Brasil

Como o futebol (e o Corinthians) fortalecem a luta de quem espera por um órgão na fila dos transplantes

No segundo país que mais realiza transplantes no mundo, torcedores que receberam - ou ainda aguardam - por um órgão contam suas histórias

O mês de setembro é marcado por várias campanhas de conscientização na área da saúde, entre elas, a Valorização da Vida (Setembro Amarelo), o Combate ao Câncer Infantojuvenil (Setembro Dourado), e o Setembro Verde, que conscientiza sobre a Doação de Órgãos.

O Brasil é o segundo país do mundo que mais realiza transplantes, ficando atrás apenas dos Estados Unidos nessa estatística. Para se ter uma ideia, no primeiro semestre de 2023, o país registrou mais de 1,9 mil doadores de órgãos. Ao todo, foram realizados mais de 4,3 mil transplantes, estabelecendo um recorde de doações nos últimos dez anos, segundo os dados do Sistema Nacional de Transplantes (SNT).

O SNT também categoriza esses números, e houve um aumento de 30% no número de transplantes de pâncreas, 20% nos renais, 16% nos cardíacos e 9% nos transplantes de fígado. Além disso, foram realizados 7.810 procedimentos de transplantes de córneas e 1.838 procedimentos de células-tronco (medula óssea).

Dentre as pessoas que passaram pelo processo de transplante, muitas são apaixonadas por algum clube de futebol. A Trivela conta algumas dessas histórias de torcedores que tiveram uma nova chance para continuar a viver e torcer pelo Corinthians.

Mônica Isabel Morales, engenheira, 52 anos

Mônica nasceu na Argentina, mas veio para o Brasil com apenas 5 anos. Entre todas as coisas novas que conheceu no novo país, uma delas foi o futebol e, consequentemente, o Corinthians. Ela não teve dúvidas de que faria parte da torcida alvinegra, que já sabia ser uma das maiores do Brasil.

Aos 15 anos, um professor percebeu que ela apresentava dificuldades durante a realização de algumas atividades na sala de aula. Ao procurar atendimento médico, Mônica foi diagnosticada com Ceratocone, uma doença degenerativa que se caracteriza pelo afinamento ou aumento na curvatura da córnea, geralmente causada pelo hábito de esfregar os olhos.

Assim que recebeu o diagnóstico, ela já sabia que, em algum momento, precisaria de um transplante de córneas. A cirurgia só foi necessária 21 anos depois. Mônica ficou na fila de transplante por um mês e conseguiu operar um dos olhos. Após a recuperação, voltou para a fila e aguardou mais dois anos para operar o segundo olho.

As idas aos estádios sempre foram ao lado do filho Fernando, aproveitando uma oportunidade para estar mais próxima dele, que herdou a paixão da mãe. Mas ele não foi o único, já que a afilhada de Mônica também faz parte da Fiel.

Um dos jogos que ela mais se recorda é a final da Copa do Brasil de 2018, entre Corinthians e Cruzeiro. Apesar do Timão não ter ficado com o título naquele ano, a conquista do filho foi especial. Fernando deixou de estar ao lado da mãe na arquibancada e passou a ocupar um espaço no gramado como jornalista.

Outra lembrança marcante foi de uma partida contra o Flamengo, na qual Gabigol acertou um chute no rosto dela durante o aquecimento. Na ocasião, a torcedora foi retirada de maca para ser atendida no ambulatório da Neo Química Arena.

Foi a doação de órgãos que possibilitou a Mônica estar presente nesses momentos do Corinthians ao lado do filho, proporcionando uma nova chance para ela continuar com uma vida saudável. A escolha de uma pessoa e de uma família deu à torcedora do Corinthians a oportunidade de recomeçar:

– Doação é um ato de amor. Quando eu recebi a doação da minha primeira córnea, e quando tirei o tampão, no dia seguinte pós a cirurgia, mesmo sem a lente de contato, mesmo com todos os pontos, eu já enxerguei melhor. Eu não sabia que poderia se enxergar tão bem. Por isso doação é um ato de amor, quanto mais puder doar, e saber que seus órgãos estão ajudando outras pessoas, é maravilhoso – conta Mônica.

Monica na arquibancada da NeoQuímica Arena (foto: Arquivo Pessoal)

Gabriel Santos, contador, 25 anos

Gabriel é de Aracaju, Sergipe, e começou a torcer pelo Corinthians por influência do pai, que é de Campinas, no interior de São Paulo. Desde pequeno, a quilômetros de São Paulo, já vibrava com o Timão e com o futebol.

O diagnóstico de nefropatia por IgA, ou doença de Berger, uma doença renal autoimune que pode levar à insuficiência renal terminal, veio após Gabriel sofrer um acidente de moto e precisar fazer uma cirurgia no ombro. Os exames pré-operatórios mostraram alterações no funcionamento dos rins, e, ao investigar mais, os médicos confirmaram o diagnóstico e iniciaram o tratamento para tentar retardar o avanço da doença.

Gabriel começou a fazer hemodiálise e entrou na fila de transplante um ano depois. Ficou na espera por cinco meses, até ser chamado por um hospital do sistema público de saúde, em São Paulo, para receber o órgão de um doador falecido.

Gabriel relembra os jogos mais emocionantes que marcaram sua vida, como o confronto entre Corinthians e Boca Juniors na Libertadores de 2012, o Mundial de Clubes do mesmo ano e o clássico de 2017, quando o Corinthians venceu o rival Palmeiras com um jogador a menos em campo, após a confusa expulsão de Maycon e não de Gabriel.

Hoje, 1 ano e 4 meses depois, ele não esquece da ansiedade de não saber se conseguiria um novo rim.

– No início você não acredita tanto, até porque ainda existem outras pessoas para “disputar” com você e mais uma bateria de exames. Mas quando deu tudo certo, foi muito bom. Infelizmente a maioria das pessoas não sabe a importância disso – afirma o torcedor.

Patrícia Miranda Oliveira*, professora, 36 anos

Patricia nasceu em São Paulo, e desde que se lembra, as tardes de domingo eram marcadas pelo futebol, principalmente pelos jogos do Corinthians. Já era tradição na família alvinegra acompanhar os jogos juntos, tanto em casa quanto no estádio.

Ela lembra da primeira vez que entrou no Pacaembu, aos 18 anos, e o hino do Corinthians ecoava. Foi ali que soube que nunca mais se sentiria tão feliz quanto naquele lugar. O título da Libertadores foi inesquecível, já que pôde assistir à conquista ao vivo, no Pacaembu. Ela conta que chegou cedo ao estádio naquele dia, estava muito ansiosa, e no momento do segundo gol, nada mais importava.

No ano passado, a vida da professora virou de cabeça para baixo. Após passar mal no trabalho, ela foi submetida a uma série de exames, e o diagnóstico fez o mundo parar: cardiomiopatia dilatada, que aumenta o tamanho dos ventrículos do coração, impedindo o órgão de bombear sangue o suficiente para atender às necessidades do corpo.

Na fila de transplante até agora, ela espera receber o órgão o mais rápido possível para poder voltar à sua rotina e continuar apoiando e acompanhando o Corinthians em todas as partidas que puder. Cheia de esperança por uma nova chance, Patricia reforça o quanto uma decisão pode mudar a vida de alguém:

— Tenho medo sim. Medo de não conseguir, sabe? Eu entendo as famílias que optam por não autorizar a doação, entendo mesmo. Mas se elas pensarem que aquela decisão pode mudar a vida, a história e a trajetória de alguém, elas entenderão o quanto é importante e gratificante saber que seu familiar salvou outra pessoa. Eu tenho fé, ainda vou poder ver muito mais jogos do Corinthians, e sou corintiana, eu não vou parar de lutar — relata.

O principal motivo para a não doação de órgãos

No Brasil, o principal motivo que impede a doação de órgãos é a decisão familiar. Conforme os dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), 43% das famílias recusam a doação de órgãos de seus parentes. Hoje, mais de 59 mil pessoas estão na fila esperando por um órgão.

Como ser doador de órgãos

Qualquer pessoa pode ser uma doadora de órgãos. Para isso, basta ser maior de 18 anos e ter condições adequadas de saúde, que podem ser atestadas por um médico por meio de exames.

No site da Aliança Brasileira pela Doação de órgãos e Tecidos (Adote), é possível se tornar um doador em vida, fazendo um cadastro e baixando o cartão de doador.

Além disso, é importante uma conversa com a família sobre o desejo, para que os familiares de até segundo grau de parentesco autorizem a doação em caso de morte.

* Nome alterado a pedido da fonte. 

Foto de Jade Gimenez

Jade GimenezSetorista

Jornalista, fascinada por esporte desde a infância e transformou a paixão em profissão. Além do futebol, se mantem por dentro de outras modalidades desde Fórmula 1 até NFL. Trabalhou como repórter em TV e rádio cobrindo partidas de futebol, futsal e basquete.

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