Brasil

Conmebol demagoga favorece os ricos torcedores de sofá

A Conmebol, segundo informa o ótimo Marcel Rizzo, tomou três atitudes – a pedido ou sob pressão – de clubes brasileiros e argentinos para a edição 2013. Gostei de uma delas e considerei as outras bem demagogas.

Já estava na hora de os cartões amareles deixarem de render apenas dólares para a Connmebol e não punições para os faltosos. Agora, como em todos os campeonatos, uma série de três amarelos significa punição por um jogo. É bom. Pode diminuir a violência em campo.

Passou a ser proibido também jogar em estádios com capacidade menor de 20 mil lugares. Ora, quando a Conmebol inflou a Libertadores até chegar aos 38 clubes atuais sabia estar dando oportunidade a clubes pequenos de países com nível técnico menor. Ou até de países tradicionais, como o São Caetano, Santo André e Paulista de Jundiaí.

Deixar aberta a possibilidade de participação e fechar a porta do estádio é uma grande incoerência. Um time pequeno que se fortaleceu, que pressionou os grandes e conseguiu uma vaga – conqusitada muito mais na raça e no heroísmo do que no bom futebol – vê a maior conquista de sua vida diminuída. Quem vibrou, quem sofreu, economizou alguns trocados agora não pode ver o jogo.

A pior e mais elitista de todas as decisões foi impedir que haja jogos em cidades que distam mais de 100 quilômetros de um aeroporto. Ora, que culpa tem os habitantes de Loja no Equador se sua cidade está a 270 quilômetos do aeroporto de Cuenca? O São Paulo sofreu para ir até lá, andou horas e horas de ônibus, foi prejudicado pelo cansaço? Tudo isso é verdade, mas também é verdade que a LDU de Loja conseguiu sua vaga limpamente na sul-americana e seria prejudicada se a lei já vigorasse.

A Conmebol deu um passo em direção ao torcedor de sofá. Ao consumidor final da Bridgestone, sua nova patrocinadora. Os grandes são favorecidos, como se fossem convidados de uma festa e não participantes, como todos os outros, de um campeonato.

Se quer tanta segurança, se deseja ficar parecida com a Uefa e sua Champions League, a Conmebol precisa ter coragem de aceitar o pedido do Bolivar de não jogar no Morumbi, em virtude da invasão no jogo contra o Tigre. Eu acho que o Morumbi é seguro, mas que houve invasão de campo, houve. Então, que se cumpra a lei. Ou ela é apenas para pequenos?

Pelo menos a Conmebol nem pensou na possibilidade de vetar jogos na altitude. Isso seria dizer, na prática, que futebol não é esporte universal. Deve ser praticado apenas em algumas – a maioria – das cidades do mundo. E, ao perder esse aspecto democrático, o futebol perderia muito de sua essência.

PS: Eu sei, não precisam me dizer que jogar na altitude faz mal ao organismo de quem não está acostumado. Favorce os bolivianos, mas o mais importante é verificar se os times de altitude conseguiram sua vaga limpamente. Se for verdade, têm o direito de jogar em seu campo. Quem reclama da falta de adaptação, que brigue contra a CBF para conseguir um calendário mais racional que permita uma preparação adequada. Proibir jogos na altitude, em estádios pequenos e em cidades menores, sem aeroporto, é demagogia.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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