A Copinha de 92 é tão marcante a Vasco e São Paulo porque também se refletiu em títulos ao profissional

O duelo entre São Paulo e Vasco, na decisão da Copa São Paulo, resgata outros tempos da competição de juniores. Afinal, os gigantes reeditarão no Pacaembu a decisão de 1992, na qual os cruz-maltinos derrotaram os tricolores nos pênaltis, após empate por 1 a 1 no tempo normal. E o saudosismo não se dá apenas pelos tempos áureos da Copinha, na época concentrada em poucos participantes e pródiga em eclodir timaços inesquecíveis. As promessas vascaínas e são-paulinas daquela ocasião deixaram os seus nomes marcados. Se nem todos vingaram completamente em suas carreiras, ao menos participaram de conquistas notáveis nos profissionais logo após ascenderem na base. É o que torna aquelas gerações tão queridas às suas torcidas.
Vasco e São Paulo já tinham se enfrentado na fase de grupos da Copa SP de 1992, na época composta por quatro hexagonais. O empate por 1 a 1 prevaleceu na última rodada do Grupo 4, ratificando a passagem de ambos aos mata-matas. Os vascaínos superaram a Ponte Preta e os mineiros do Santa Tereza, comandados pelo meia Cleisson, em sua caminhada até a final. Já o São Paulo derrotou o Santa Cruz (de Rivaldo e Válber), antes de desbancar o Corinthians na semifinal. O clássico, realizado no Estádio Nicolau Alayon, terminou manchado por uma tragédia. Em meio a agressões entre as torcidas, uma bomba caseira foi atirada contra o setor corintiano nas tribunas. Uma delas atingiu Rodrigo de Gásperi, torcedor alvinegro de apenas 13 anos. Em decorrência das lesões cerebrais que sofreu, o jovem viria a falecer quatro dias depois do jogo, em 27 de janeiro.
Em 25 de janeiro, porém, ainda não se tinha dimensão da tragédia provocada pela selvageria no Nicolau Alayon. Na véspera da final, Rodrigo de Gásperi foi submetido a uma cirurgia no Hospital das Clínicas e os médicos previam “sequelas” pela maneira como sua massa encefálica ficou exposta, sem imaginar o pior. Assim, a decisão da Copa São Paulo seguiu em frente, realizada no Pacaembu. São Paulo e Vasco se enfrentaram, no que se prometia um grande jogo. O talento era evidente em ambas as equipes. Enquanto os vascaínos possuíam o melhor ataque da competição, os são-paulinos os desafiavam com a melhor defesa. Além disso, ambos os elencos contavam com jogadores que já ganhavam espaço entre os profissionais.
O São Paulo era treinado pelo ex-zagueiro Oscar Bernardi, ídolo do clube nos anos 1980. E o antigo defensor de Telê Santana na Seleção lapidava as promessas do Experessinho. Segundo o próprio Telê, a grande promessa tricolor na Copinha era o atacante Catê. Veloz e habilidoso, era a grande referência ofensiva do time, atuando ao lado de Toninho no ataque. Atrás, as apostas se concentravam no goleiro Alexandre, visto como natural sucessor de Zetti. A defesa ainda contava com a capacidade de Pavão no apoio e a presença de Sérgio Baresi no miolo de zaga, além da opção com Gilmar, já testado na equipe principal. E o meio-campo possuía o vigor de Mona, outro garoto badalado no Morumbi, que se juntava na cabeça de área a Pereira. Doriva e Jamelli eram outros nomes à disposição.
O Vasco, por sua vez, estava sob as ordens de Gaúcho. O ex-zagueiro atuou por quase uma década em São Januário, nos anos 1970, e naquele momento ascendia como treinador. Mesmo assumindo o comando dias antes do torneio, soube aproveitar muito bem a qualidade de seus meninos. O mais incensado era Valdir, já com um ralo bigode. O camisa 9 chegou à decisão com sete gols marcados, mesmo que o clube lhe devesse quatro meses de ajuda de custo. O moral era tamanho que o camisa 9 costumava ser comparado a Romário, embora preferisse ressaltar que seu estilo se assemelhasse ao de Bebeto. Valdir era municiado pelo precoce ponta Hernande e pelo refinado meia Vítor. No meio, Leandro Ávila limpava os trilhos. Já a defesa vinha recheada de futuras figurinhas carimbadas: o goleiro Caetano, o lateral Pimentel, os zagueiros Tinho e Alex Pinho. E isso porque um tal de Edmundo foi chamado para integrar o elenco principal rumo ao Brasileirão, virando desfalque de última hora à Copinha.
Quando a bola rolou no Pacaembu, os torcedores viram uma partida equilibrada. O São Paulo começou melhor, dominando o meio-campo e primando por sua velocidade ao trabalhar a bola. Criou as primeiras chances, mas viu o goleiro Caetano salvar os cariocas com boas defesas. Apesar disso, o Vasco terminou o primeiro tempo em vantagem. Aos 44 minutos, após cobrança de escanteio em direção ao segundo pau, o goleiro Alexandre não achou nada. Com a meta aberta, Valdir subiu mais alto num bolo de gente e cabeceou firme às redes. Vantagem importantíssima, diante do cenário desfavorável aos cruz-maltinos.
O Vasco, de qualquer maneira, não conseguiu segurar o São Paulo durante a etapa complementar. Pressionando bastante, os tricolores arrancaram o empate aos 22 minutos. Mona fez excelente jogada pelo meio, tabelando e criando espaços. Aproveitando a linha de impedimento mal feita pela zaga carioca, o volante deu uma enfiada na medida para Andrei, que tocou na saída de Caetano. O placar igualado ao fim dos 90 minutos forçou a prorrogação, na qual Caetano seguiu segurando os vascaínos. O cansaço, todavia, pesava e a disputa por pênaltis se tornou inescapável. Logo no primeiro chute do São Paulo, Mona mandou para fora e seu erro foi determinante. A vitória por 5 a 3 deu o título inédito aos cruzmaltinos.
O São Paulo viveu anos bastante competitivos na Copinha, aliás. Aquela foi a primeira das três finais consecutivas disputadas pelo Expressinho, que faturou o título de 1993 em cima do Corinthians e perdeu o de 1994 ante o Guarani, em disputa de pênaltis que teve Pitarelli pegando três cobranças dos paulistanos. Pavão, Sérgio Baresi, Mona, Catê e Jamelli foram alguns dos presentes na conquista do ano seguinte, em time reforçado por Rogério Ceni e pelo lateral André Luiz. Já o elenco de 1994 teve o zagueiro Nem e atacante Guilherme como novidades, além do técnico Muricy Ramalho, dando seus primeiros passos na nova carreira à beira do campo.
Alguns dos vice-campeões em 1992 vingariam no São Paulo, mesmo com a enorme concorrência no esquadrão de Telê Santana. O zagueiro Gilmar teve sua importância no bicampeonato da Libertadores, não apenas como titular nos dois jogos de 1993, mas ainda anotando um belo gol contra a Universidad Católica. Catê também manteve sua reputação com o treinador e era peça frequente nos jogos dos tricolores. Doriva ganhou sua chance no meio-campo, com destaque à participação nas finais da Supercopa da Libertadores de 1993, embora só tenha deslanchado depois, rumo à Copa de 1998. Já Pavão teve o seu momento de brilho tempos depois, sobretudo quando levou a Bola de Prata como melhor lateral direito do Brasileirão 1994, sem ir muito além disso.
O ápice daquela geração, todavia, aconteceu na Copa Conmebol de 1994. O Expressinho de Muricy Ramalho tinha a sua espinha dorsal formada pela geração de 1992, além de alguns acréscimos valiosos. Na decisão contra o Peñarol, os são-paulinos chegaram a enfiar 6 a 1 sobre o Peñarol dentro do Morumbi. Catê balançou as redes três vezes, enquanto Toninho chegou a fazer um de bicicleta. Pavão, Nelson, Mona e Pereira eram os demais remanescentes da Copinha 1992 naquela partida, ao lado de Rogério Ceni, Bordon, Ronaldo Luís, Denílson e Caio Ribeiro.
Mona, apesar de sua fama, não vingou. Rodou pelo interior do país após deixar o São Paulo em 1996. Quem se deu melhor foi o seu parceiro na cabeça de área, Pereira, que chegou a empilhar taças no Chile com a camisa do Colo-Colo. Sérgio Baresi, curiosamente, não fez tanto sucesso como zagueiro, mas deslanchou como treinador da base e levou a Copinha em 2010 – à frente da geração tricolor de Casemiro e Lucas Moura. Por fim, a lembrança mais dolorosa é a do goleiro Alexandre. Eleito o melhor da posição naquela Copa SP, era o reserva de Zetti na Libertadores de 1992. Entretanto, um acidente de carro ceifou a sua vida semanas depois, com apenas 20 anos. Sua morte abriu caminho à ascensão de Rogério Ceni, seu substituto. Ceni costuma declarar que Alexandre era superior e poderia muito bem ter se tornado o dono da meta são-paulina a partir dos anos 1990.

E se a geração do Vasco não conquistou títulos tão importantes quanto os do São Paulo, os meninos da Copinha de 1992 ao menos rechearam a sala de troféus em São Januário. A partir daquele ano, os cruz-maltinos emendaram o tricampeonato estadual, um feito inédito e por muito tempo perseguido pelo clube. Obviamente, os prodígios de Gaúcho deram o seu auxílio na empreitada, ganhando espaço e marcando presença desde a primeira das taças.
O primeiro a se firmar como titular do Vasco foi Leandro Ávila. Um dos melhores volantes do futebol brasileiro nos anos 1990, embora um tanto quanto subestimado, o gaúcho tomou a posição na cabeça de área já durante a conquista do Carioca de 1992. Ótimo marcador e dono de uma saída de bola segura, virou uma certeza aos vascaínos. Da mesma maneira, Valdir Bigode também participou bastante daquela primeira campanha no tri. O atacante por vezes jogava como meia e outras saía do banco de reservas, mas estava sempre ali, se revezando com ídolos do porte de Bismarck e Roberto Dinamite, ou então com os ascendentes Edmundo e Jardel. O canhotinho Hernande e o zagueiro Tinho foram outros bem acionados ao longo do estadual, como peças de reposição.
Um ano depois, o Carioca de 1993 promoveu a consagração de Valdir. Com a saída de outros companheiros no setor, o atacante ocupou de vez seu lugar na linha de frente e virou protagonista no estadual. Terminou como artilheiro da campanha, ao anotar 19 gols. Inclusive, balançou as redes duas vezes no primeiro jogo da decisão contra o Fluminense, tentos fundamentais para tornarem o bicampeonato possível. E, além de Leandro Ávila, outro jovem a despontar naquele momento foi Pimentel. O lateral veloz e bom no apoio ganhou a posição que antes era do experiente Luis Carlos Winck, fazendo por merecer as expectativas ao seu redor. Também seria vital diante do Flu na decisão, ao anotar o tento que descontou a derrota no segundo encontro.
Por fim, o tri em 1994 seguiu contando com a estrela de Valdir. O Bigode não seria tão letal nesta campanha, mas seus nove gols ainda o mantiveram como artilheiro da equipe. Faria dois nos 4 a 1 sobre o Fluminense na final da Taça Guanabara, que também teve um de Pimentel. O lateral e Leandro Ávila mantiveram sua importância no grupo. Já na rotação, havia as presenças esporádicas de Tinho, Hernande e agora do meia Vítor. Valdir, aliás, tinha a companhia costumeira de outro campeão da Copinha no ataque: o fenomenal Dener, que chegou à Colina por emprestado pela Portuguesa e disputaria seus últimos jogos, antes do acidente de carro que o matou naquele ano.

Vale ponderar, ainda, que o Vasco permaneceu acionando as suas revelações da Copa São Paulo. O tricampeonato carioca também aproveitou o elenco que fez bom papel no torneio de juniores em 1993, caindo no quadrangular que dava vaga às semifinais. Alguns remanescentes do título no ano anterior auxiliaram nesta caminhada, a exemplo do próprio Valdir. Todavia, o destaque maior foi Jardel, demonstrando todo o seu talento para balançar as redes e decidir com suas cabeçadas. Artilheiro da Copinha, o centroavante foi convocado ao Mundial Sub-20 daquele ano. O lateral Bruno Carvalho fez o mesmo caminho, assim como os baixinhos Yan e Gian, que anotaram os gols na final contra Gana e deram o título ao Brasil.
Em 1995, Leandro Ávila e Valdir Bigode deixaram o Vasco, seguindo a Botafogo e São Paulo, respectivamente. Pimentel ficou no clube até o primeiro semestre de 1997, assinado com o Palmeiras. Hernande logo caiu no ostracismo e passou a rodar por clubes menores, enquanto Vítor sofreu uma grave lesão no joelho que comprometeu sua carreira precocemente. Desta maneira, os heróis da Copinha de 1992 que prosperaram até a série de conquistas no final da década eram meros coadjuvantes. Tinho ainda fazia parte do elenco no Brasileirão de 1997, mas, sem espaço, logo seguiria ao Americano. Alex Pinho seria mais frequente na zaga durante aquela campanha e permaneceu como reserva imediato no título da Libertadores de 1998. Da mesma forma ergueu a taça Caetano, eterno substituto de Carlos Germano. Os dois seriam os últimos da geração de 1992 a deixarem a Colina.
Nos últimos anos, uma figura da Copinha de 1992 a ressurgir em São Januário foi o técnico Gaúcho. Homem de confiança durante a gestão de Roberto Dinamite na presidência, trabalhou na base e compôs a comissão técnica, por várias vezes apagando o incêndio como interino. Permanecia seu moral não apenas por seu passado como jogador, mas também por deixar gravada aquela conquista da Copa São Paulo. Um título que nunca mais os cruz-maltinos repetiriam, no máximo chegando ao vice em 1999 – com o time de Hélton, Maricá e Géder superado por um estreladíssimo Corinthians. Nesta sexta, 27 anos depois, há a chance de encerrar o jejum e evocar este passado de tão boas lembranças aos torcedores vascaínos. Encararão um São Paulo que, na Copinha, tenta se aproximar à relevância do timaço do início dos anos 1990.



