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Copa das Confederações é um teste que vale pouco para Copa

Neste sábado, dia 14 de junho, começa a Copa das Confederações. Brasil e Japão se enfrentam no estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília, no primeiro jogo oficial de uma competição da Fifa no Brasil nesse ciclo que culminará na Copa do Mundo de 2014. O evento é considerado preparatório para o Mundial e tem como objetivo usar as estruturas construídas em um evento de porte internacional. No Brasil, o evento começa com os estádios com obras quase até a hora dos jogos, o programa de mobilidade urbana com construções incompletas, promessas não cumpridas pelo governo e uma expectativa de turistas e imprensa muito longe do que será o Mundial. Então, dá para considerar esse um evento teste?

ESTÁDIOS E MOBILIDADE URBANA

Todos os estádios que serão usados na Copa das Confederações foram entregues com atraso, invariavelmente. Alguns mascararam isso com inaugurações quando ainda não estavam prontos, tanto que não receberam jogos. Apenas para protocolar, burocraticamente, que a obra estava entregue. Mais do que isso: as obras ao redor dos estádios não estavam concluídas. Os atrasos foram minimizados pelo governo federal. O ministro do esporte, Aldo Rabelo, disse que o Brasil já está preparado para receber o evento.

“Houve, como se sabe, atraso na entrega de alguns dos estádios, mas mesmo com esse atraso todos receberam eventos e jogos que testaram as condições de funcionamento, de conforto, de segurança, de acesso, e eu acho que eles estão prontos para acolher todas as partidas”, disse Rebelo a veículos de imprensa em coletiva no Rio de Janeiro. Só seis dos 12 estádios da Copa do Mundo serão usados na Copa das Confederações. São eles: o Maracanã (Rio de Janeiro), Fonte Nova (Salvador), Mané Garrincha (Brasília), Mineirão (Belo Horizonte), Castelão (Fortaleza) e Arena Pernambuco (São Lourenço da Mata, grande Recife). O Maracanã, principal estádio do país para a Copa do Mundo, tem obras ao seu redor a dias do início da Copa das Confederações. Para o ministro do esporte, não há preocupação quanto a isso.

“Se há ainda obras no Maracanã, no entorno principalmente, é preciso deixar claro que nem todo o entorno do estádio tinha suas obras previstas para a Copa das Confederações, o estádio é também para a Copa de 2014. Então é natural que ainda haja, não apenas no Maracanã, mas em todos os outros estádios, pessoas trabalhando no acabamento e finalização. Então eu acho que não é uma posição justa nem correta achar que o estádio tem apenas uma maquiagem. Tem muito trabalho e foi feito um grande esforço para entregá-lo para a Copa das Confederações”, declarou o ministro.

Algumas obras de fato estavam previstas para serem terminadas só depois da Copa das Confederações. Mas esse não era o caso do Maracanã que, é bom lembrar, está fechado desde 2010 e foi quase inteiramente reconstruído desde então. Mostra também que a preparação para a Copa do Mundo fica prejudicada. Afinal, se a ideia é testar os equipamentos e a capacidade das cidades, como fazer isso se as obras não estão prontas?

O presidente da Fifa, Joseph Blatter, minimizou as obras de última hora. O dirigente diz que isso é normal em Copas do Mundo. O dirigente lembrou que é normal alguns serviços ficarem prontos em cima da hora. “Eu já fui em jogos de abertura em que uma hora antes ainda tinha pintores fazendo os retoques no estádio. Não é de se surpreender que eles ainda estejam trabalhando. Em várias Copas do Mundo em que eu estive envolvido, desde 1978, já vi problemas como esse, mas, na hora de começar o jogo, deu certo”, contou.

É normal que ajustes estejam sendo feitos até o último momento, seja no Brasil ou na Alemanha, África do Sul ou Rússia. A grande questão é o número de obras que estão prontas, especialmente aquelas que são mais importantes, as de mobilidade urbana. Em 2009, esse foi um problema na África do Sul. Se repete no Brasil em 2013 em todas as seis sedes da Copa das Confederações.

Rio de Janeiro
Estádio do Maracanã com obras no entorno no fim de maio (Foto: divulgação)
Estádio do Maracanã com obras no entorno no fim de maio (Foto: divulgação)

Estádio Maracanã
Custo: R$ 808,4 milhões

O principal estádio da Copa do Mundo será também o principal da Copa das Confederações. Receberá a final dos dois torneios, mas na Copa as Confederações estará pronto apenas nos últimos momentos antes da bola rolar. O estádio foi inaugurado no dia 27 de abril, mas só teve um jogo festivo com dois grupos de amigos. Jogo de verdade o estádio recebeu no dia 2 de junho, quando a Seleção Brasileira enfrentou a Inglaterra em amistoso.

As obras no entorno do Maracanã seguem ativas e devem continuar inclusive durante a Copa das Confederações. O BRT Transcarioca, um corredor de ônibus articulado, tem previsão de conclusão só para dezembro de 2013. A ligação com a Quinta da Boa Vista será concluída em janeiro de 2014. Uma das principais obras no entorno do Maracanã, a Estação Multimodal Maracanã, não entra na Copa das Confederações. Só ficará pronto em maio de 2014, pouco antes do início da Copa do Mundo, em 12 de junho. O G1 mostra que diversas obras de mobilidade urbana na cidade do Rio de Janeiro foram adiadas e excluídas da Copa das Confederações,tornando o evento teste menos teste e mais evento.

Fortaleza
Estádio Castelão, em Fortaleza (Foto: divulgação)
Estádio Castelão, em Fortaleza (Foto: divulgação)

Estádio Castelão
Custo: R$ 623 milhões

O primeiro dos 12 estádios do Mundial inaugurados. A inauguração foi no dia 16 de dezembro, com a presença da presidente Dilma Roussef e todo o elenco da CBF. Jogo mesmo, só dia 23 de janeiro, um mês e seis dias depois. O relato sobre como foi essa inauguração, feitas às pressas, você pode conferir no ótimo blog do Fernando Graziani, na Tribuna do Ceará.

As obras no entorno só será entregue no dia 15 de junho, quatro dias antes do primeiro jogo no estádio. A Secretaria Municipal Extraordinária da Copa (Secopafor) informou que as duas obras prometidas para a Copa das Confederações estão em 80%. Outras três obras de mobilidade só ficarão prontas para a Copa do Mundo. O VLT só ficará pronto para a Copa do Mundo – ainda está em 25%.

Recife
Arena Pernambuco, o último estádio a ser entregue para a Copa das Confederações (Foto: divulgação)
Arena Pernambuco, o último estádio a ser entregue para a Copa das Confederações (Foto: divulgação)

Arena de Pernambuco
Custo: R$ 623 milhões

Um dos estádios que mais teve que acelerar as obras para estar pronto a tempo para a Copa das Confederações, a Arena Pernambuco é um caso crítico porque precisa das obras de mobilidade urbana para funcionar. Isso porque o estádio não fica em Recife propriamente dita, mas sim em São Lourenço da Mata, município que fica na Grande Recife, a 19 quilômetros da capital pernambucana. E o acesso ao local, antes pouco habitado, agora com um estádio com padrão de Copa do Mundo, é difícil.

Inaugurado no dia 14 de abril, o estádio teve seu primeiro jogo no dia 22 de maio. A experiência de ir ao estádio em um local afastado e ainda com um transporte incompleto causou transtornos. O G1 fez um relato detalhado de como foi chegar até o novo estádio no evento teste e as imensas dificuldades enfrentadas pelos torcedores. Alguns disseram que não pretendem mais voltar. Isso porque a estrutura não estava pronta. Para a Copa das Confederações, a situação deve ser um pouco melhor, mas é certo que não estará com plenas condições.

As obras de mobilidade urbana ainda não estão completamente prontas. A duplicação da BR-408 foi concluída. A rodovia será a única via de acesso, já que táxis e carros não credenciados não poderão passar pela barreira montada. Porém, boa parte das obras restantes só será entregue na Copa do Mundo. Das obras viárias relativas ao acesso à Arena Pernambuco, 46,28% estão concluídas. Os corredores Norte-Sul e Leste-Oeste em Recife, por exemplo, estão 44% concluídos e só serão terminadas em dezembro.

Belo Horizonte
Mineirão foi o segundo estádio da Copa inaugurado. Sem jogo, claro (Foto: divulgação)
Mineirão foi o segundo estádio da Copa inaugurado. Sem jogo, claro (Foto: divulgação)

Estádio Mineirão
Custo: R$ 695 milhões

O Mineirão foi o segundo estádio da Copa do Mundo a ser inaugurado. No dia 21 de dezembro, também sem jogo, o estádio foi aberto oficialmente. Nota o padrão? Inauguração de um ESTÁDIO DE FUTEBOL se tornou um evento PURAMENTE político, sem sequer ter um jogo. É parte do que todo evento que é muito político, além de esportivo. Bola rolando mesmo, só no dia 3 de fevereiro de 2013. Mais de um mês depois, assim como em Fortaleza.

Belo Horizonte terá apenas algumas de suas obras de mobilidade urbana entregue. O Boulevard Arrudas/Tereza Cristina será inaugurado a tempo, mas o corredor Pedro II só ficará pronto em outubro. As obras, feitas pela prefeitura, devem ser concluídas em novembro, depois da competição. Ainda assim, a capital mineira é uma das que tem suas obras mais avançadas.

Brasília
Estádio Mané Garrincha, o mais caro da Copa (Foto: divulgação)
Estádio Mané Garrincha, o mais caro da Copa (Foto: divulgação)

Estádio Nacional Mané Garrincha
Custo: R$ 1,015 bilhão

O estádio mais caro da Copa. Mas faz todo sentido, afinal, Brasília é a capital do Brasil e uma cidade que pulsa futebol. Basta ver a grande quantidade de times nas Séries A, B, C e D (são dois clubes, Brasília na Série D e Brasiliense na Série C) do Campeonato Brasileiro. Claramente, é um lugar onde faltava um estádio, já que as médias de público são as maiores do Brasil (1.191 pessoas por jogo). Portanto, ter um estádio com 71 mil lugares parece completamente adequado. A massa de pessoas que lotava os estádios no Campeonato Brasiliense agora tem um local apropriado.

Em Brasília, não haverá atrasos. O Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT) não ficará pronto para a Copa das Confederações, nem para a Copa do Mundo. Foi removida da lista de obras por problemas na licitação. Assim, tecnicamente, não haverá atraso. O aeroporto da cidade receberá obras provisórias de ampliação especialmente para a Copa das Confederações. As obras definitivas serão concluídas em dezembro de 2013. Depois da Copa, o estádio será usado para shows e eventos. Nada comparado aos públicos memoráveis de Brasília na Série D e Brasiliense na Série C, é claro.

Salvador
Estádio da Fonte Nova, em Salvador: completamente remodelado
Estádio da Fonte Nova, em Salvador: completamente remodelado

Estádio Fonte Nova
Custo: R$ 591,7 milhões

O estádio da Fonte Nova foi completamente reconstruído. Uma parte do formato foi mantido, a abertura para o Dique de Tororó também, mas o estádio é completamente novo. A inauguração aconteceu em 7 de abril , quando Bahia e Vitória se enfrentaram – em um episódio que ficou marcado pelos torcedores atirando as Caxirolas em campo. Uma grande contribuição dos torcedores, diga-se, já que o objeto foi banido. Mas o estádio teve problemas. No dia 27 de maio, parte da cobertura desabou. Não deixou feridos, porque aconteceu em um dia que não havia jogo, mas a preocupação ficou. Lembrou o episódio de Frankfurt, na Copa das Confederações de 2005, quando a cobertura se rompeu por causa de chuvas em plena final da competição. Esperamos que essa cena não se repita.

As obras do entorno ficaram prontas em abril, mas não no dia do jogo. Tanto que uma preocupação para o jogo de abertura do estádio era que paus e pedras, resquícios da construção ainda em andamento, pudessem ser usados por torcedores para brigas. As obras foram terminadas e ao menos o entorno está livre do entulho. Não dá para dizer o mesmo do aeroporto Deputado Luís Eduardo Magalhães. As obras só serão concluídas em dezembro de 2013, bem depois da Copa das Confederações.

As obras de mobilidade urbana em Salvador foram poucas. Praticamente, só a do entorno do estádio e, por isso, foram entregues a tempo. Não houve nenhuma grande obra em relação a transporte, apenas para facilitar o acesso ao estádio no seu entorno. E a pé.

TURISTAS

O governo anunciou que a expectativa é receber cerca de 3,6 milhões de turistas no Brasil na Copa das Confederações e Copa do Mundo, somadas, segundo o Ministério do Turismo. Destes, 600 mil estrangeiros, sendo 37% deles da América Latina, especialmente México e Argentina. Segundo Mário Moyses, secretário Executivo do Ministério do Turismo, a expectativa é superar o número de turistas na África do Sul. “Nos dias de realização da Copa, a África do Sul recebeu cerca de 3 milhões de turistas, que gastaram aproximadamente US$ 1,3 bilhão. Além disso, mais de 70% visitaram três cidades ou mais. Para ele, o maior legado físico da Copa foi a melhoria nas estradas, aeroportos e estádios”, disse Moyses.

O investimento governamental em estrutura foi de R$ 26 bilhões, com previsão de impacto de R$ 1941,7 bilhões no PIB. Além disso, a previsão é de arrecadação de impostos adicional na casa de R$ 17,9 bilhões. O governo prevê a criação de 330 mil empregos fixos e 380 temporários.

O estado de Pernambuco espera receber 400 mil turistas, sendo 20% estrangeiros, segundo dados do Comitê Organizador Local. Cerca de 46% disseram que não se prepararam para a Copa das Confederações. A razão mais citada para não ter um preparativo especial para o evento teste da Fifa é simples: falta de retorno para possíveis investimentos (27% das respostas).

No Ceará, o governo espera 123,8 mil turistas e quer dobrar o número de estrangeiros na cidade de Fortaleza para os eventos. A previsão é otimista. “Dos turistas que o Ceará recebe atualmente, de 8% a 10% correspondem a estrangeiros. Vamos sair da normalidade de qualquer mês de junho, pois vamos sediar um evento internacional. Com isso, certamente esse número vai crescer”, disse Bismarck Maia, secretário de Turismo do Ceará.

Nem mesmo as obras relativas a turismo estão prontas no Rio de Janeiro. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio de Janeiro, a capacidade hoteleira da cidade é de 33 mil quartos. Destes, 20,5 mil em hotéis convencionais, os demais em modelos alternativos de hospedagem, tais como albergues, pousadas e cama e café. Dois dos novos hotéis estão prontos, mas a reforma do Hotel Glória, comandada pela empresa de Eike Batista, só ficará pronta em janeiro de 2014. Para a Copa das Confederações, a estimativa é que 70% das vagas em hotéis sejam preenchidas. O problema é que dos 18 hotéis recomendados no site do torneio, 10 estavam com lotação esgotada.

Teste, mas nem tanto assim

Há mais obras por fazer do que prontas em relação à Copa do Mundo. Assim, a Copa das Confederações mal poderá ser chamada de ensaio, já que boa parte da estrutura ainda estará longe do ideal. Não é uma situação inédita, ao contrário: em 2005, na Alemanha, e em 2009, na África do Sul, os eventos foram realizados com obras incompletas – ainda que em níveis diferentes.

Talvez o maior teste que o Brasil faça na Copa das Confederações seja mesmo em campo, com a Seleção Brasileira reformulada por Felipão. Assim como as obras de mobilidade urbana, o time não está pronto. Só que diferente da infraestrutura, o time será obrigado a participar da Copa das Confederações.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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