Brasil

Criatividade zero

 Por meses antes da Copa, discutiu-se qual seria a convocação da Seleção Brasileira, quem iria e quem seria deixado de fora. O setor considerado mais problemático do time era o meio-campo, onde faltava criatividade. Além disso, Kaká, melhor jogador do time, não tinha um substituto à altura. Ronaldinho e Paulo Henrique Ganso foram dois dos nomes mais pedidos exatamente para suprir essa carência.

O jogo contra Portugal, último da primeira fase, mostrou o que muitos temiam: Júlio Baptista, ainda que seja um bom jogador, não tem condições de substituir Kaká. O meio-campista foi titular do time que empatou em 0 a 0 com os portugueses e pouco tocou na bola. Não conseguiu mostrar sua força ofensiva, nem encostar nos atacantes para criar jogadas.

A incapacidade de criar jogadas da Seleção Brasileira foi ainda mais afetada pelos outros integrantes do meio-campo. Gilberto Silva e Felipe Melo tem errado muitos passes e esse tem sido um problema do meio-campo. Como Elano ainda sentia dores e o Brasil estava classificado, Dunga foi prudente e substituiu o jogador por Daniel Alves. Nenhum deles é um jogador criativo ou capaz de ser armador.

Felipe Melo, aliás, merece atenção especial. Além dos passes errados que já cometia, tem correspondido à expectativa de que pode ser expulso a qualquer momento. O destempero do jogador já foi mostrado muitas vezes e parece aumentar à medida que os jogos passam. Contra Portugal, trocou entradas violentas com Pepe e não acabou expulso porque foi substituído no primeiro tempo. O jogador mostrou despreparo para jogar uma competição desse nível e, se não melhorar, pode prejudicar o time em um momento decisivo – ou perder o lugar no time, se Dunga perceber o risco que o jogador da Juventus representa.

A entrada de Daniel Alves evidenciou que, apesar do jogador do Barcelona ter sido convocado como lateral, é o reserva imediato do meio-campo. E isso mesmo com Ramires e Kléberson no elenco, jogadores especialistas na posição. O camisa 13 conseguiu fazer boas partidas atuando como meio-campista sob o comando de Dunga, mas suas três partidas na Copa – as duas primeiras vindo do banco de reservas – foram decepcionantes. Não conseguiu dar a força pelo lado direito que conseguiu em outras atuações. O jogador também encostou pouco nos atacantes e nem nas bolas paradas Daniel Alves conseguiu levar perigo.

Com a má atuação do setor, Dunga parecia inconformado. O problema é que não havia um jogador no banco capaz de mudar esse panorama. Ramires, apesar de atuar com velocidade e ter atuado como terceiro homem de meio-campo no Cruzeiro e no Benfica, não é um armador de jogadas. A posição que mais rende é como segundo homem do meio, como segundo volante, posição que é de Felipe Melo.

O mesmo acontece com Kléberson, que apesar de ter começado sua carreira como meia ofensivo, tornou-se volante. O caso do jogador do Flamengo, aliás, é curioso. Mesmo sem ter atuado como titular em um jogo sequer sob o comando de Dunga, foi à Copa do Mundo. É o único jogador, ao lado de Doni, a não ter jogado um minuto sequer nos amistosos de preparação da Seleção, contra o Zimbábue e Tanzânia. Mesmo com a ausência de Elano e a má atuação dos homens do meio-campo, Dunga não o colocou em campo. Claramente, o treinador não confia no jogador.

A pergunta que fica, então, é: por que o treinador convoca um jogador que não confia? Um comentário aqui na redação da Trivela quando saíram os nomes dos convocados foi que levar um jogador para a Copa apenas por gratidão pode ser perigoso, porque uma hora pode ser necessário usá-lo. E falávamos do goleiro Doni, que nem na Roma é titular, mas é exatamente o mesmo caso de Kléberson.

Mais grave do que isso é ver que é evidente que falta um jogador de criatividade no meio-campo. Os pedidos Ronaldinho e Ganso seriam boas opções para tentar melhorar esse setor, mas os dois estão apenas assistindo. Kléberson, convocado e inscrito, também está só assistindo e, pelo que demonstrou Dunga até aqui, é como continuará até o final da participação brasileira na Copa.

A ausência de Ronaldinho é difícil de ser justificada. Fez parte do grupo de Dunga e, apesar de dois anos de má fase e péssimas atuações com a camisa da Seleção, recuperou-se na última temporada no Milan e foi o grande jogador do time. Mostrou que poderia ser importante para o grupo, sem precisar sacrificar um titular da equipe. Poderia estar no lugar de Kléberson e ser uma opção para Dunga tentar mudar a Seleção contra Portugal no segundo tempo.

O mais grave disso é que os adversários estão cansados de saber que a criatividade do time do Brasil está concentrada em Kaká. Marcando bem o meia, as chances de gol criadas diminuem drasticamente. Esse defeito não tira do Brasil o rótulo de um dos principais favoritos ao título. Mas coloca em evidência um ponto fraco da Seleção que, bem aproveitado, pode levar à eliminação precoce de um time que tem condições de levantar a taça.

Em um país com poucas opções de convocação, usar Júlio Baptista e Daniel Alves como os jogadores mais ofensivos do meio-campo seria justificável. No caso do Brasil, onde o que não falta são boas opções para serem convocados, não dá para justificar não ter mais nenhuma boa opção.

Mas o problema, afinal, não é a convocação feita por Dunga, e sim “a imprensa”, que não “torce” (o que é papel do torcedor, não dos jornalistas que cobrem Seleção Brasileira) e não apóia o time, não é, Dunga?

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Equipe Trivela

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