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Como o Corinthians se perdeu ao mudar de esquema

Uma equipe bagunçada, com jogadores que não pareciam saber o que fazer com a bola. Articular uma jogada até uma finalização em boas condições era uma utopia. Quem prestou atenção no time de azul no Ponte Preta 2×0 Corinthians nem poderia imaginar que era o atual campeão mundial que estava em campo. A equipe se deteriorou, principalmente nas últimas partidas, e joga um futebol tão sonolento quanto improdutivo. São quatro derrotas em cinco jogos, e a zona de classificação para a Libertadores vai se afastando.

A campanha alvinegra no Brasileirão não é das mais empolgantes, mas a impressão mais recente é tão ruim que talvez leve o observador e generalizar e cravar um “já não vinha jogando nada há muito tempo”. Certamente não jogava como em 2012, talvez não desse para dizer que jogava um bom futebol. Mas o time chegou a ficar entre os quatro primeiros.

A queda de rendimento está diretamente ligada à dificuldade em lidar com uma série de problemas no elenco. Paulinho foi para o Tottenham, deixando o meio-campo sem seu motor. Guilherme até entrou bem no seu lugar, mas se contundiu. Renato Augusto também sofre com problemas físicos. Emerson, Romarinho, Danilo e Guerrero passam por fase técnica ruim. Os laterais não têm o mesmo fôlego de antes. Chicão saiu por não se acertar com a diretoria para uma renovação e Jorge Henrique teve problemas disciplinares. Alexandre Pato teve problemas de lesão no começo do ano e de oscilação técnica nos últimos tempos.

De fato, não é fácil absorver tantos obstáculos, muitos deles simultâneos. Mas o Corinthians tem mostrado, nos últimos tempos, uma dificuldade grande em mudar. Tite chegou ao clube no final de 2010 e encontrou um time bagunçado, com alguns problemas internos e saindo da briga pelo título. Sua atitude foi tão simples quanto correta: desfez as mudanças constantes de Adilson Batista e voltou a um esquema mais parecido com o de Mano Menezes. Os jogadores voltaram a um sistema que funcionava e, desse modo, a equipe não perdeu mais e ficou na terceira posição.

No começo de 2011, o time voltou a ter problemas. O técnico foi agressivo para aparar os problemas. Roberto Carlos e Bruno Cesar perderam lugar na equipe e Ronaldo encerrou a carreira. O resto do grupo se uniu, Tite pôde implementar o esquema que pretendia. Os recém-chegados se adaptavam a ele e a sequência de título nacional, continental e mundial veio.

A temporada 2013

O cenário mudou. O sistema de jogo deu sinais de desgaste, tanto por questões físicas como até por dificuldade de manter o foco após dois anos tão vitoriosos. A intensidade e a pressão sobre o adversário não se mantinha por tanto tempo. Algumas alterações seriam necessárias, mas o método de trabalho estabelecido lá no começo de 2011 precisaria se romper. A meritocracia foi fundamental para unir o grupo, mas ela já empacava a equipe. Não apenas pela necessidade de insistir em algum jogador até ele se consolidar como também pelos traumas das saídas de Jorge Henrique e Chicão (este último, um dos líderes do elenco).

As mudanças só foram implementadas nas últimas partidas. Tite tentou deixar a equipe mais leve, com menos marcação na frente, menos posse de bola e saídas mais rápidas. Era uma opção interessante para dar um respiro a um elenco fisicamente cansado e encaixar melhor Douglas, em boa fase, e Pato, enfim longe de contusão. O problema é que isso coincidiu justamente em um momento em que o elenco ficou mais curto pelo excesso de desfalques e má fase de vários jogadores.

O resultado é ruim. A defesa não tem mais a ajuda do ataque e a dupla de volantes ainda perdeu Guilherme. Ibson não é um grande marcador, o que deixa Ralf e a dupla de zaga sobrecarregada. Com o time adversário jogando sem tanto combate, a posse de bola corintiana se tornou menor, o time passou a jogar mais atrás fica cada vez mais difícil conduzir as jogadas até os atacantes.

O marco da mudança foi o jogo contra o Coritiba. Foi o último em que Renato Augusto esteve em campo e em que o time tentou jogar com intensidade e pressão os 90 minutos. Contra o Vasco, o Corinthians começou nesse esquema, mas passou a jogar mais espalhado durante a partida, o estilo que tem prevalecido desde então. Os 4 a 0 sobre o Flamengo, com grandes atuações de Douglas e Pato pareciam reforçar o acerto, mas talvez tenham sido apenas uma ocorrência fora da curva.

Levantei algumas estatísticas no Who Scored (site que usa dados do Opta) e dá para perceber algumas coisas interessantes:

Gráfico_Corinthians 2013a

Nas 15 primeiras rodadas, o Corinthians finalizou menos que o adversário apenas quatro vezes (Cruzeiro, Atlético Paranaense, Santos e Coritiba). A marca já foi igualada nas sete partidas desde então (Vasco, Flamengo, Botafogo e Ponte Preta).

Gráfico_Corinthians 2013b

A posse de bola também caiu. Até o jogo contra o Coritiba, o Alvinegro teve menos de 50% da bola apenas cinco vezes (Cruzeiro, Bahia, Grêmio, Criciúma e Santos, sendo que, contra Grêmio e Criciúma, foi 49%, quase um empate técnico). Desde então, já foram quatro partidas (Vasco, Flamengo, Internacional e Botafogo) em que o adversário que teve mais a bola nos pés.

Gráfico_Corinthians 2013c

A intensidade da marcação também diminuiu. Para isso, levantei dois números: desarmes totais da equipe e participação defensiva dos atacantes (criei essa estatística somando desarmes e faltas cometidas pelos quatro jogadores mais ofensivos da equipe). Nas primeiras 15 rodadas, o Corinthians teve menos de 20 desarmes em apenas três, mesma marca das últimas sete. E, nos últimos quatro jogos (1 empate, 3 derrotas, 1 gol marcado), os jogadores ofensivos tiveram 15 ou menos participações defensivas, sequência semelhante às cinco do início do campeonato (1 vitória, 3 empates, 1 derrota, 3 gols marcados).

O que pode ser feito

O Corinthians das primeiras 15 rodadas do Brasileirão estava na disputa por um lugar na Libertadores, mas precisava de ajustes porque tomava como parâmetro a briga pelo título. A liderança não é mais o alvo, e fica evidente que o sistema anterior era mais eficiente para manter um nível mínimo de competitividade. Talvez Tite precise, emergencialmente, fazer o que ele fez assim que chegou ao Parque São Jorge: voltar ao básico, recuperar o esquema de jogo a que o elenco está acostumado.

A partir do resultado disso, o clube e a comissão técnica precisam pensar em como estabelecer uma nova dinâmica para 2014. Se há descontentamento no elenco com privilégios a Pato ou com a saída de Chicão, é preciso sanar esse foco. Se é preciso criar condições para mais garotos das categorias de base ganhem oportunidade, o clube precisa abrir esse espaço sem que isso cause problemas internos.

O sistema de trabalho entre comissão técnica e elenco estabelecido em 2011/12 funcionou, mas o time de 2013 se viu refém dele em muitos momentos. E, se o Corinthians não perceber isso, pode ter todo o dinheiro da Globo, dos patrocinadores e do novo estádio que não conseguirá se impor em campo como se imagina para um clube que tem o maior orçamento do Brasil.

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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