Brasil

Corinthians: preconceito estúpido e marketing oportunista

A estúpida morte de Kevin, garoto boliviano de 14 anos, teve como conseqüência o afloramento do preconceito de classe contra os corintianos. Torcedores de outros times imediatamente usaram a tática de tomar a parte pelo todo. Se um corintiano soltou um sinalizador que matou um boliviano, todo corintiano é assassino. Muitos desses que apontam o dedo, aplaudiriam com as duas mãos uma invasão da Bolívia pelo Brasil, sob qualquer arremedo de justificativa.

Os torcedores que foram à Justiça buscar seus direitos de ver um jogo pelo qual haviam pago alta quantia são tratados como burladores da Lei, quando estão, apenas e tão somente buscando auxilio na Lei.

O preconceito com os corintianos vai além da questão do sinalizador. Passa pelos marginais que deram cano em um hotel. A partir daí, todo corintiano é ladrão, todo corintiano leva uma imagem ruim do Brasil para além de nossas fronteiras. Seria o mesmo que dizer que todo torcedor são-paulino é um assassino porque o rapaz que matou aquela garota Eloá, de 15 anos, vestia uma camisa do São Paulo.

Na verdade, não é um preconceito contra o corintiano. É contra o povo pobre. Sim, porque os acusadores identificam a torcida corintiana como a das classes sociais menos favorecidas. É mesmo, mas também é maioria entre os ricos. Entre os remediados. Os corintianos são maioria nos presídios mas também o são na Academia. Entre os cientistas, médicos, advogados, jornalistas, proxenetas, rufiões, em Itaquera e Jardim Europa, a maioria é corintiana. Na Parada Gay ou no conclave que escolherá o novo Papa, a maioria é Fiel.

E quem pode garantir que um banqueiro é melhor que um batedor de carteiras? Tenho mais medo dos juros do meu cartão de crédito do que de ser afanado na 25 de março. Muito dessa antipatia e preconceito contra os corintianos tem a ver, porém, com uma postura adotada por eles mesmos.

A idéia veio de Luis Paulo Rosenberg, economista que participou do fatídico governo Sarney. Ele, que é judeu – e quem foi mais perseguido do que os judeus na história da Humanidade, basta se lembrar dos genocídios da segunda guerra? – sempre teve atitudes preconceituosas contra outros clubes. Atitudes homofóbicas que nem vou repetir aqui.

Rosenberg, como diretor de marketing, cunhou também o conceito da nação corintiana, do nós contra eles, do isolamento. Aí, nascem bobagens como a República Popular Corintiana, como aquela propaganda da Nike, como a teoria dos antis. Somos nós de um lado e eles do outro. Como se nenhum corintiano houvesse um dia secado os adversários. Eu conheço um que pediu folga no jornal e, vestido com a camisa do Boca, foi ao Morumbi torcer contra o São Paulo, no meio da hinchada argentina. Direito dele, é claro. Mas não venha me falar em anti.

Ora, se você é tão diferente, pertence a outro país, tem ritos próprios, porque vai querer a simpatia dos outros agora? O marketing corintiano – e nem digo que está errado – aproveitou-se e muito do amor do corintiano por seu clube. Potencializou esse amálgama. Nunca vou te abandonar, sou um outro país, as outras torcidas não prestam etc etc etc. Usou e abusou do conceito de que clube e torcida são a mesma coisa. Uma é o braço da outra. É nóis. Tamos juntos, somos um povo sofrido, perseguido, eleito blábláblá….

Ora, isso é o que diz o direito desportivo: a torcida é patrimônio do clube, é extensão do clube. Então, como reclamar agora que o clube é punido quando um de seus torcedores comete um assassinato em praça pública?. A Conmebol é péssima. Mais do que péssima, mas nunca se viu antes de frente com uma morte em campo. E, bem ou mal está se mexendo. Vai tomar atitude contra o vandalismo ocorrido no jogo entre Peñarol e Velez.

Acho que as coisas estão bem dosadas. No aspecto criminal vai ser punido apenas o torcedor. No aspecto esportivo, pune-se o clube. Faltou, na minha opinião, punição ao San Jose. Quanto à dosimetria, não posso dizer nada. Não sei o que diz a lei da Conmebol e nem o que diz a lei da República Popular do Corinthians.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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