Brasil

Compliance no futebol: silencioso, mas essencial, ele pode fazer seu time lucrar

Nessa reportagem especial, a Trivela te explica o que é compliance e seu papel nos bastidores dos clubes brasileiros

Um ponto-chave para o desenvolvimento do futebol brasileiro é buscar a profissionalização de todas as áreas, o que possibilita o crescimento a longo prazo. Associação ou SAF, os clubes do país estão atentos ao fenômeno do compliance.

Também chamado de programa de integridade, o sistema de compliance é um código de ética e condutas dentro de uma empresa (ou clube de futebol) que busca identificar fragilidades internas para então resolvê-las.

Enquanto um departamento jurídico é responsável por evitar qualquer tipo de ilegalidade, o sistema de compliance vai além, abordando também questões éticas e morais dentro de um time.

Por exemplo, conflitos de interesse e nepotismo dentro de um clube de futebol não são ilegais, porém, mancham a imagem da instituição perante o mercado, o que pode deixar possíveis investidores preocupados.

Mais do que isso, o compliance também tem o potencial de fazer seu time ganhar dinheiro. Para explicar tudo sobre o programa de integridade, a Trivela entrevistou Gustavo Nadalin, advogado especializado em direito desportivo.

Por 11 anos, Nadalin foi diretor jurídico do Coritiba, onde, em 2015, criou o primeiro projeto de compliance do futebol brasileiro. Tal iniciativa serviu de inspiração para os demais clubes do país a adotarem um programa de integridade.

A importância do compliance para o futebol brasileiro

No Brasil, o futebol movimenta milhões de pessoas e, obviamente, as cifras bilionárias seguem essa maré. Portanto, um dos grandes desafios de cada gestão é responder uma simples pergunta:

Como fazer meu time arrecadar mais?

O compliance pode ser um importante aliado nessa missão. Um sistema de integridade tem a capacidade de realizar diversas evoluções dentro de um time, como otimizar processos internos e melhorar o ambiente de trabalho.

Com um código de ética e condutas bem definido para seus funcionários, o programa de integridade também está encarregado de prevenir riscos legais e financeiros, assim como combater a corrupção interna.

Quando um clube vai fechar com um novo patrocinador, o departamento de compliance está incumbido de investigar o histórico do pretendente e as pessoas envolvidas no negócio. Tudo isso traz segurança jurídica.

Quem quer investir em um clube de futebol só vai fazer se tiver segurança jurídica. E só vai ter segurança jurídica se existir uma cultura de processos e procedimentos internos, que dão resguardo — Gustavo Nadalin, advogado especializado em direito desportivo.

Ou seja, a seriedade de um sistema de compliance melhora a reputação de um time, atraindo novos parceiros interessados.

Gustavo Nadalin, sócio da Hapner Kroetz Advogados, especializado em direito desportivo. Foto: Arquivo pessoal

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Evitar polêmicas antes que elas se tornem assuntos públicos

Outra atribuição de um departamento de compliance é evitar polêmicas antes que elas se tornem assuntos públicos. O caso Corinthians-VaideBet é um exemplo palpável.

Em janeiro deste ano, o Timão anunciou a casa de apostas como sua patrocinadora máster com um valor recorde no futebol brasileiro: R$ 370 milhões em três anos de contrato. Contudo, em junho, a VaideBet rescindiu com o Corinthians.

O presidente do Corinthians, Augusto Melo, com o boné da então patrocinadora master da equipe paulista. Foto: Icon Sport.
O presidente do Corinthians, Augusto Melo, com o boné da então patrocinadora–master da equipe paulista. Foto: Icon Sport.

Para isso, a empresa acionou a cláusula anticorrupção. Essa decisão foi tomada após o início das investigações da Polícia Civil sobre possível repasse de parte do valor de comissão do acordo a uma empresa supostamente “laranja”.

Vale destacar que o contrato da VaideBet não passou pelo sistema de compliance do Timão. A informação foi divulgada pela Gazeta Esportiva dias depois do anúncio da parceria entre o Corinthians e a casa de apostas.

O Programa de Integridade foi implantado pela Gelson Ferrareze Sociedade de Advogados no segundo semestre de 2021, durante a presidência de Duílio Monteiro Alves.

No início de 2024, a Gazeta Esportiva entrou em contato com a assessoria de imprensa da atual gestão do Timão – liderada por Augusto Melo – para esclarecer o motivo do contrato da VaideBet não ter passado pelo crivo do compliance.

Como resposta, o Corinthians disse que “o contrato passou pelo processo de compliance realizado pelo próprio departamento jurídico”.

Isso significa que a avaliação do contrato com a casa de apostas foi feita pelos novos membros do departamento jurídico, sem a utilização do Programa de Integridade de Ferrareze.

Depois de quase dois meses sem um patrocínio-master, o Corinthians anunciou a Esportes da Sorte como a nova ocupante principal de sua camisa – desta vez, aprovada pelo compliance.

O advogado Gustavo Nadalin explica que a falta de autonomia do sistema de compliance em um clube de futebol é prejudicial, criando riscos que poderiam ter sido evitados anteriormente. Para ele, sem autonomia, é melhor não ter um programa de compliance – mas o procedimento de due diligence pode ser uma salvaguarda.

O que é due diligence?

Aqui cabe explicar o que é due diligence. Nadalin explica que é um processo para identificar os parceiros financeiros, o modelo de negócio escolhido e a possibilidade de comissionamento:

Não tem problema nenhum ter comissionamento, mas dentro do procedimento interno e deixando muito às claras. Na hora que o conselho fiscal exigir algo, está tudo documentado. Tem que dar rastreabilidade nas negociações — esclarece Gustavo Nadalin.

Quais times do Brasil têm compliance e como ele é usado?

A Trivela procurou os 12 clubes considerados mais tradicionais do futebol brasileiro. Cruzeiro, Fluminense, Palmeiras e Vasco são alguns exemplos de times que confirmaram a existência de um sistema de compliance.

O São Paulo tem um programa de compliance que avalia patrocinadores, analisa procedimentos internos para produzir relatórios para o mercado, ministra cursos e cria procedimentos para seus funcionários.

Já o Flamengo está implementando um programa de integridade, como noticiado pelo GE em maio. Uma fonte ouvida pela Trivela acredita que o sistema de compliance esteja operante até agosto.

O Botafogo tem uma área análoga dentro do departamento jurídico, assim como o Santos. O Internacional não respondeu o contato da Trivela antes da publicação dessa reportagem. Caso o faça, atualizaremos a matéria.

O Grêmio tem um sistema de compliance envolvendo várias áreas, como processos internos, governança corporativa, prevenção de conflitos de interesse, ética, transparência e gestão de riscos:

A curto prazo, o sistema de compliance auxilia na identificação, prevenção e mitigação de eventuais riscos que possam prejudicar processos em nossos diferentes setores. A médio prazo, contribui para a construção de uma reputação sólida e confiável junto aos stakeholders. E a longo prazo, fortalece a sustentabilidade e a perenidade do Clube — assessoria do Grêmio.

A Trivela também conversou com Fernando Monfardini, responsável pela área de compliance do Atlético-MG. Ele revelou que o programa ético abrange todas as áreas do Galo, incluindo políticas direcionadas a patrocínio, contratação de fornecedores, procedimentos internos, processos e controles.

Monfardini destaca que a ideia do programa de integridade é proteger, organizar e tornar o Atlético-MG cada vez mais eficiente, além de melhorar sua imagem e criar novas oportunidades:

Objetivo a médio prazo é ter 100% do clube com todos os processos desenhados, além de uma auditoria interna. Houve diversos benefícios: aumento do valor da marca, negociações, melhoria em contratos, ganho de eficiência, redução de custos, prevenção de riscos, antecipação de eventuais danos, melhoria do clima organizacional e de gestão de pessoas — explicou Fernando Monfardini, responsável pela área de compliance do Galo.

O Galo e sua nova casa, a Arena MRV. Foto: Icon Sport
O Galo e sua nova casa, a Arena MRV. Foto: Icon Sport

O compliance pode fazer parte da cultura do futebol brasileiro?

A implementação das áreas de compliance e sua cultura são de extrema importância nos times de futebol brasileiros em seu caminho da eficiência profissional, fortalecimento das marcas e eficiência de marketing.

Mas tudo poderia ter uma implementação mais fácil se simplesmente a ética fizesse parte da cultura no geral. Essa máxima é compartilhada por Gustavo Nadalin:

Como a gente vai falar de ética e integridade em um universo onde o gol de mão, aos 48 do segundo tempo, impedido, é comemorado pela torcida? O compliance não é só um programa de procedimentos, educação e punição. Na verdade, é educação, educação e educação para mudar a cultura que existe dentro do lugar. Compliance é mais do que gestão e governança, é uma ciência comportamental, porque vamos trabalhar com cultura e reeducação das pessoas para pensar de uma forma diferente — finaliza Gustavo Nadalin.

Foto de Matheus Cristianini

Matheus CristianiniRedator

Jornalista formado pela Unesp, com passagens por Antenados no Futebol, Bolavip Brasil, Minha Torcida e Esportelândia. Na Trivela, é redator de futebol nacional e internacional.

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