Brasil

Cresci ouvindo sobre o desastre aéreo de Munique. Agora, chorei com o de Medellín

Por Raphael Harris

Cresci ouvindo falar sobre o desastre aéreo de Munique. O acidente, que ocorreu em 1958, matou 23 pessoas, incluindo jogadores do Manchester United, torcedores e jornalistas. Os vinte sobreviventes puderam testemunhar o choque em que a Inglaterra e o resto do mundo se encontravam após a tragédia.

A equipe apelidada de Busby Babes estava a caminho do seu terceiro título consecutivo da Primeira Divisão Inglesa, eram os defensores da Charity Shield e acabavam de avançar para sua segunda semi-final consecutiva na Copa dos Campeões da Europa. Tudo isso se acabou num piscar de olhos, assim como uma das mais promissoras gerações de jogadores que a Inglaterra jamais teve.

Cresci ouvindo falar sobre o desastre aéreo de Munique. Meu avô, que nem torcedor do Manchester United é, nunca conseguiu esconder as emoções ao falar sobre o assunto quase 60 anos após o acidente. Foi difícil me emocionar com a história em si, que pra mim estava distante demais para haver algum tipo de conexão – não tinha noção de como era vivenciar uma tragédia como foi a de 1958. As fotos dos destroços e os relatos dos sobreviventes me causavam algum incômodo, mas ainda não era a mesma coisa que ter vivido no contexto do acidente.

No dia 29 de novembro de 2016, porém, pude ver a tragédia acontecendo diante dos meus próprios olhos. Planejava dormir cedo, mas a notícia de que um avião transportando a equipe da Chapecoense havia sofrido um acidente me forçou a ficar acordado. As rádios e jornais locais se esforçavam para divulgar informações da forma mais rápida possível. No entanto o escuro e a chuva dificultavam o trabalho jornalístico. O corpo de bombeiros e os policiais de Medellín rapidamente chegaram na região. Divulgou-se a notícia de que haviam sido achados cinco ou seis sobreviventes, para o alívio momentâneo de todos que acompanhavam os acontecimentos dessa madrugada tenebrosa. Desde a meia-noite até seis da manhã, fiquei à procura de informações e maior esclarecimento sobre o que se passou, porém tudo estava muito confuso e obscuro.

O corpo clamava por descanso, mas o cérebro não conseguia parar de pensar nas 81 pessoas presentes naquele voo e seus incertos destinos. Entre elas, jogadores de um clube fundado apenas em 1973, que estavam a caminho de Medellín para disputarem a final da Copa Sul-Americana – seria o momento mais marcante da história da equipe de Chapecó – e seu técnico.  Não esquecendo, é claro, da ascensão notória do clube: foi da série D até a série A em apenas quatro anos, conseguindo a classificação para a Copa Sul-Americana no processo. Também estavam nesse voo funcionários de diferentes redes jornalísticas do Brasil, muitos dos quais eu acompanhava diariamente ou eram colegas de amigos meus.

Acordei horas depois e fui imediatamente ler as reportagens: a luz do dia permitiu que a polícia e os bombeiros agissem, reconhecendo e recolhendo corpos um por um. Ao todo setenta e seis.

Olhei para fora da janela e o ar frio parecia estar mais gelado do que o normal. Naquele momento nada mais tinha significado ou sentido para mim; chorei. Em meio ao meu choro, a imagem dos olhos aguados do meu avô David me veio à cabeça. Finalmente eu entendera as lágrimas que lutavam para não caírem de seus olhos quando falou comigo sobre 1958.

Cresci ouvindo sobre o desastre aéreo de Munique. Agora vou crescer lembrando do desastre aéreo de Medellín. Que descansem em paz todos.

*Inglês de 16 anos, torcedor do Tottenham, morando no Brasil. Quer virar técnico de futebol no futuro.
Twitter: @rapharris_
E-mail: [email protected]

Acompanhe nossa cobertura sobre a tragédia da Chapecoense aqui.

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