hora em 31 de agosto daquele ano em que ele diz que “um dos jogadores manteve relação sexual completa, outro apenas sexo oral, enquanto um terceiro fez carícias e o quarto foi um ‘vouyer’ conivente: apenas olhou’.

A reportagem da Folha que entrevistou Rial no último mês de outubro destaca trechos assombrosos da imprensa, tratando a (naquele momento, ainda) acusação como uma “travessura”. Um colunista chegou a culpar o fuso horário e um suposto “choque de cultura”. Outro defendeu que, se eles tivessem cometido um furto ou praticado desordem séria, seria a favor que fossem demitidos do Grêmio. Mas um “deslize de ordem sexual”? Ah, deixa para lá.

Não houve consequências reais para Cuca. Ele seguiu a sua carreira como jogador de futebol. Uma vez aposentado, tornou-se um dos técnicos brasileiros de maior sucesso, campeão da Libertadores pelo Galo, campeão brasileiro pelo Palmeiras, finalista da Libertadores pelo Santos. Tanto que poucas vezes precisou tocar no assunto em todos esses 34 anos. O caso voltou à tona ano passado porque era impossível não notar que o treinador do clube que contratava Robinho também havia se envolvido em um episódio de violência contra a mulher.

E hoje em dia, embora ainda longe, longe, longe do ideal, esse tipo de episódio é recebido com muito menos tolerância. A notícia de que estaria voltando ao Atlético Mineiro, confirmada nesta sexta-feira, gerou uma onda de revolta nas redes sociais. A hashtag #CucaNão chegou a ser um dos assuntos mais comentados do Twitter. Não é a primeira vez que torcedoras e torcedores do Galo fazem esse tipo de ação coletiva – em 2017, foi para repudiar o silêncio do clube em relação à primeira condenação de Robinho.

A rejeição tomou força e o levou a finalmente se manifestar em uma entrevista ao blog de Marília Ruiz, no UOL. Cuca caiu nos velhos vícios de homens que se defendem de acusações de abusos sexuais. Reuniu as duas filhas e a mulher para dar um depoimento em vídeo, como se dissesse que é impossível ser estuprador e ter uma família ao mesmo tempo – não apenas é possível, como é muito comum.

Disse que não tem “culpa nenhuma de nada” e que “nunca levantou um dedo indevidamente ou inadequadamente para alguma mulher”. Alegou que não foi “julgado e culpado”, pelo seu julgamento ter acontecido à revelia, e que não houve estupro, abuso sexual ou tentativa de abuso, mas “uma condenação por ter uma menor adentrado o quarto”.

A desculpa não colou com o coletivo Grupa Galo, que reúne torcedoras do Atlético Mineiro. “É importante ressaltar que, como figura pública, o treinador é visto como um exemplo”, afirmou uma representante do grupo que preferiu não se identificar ao SuperFC. “Ele se envolveu, junto com outros atletas, em um caso de violência sexual contra pessoa vulnerável e sua fala recente não muda sua relação com o caso. Mais que isso, ao se dizer inocente e mal discutir o assunto, ele silencia um debate necessário e fomenta a continuidade de posturas violentas no ambiente do futebol e na sociedade, deixando de usar seu papel de destaque como instrumento de mudança e evolução do tema”.

“Gostaríamos que o clube não silenciasse esse debate. É preciso que o clube – e também o treinador – se engajem em campanhas de educação e conscientização sobre violência contra a mulher, que conversem com a torcida e também jogadores e funcionários. Figuras públicas como atletas, técnicos e dirigentes têm grande influência na opinião pública, e a idolatria à qual estão sujeitos implica que suas atitudes possam impactar diretamente o comportamento de quem os admira. Das coisas mais comuns que escutamos nesse período de #CucaNão foram pessoas minimizando o assunto, tratando como se um ato sexual com uma criança de 13 anos pudesse ser consensual. É preciso um trabalho sério e sistemático sobre o tema. Gostaríamos que o clube fosse protagonista nessa luta”, completou.

Liderar a luta ou silenciar o debate? Alguém arrisca um palpite? “Sobre os antigos episódios envolvendo o nome do treinador (e que vieram à tona recentemente), o clube entende que o assunto está superado, em face das últimas declarações dadas por ele”, afirmou o Atlético Mineiro na nota oficial em que oficializou a contratação de Cuca. “O Clube Atlético Mineiro afirma confiar no treinador, em suas palavras e, principalmente, em sua conduta: sempre proba e séria, inclusive durante o período em que treinou nosso time”.

Cuca falou sobre o caso, mas não reconheceu o erro ou pediu desculpas. Houve uma condenação que não foi cumprida. Passou a maior parte da sua carreira sem que esse assunto lhe causasse consequências – e sequer tocava nele. Isso deveria acontecer agora? O Atlético Mineiro respondeu de maneira muito simples: o período em que ele treinou nosso time foi bom demais para dizermos que sim.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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