A notícia correu por diferentes veículos de imprensa nos últimos dias, mas agora é oficial: Hernán Crespo será o novo treinador do São Paulo na próxima temporada. O argentino de 45 anos chega referendado como campeão da Copa Sul-Americana de 2020, sob o comando do Defensa y Justicia. O resultado contundente na decisão contra o Lanús abriu os olhos de diferentes clubes brasileiros sobre as virtudes do ex-centroavante e, no fim das contas, o Tricolor levou a melhor. Crespo assinou contrato de dois anos e ainda não há data divulgada para assumir o time. É um treinador bastante interessante, mas os são-paulinos também precisam ter consciência de que fazem uma aposta.

O que mais chama atenção em Crespo ainda é seu respaldo e sua história como jogador. Dentro de campo, Valdanito foi um dos melhores centroavantes que o futebol argentino já teve e defendeu clubes de ponta na Europa. Por si, não é uma virtude que garante o sucesso na carreira de treinador. No entanto, não se nega a experiência que o veterano teve com alguns técnicos excelentes, sobre os quais pôde absorver conhecimentos ao longo da carreira profissional.

Crespo cita como referências nomes como Marcelo Bielsa, Carlo Ancelotti e José Mourinho. Também trabalhou com Daniel Passarella, Ramón Díaz, Alejandro Sabella, Pekerman, Alberto Malesani, Roberto Mancini, Claudio Ranieri e outros tantos. Não dá para dizer que o veterano reza uma cartilha específica, mas conseguiu experimentar e aprender – algo que não se restringe apenas ao plano tático ou técnico. Em suas próprias palavras, ele ressalta como a didática para transmitir o que se quer aos atletas é fundamental e como a relação humana também precisa ser trabalhada por qualquer comandante.

A trajetória de Crespo como jogador também é importante pelo respeito que o velho artilheiro pode inspirar em seus jogadores. O centroavante foi talhado nas principais competições, com três do Mundo no currículo e ainda finais continentais por clubes – com títulos de Libertadores e Copa da Uefa, além do vice na Champions. Por sua vivência, o argentino também lidou com situações diversas e pode oferecer conselhos importantes a quem estará em campo. Não parece coincidência que o jogador que mais evoluiu em suas mãos no Defensa y Justicia foi Braian Romero, firmado no comando do ataque e artilheiro da Copa Sul-Americana.

Entretanto, a experiência de Crespo na casamata ainda é relativamente curta. O argentino realizou sua formação como treinador na Itália, quando ainda atuava pelo Parma, e depois de pendurar as chuteiras assumiu as equipes de base gialloblù. Conseguiu bons resultados, ainda mais num clube à beira da falência. Já no futebol profissional, os resultados confiáveis demoraram a aparecer. Crespo não ficou uma temporada completa no Modena, ameaçado pelo rebaixamento na Serie B. Chegaria a ser dirigente depois disso, atuando nos bastidores do próprio Parma durante a reconstrução do clube. Depois, tomaria a decisão de retornar à Argentina para investir em sua carreira como técnico.

O primeiro clube a abrir as portas para Crespo em seu país foi o Banfield. O novo comandante chegou com uma proposta de jogo diferente do que se praticava na agremiação e não emplacou. Não conseguiu melhorar o final ruim no Campeonato Argentino de 2018/19, mas ficou para a temporada seguinte, bancado pela diretoria. Entretanto, apesar de algumas boas ideias e um futebol mais solto, os resultados não apareceram depois de cinco rodadas da liga em 2019/20 e o Taladro preferiu demitir o técnico. Em 18 partidas oficiais, os auriverdes tiveram aproveitamento de 33% dos pontos disputados.

A sorte sorriu para Crespo quando o Defensa y Justicia o procurou para assumir a equipe em 2020, e o próprio treinador sabia disso. Era um clube estável e, importante, com uma filosofia bastante clara. Durante a última década, os auriverdes ascenderam no futebol argentino ao contratarem técnicos jovens e com ideias de jogo parecidas. Diego Cocca, Ariel Holan e Sebastián Beccacece formaram praticamente uma linha de produção, com características próximas. Outros que não geraram o mesmo impacto ou não tiveram o mesmo sucesso posterior também se encaixam neste perfil. Crespo era o escolhido, com razão.

A apresentação de Crespo deixava expressa essa continuidade. Ele agradeceria ao clube “por me escolher para seguir uma linha de jogo e de conduta que eu me identifico”. O novo técnico encontraria uma equipe mais acostumada a um estilo ofensivo e com diferentes jogadores preparados desde Beccacece no vice de 2018/19, por mais que o elenco tenha passado por mudanças. De certa maneira, chegou com bases bem estabelecidas, por um trabalho mais amplo realizado pelo Defensa y Justicia. Este ponto também é importante em suas conquistas.

Crespo encerrou o Campeonato Argentino de 2019/20 sem derrotas, com três vitórias e três empates, que levaram o time à sexta colocação. Seu desafio maior estava na estreia do Defensa y Justicia na Copa Libertadores, na qual acumulou duas derrotas antes da paralisação do futebol por conta da pandemia. Com três meses de trabalho, o comandante precisou lidar com as dificuldades para gerir os treinamentos à distância e, depois, com o retorno da competição continental antes do futebol local. Até se recuperou com duas vitórias na volta da Libertadores, mas perdeu a chance de seguir aos mata-matas com as derrotas para Delfín e Santos na reta final do grupo. Ao menos, a terceira colocação na chave levaria o clube à Sul-Americana – e mudaria sua história.

Não dá para dizer que o Defensa y Justicia fez uma campanha impecável na Sul-Americana. O time atravessou alguns momentos de sufoco, especialmente nas fases iniciais, e cresceu à medida que avançou. O aperto contra o Vasco, por exemplo, foi maior do que se veria diante do Bahia na etapa seguinte. A impressão era de que as condições físicas dos auriverdes melhoraram e, com uma intensidade crescente, puderam apresentar melhor o seu jogo. O ápice viria mesmo na decisão contra o Lanús. A equipe de Crespo (que não era favorita) controlou a partida desde o primeiro tempo e explorou erros adversários para construir uma confortável vitória por 3 a 0.

Crespo não representa um rompimento em relação a Diniz. Existem ideias principais similares, como a valorização da posse da bola. No entanto, o argentino possui também características diferentes. Até por sair da escola italiana em sua formação como treinador, Crespo preza por uma organização tática maior em suas equipes, sem perder o dinamismo. Em consequência, seus times costumam variar a formação conforme o oponente. Além disso, o técnico também exige uma velocidade maior na criação de oportunidades e um bom aproveitamento dos lados do campo.

No São Paulo atual, além das questões sobre a falta de atenção dos jogadores e o excesso de erros, uma das maiores demandas está na proteção defensiva. Crespo não se caracterizou em seus trabalhos anteriores por montar zagas tão seguras. No Morumbi, este deveria ser um primeiro passo importante, até pela maneira como os tricolores sofreram derrotas recentes. O argentino também não tende a abdicar da saída de bola pelo chão, embora possua recursos para orientar seus jogadores a diferentes padrões e não deixar a equipe vulnerável.

O elenco do São Paulo precisará de ajustes àquilo que Crespo via no Defensa y Justicia. Será outro ponto importante, considerando a maneira como o técnico roda suas peças e muda suas formações táticas. Faltam jogadores de lado ao setor ofensivo e, com a saída de Brenner, há a demanda por um novo homem de referência. Mas o argentino também pode aproveitar as categorias de base, pensando nas chances dadas a diversos garotos do Defensa mesmo na campanha da Copa Sul-Americana, além de seu próprio histórico nas categorias formativas do Parma.

Outro ponto fundamental será a maneira como Crespo lidará com as crises e pressões no São Paulo. A experiência mais delicada do argentino como treinador aconteceu mesmo no Parma, um ambiente que já conhecia, mas no qual precisou encarar a falência e a falta de estrutura. No Defensa y Justicia, havia uma segurança nos bastidores e quase nada de pressões externas. É bastante diferente do que encontrará no Morumbi, com o moral em frangalhos diante da reta final desastrosa no Brasileirão, rumores de conflitos nos vestiários e uma mudança política que deixou cicatrizes no Tricolor. O novo comandante precisará manejar isso, ainda mais com as exigências de uma torcida insatisfeita e à espera de títulos.

Por sua imagem, Crespo pode servir de escudo neste primeiro momento. Até por sua história como jogador, é um personagem simpático logo de cara. Além disso, traz consigo um discurso de fazer seus times serem protagonistas, mesmo que o desejo imediato do torcedor seja estancar a sangria e colocar ordem na casa. Enquanto esse impacto imediato dura, pela história vitoriosa que inspira, o novo comandante deverá descobrir como gerir o ambiente no futebol são-paulino e implementar suas ideias.

O trato público de Crespo é muito bom. O treinador costuma dar ótimas entrevistas e também causa simpatia pela forma como transmite o que deseja. É visto como apaixonado pelo futebol e dedicado. Meses atrás, deixaria evidente isso ao Clarín: “Minhas equipes têm a ver com minha filosofia de vida. Eu sou um tipo que não gosta de ficar quieto, de esperar sentado pra ver o que acontece. Gosto de propor, de construir. Quero ser dono do meu próprio destino. Tenho erros e acertos, mas sempre com lealdade e respeito. Isso trato de incutir em meus times. Nenhum treinador pode garantir um resultado. O futebol é uma constante tomada de decisões. Nossa identidade tem a ver com jogar no campo rival e ser protagonista, mas isso não impede que você corra riscos e precise se defender. Trata-se de respeitar o que nos levou a sermos apaixonados por futebol quando crianças, trocar passes, gerar situações de gol. É disso que se trata”.

Além do mais, outro detalhe importante na contratação de Crespo é que ele traz consigo Alejandro Kohan, considerado um dos melhores preparadores físicos do futebol argentino. “Profe Kohan”, que também é professor universitário, chegou a trabalhar com alguns dos melhores treinadores do país (como o próprio Ariel Holan) e se dedicou à orientação pessoal de jogadores de destaque. Crespo mantém uma ligação próxima com Kohan, importante na comissão técnica por sua rodagem em diversos clubes, e se apoia na capacidade do preparador para desenvolver sua dinâmica de jogo.

Pelo pacote que Crespo oferece, seria difícil imaginar que um treinador brasileiro pudesse gerar o mesmo efeito no São Paulo. Mas, por experiência ou mesmo característica de jogo, talvez alguns comandantes estrangeiros se tornassem mais aptos ao momento do clube. Certo é que os tricolores fazem uma aposta no ex-centroavante, cientes de suas virtudes, mas também precisando entender que não é o técnico com mais bagagem. Resta saber qual o tamanho da paciência, já que a filosofia de Crespo exige tempo. A inteligência para se adaptar à situação e conhecer logo de cara quais os problemas a corrigir serão fundamentais ao técnico. Vai ter que se equilibrar entre um time criticadíssimo e um entorno incendiário, ciente de que não é a grife ou o próprio passado vitorioso que o livrará das cobranças.

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Como sugestão sobre a chegada de Crespo no São Paulo, fica também o texto de Rodrigo Coutinho no UOL; o perfil escrito por Léo Lepri no Globo Esporte e o vídeo de Joza Novalis em seu canal no YouTube. Também fizemos um especial sobre o treinador após a conquista da Copa Sul-Americana aqui na Trivela, com vários elementos presentes no material acima.