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Como o Canal 100 e os jornais da época relataram a visita de Elizabeth II ao Maracanã em 1968

Reunimos recortes de jornais que detalham a visita de Elizabeth II ao Maracanã e o emblemático encontro com o Rei Pelé, após um Paulistas 3x2 Cariocas

Uma das imagens mais compartilhadas por brasileiros nesta quinta-feira, diante da notícia da morte da Rainha Elizabeth II, mostra um encontro de realezas. A monarca britânica está na tribuna de honra do Maracanã, diante de Pelé, para entregar um troféu de campeão ao Rei do Futebol. O episódio aconteceu em 10 de novembro de 1968, no último dia da única visita realizada por Elizabeth ao Brasil. O Maraca estava entre os pontos turísticos que a ilustre viajante desejava conhecer. Acabou contemplada com um amistoso entre as seleções de São Paulo e da Guanabara, com 100 mil presentes nas arquibancadas. Viu os paulistas vencerem por 3 a 2 e, ao final, entregou a taça a Pelé, já consagrado mundialmente.

Segundo o relato dos jornais, aquela era apenas a primeira visita de Elizabeth II a um estádio fora do Reino Unido. A monarca estava acostumada a visitar Wembley em ocasiões solenes. Era ela quem entregava a taça ao campeão da Copa da Inglaterra desde 1953, enquanto também participou da abertura e da decisão do Mundial de 1966, oferecendo a Jules Rimet ao capitão Bobby Moore. O Maracanã tinha seu chamariz para atrair uma atenção especial da rainha em sua turnê por diferentes cidades brasileiras. Também existia o interesse de assistir a um jogo de Pelé, que pode não ter se sobressaído na Copa de 1966, mas cuja fama o precedia.

Elizabeth II seria ovacionada na tribuna de honra do Maracanã. Todas as ações da rainha, acompanhada por seu marido, o Príncipe Philip, eram registradas avidamente por fotógrafos e jornalistas – com amplos relatos sobre as reações da realeza nas páginas dos jornais do dia seguinte. A britânica chegou a ter “dois intérpretes de arquibancada”, que explicavam detalhes da torcida e também os modos brasileiros dentro de campo. O Príncipe Philip se espantou quando soube que os jogadores brasileiros só tinham 15 dias de férias e criticou o calendário. Já Elizabeth teria se animado quando soube que a festa ao redor do futebol também trazia elementos do Carnaval e das Festas Juninas como evento popular. A administração do Maracanã ofereceu uma placa comemorativa, enquanto o trono usado pela monarca se tornaria um dos itens do museu do estádio.

O confronto entre São Paulo e Rio de Janeiro já podia ser considerado uma tradição real. Quando o então Príncipe George (futuro rei e pai de Elizabeth) visitou o Brasil nos anos 1930, ele assistiu a um duelo entre as seleções locais. Viu os cariocas golearem por 6 a 1 os paulistas. O mesmo se repetiu em 1968, num duelo com apelo para apresentar uma constelação de craques à família real. Pelé era o grande chamariz, mas a seleção de São Paulo também reunia craques do porte de Carlos Alberto Torres, Clodoaldo, Rivellino, Rildo, Paulo Borges e Toninho Guerreiro. Do banco de reservas ainda vieram Dudu, Ademir da Guia, Leivinha e Edu. Não que a seleção da Guanabara ficasse para trás. A escalação incluía tricampeões do mundo como Félix, Brito, Gérson, Jairzinho, Roberto Miranda e Paulo Cézar Caju.

Os paulistas venceram por 3 a 2, mas com uma dose grande de sufoco. Orquestrados por grande atuação de Gérson, os cariocas perdiam chances e os rivais não deram bobeira quando Pelé aparou a bola de cabeça para Abel marcar o primeiro. A equipe ampliou no fim do primeiro tempo, num lançamento de Rildo para Pelé fuzilar. Elizabeth II aplaudia o Rei, que não estava em sua melhor forma física, mas continuava a imperar e marcava exatamente o gol de número 900 da carreira. Dentro de um ano, sairia o milésimo no mesmo palco. Já o desconto da Guanabara veio logo na sequência, com Roberto Miranda aproveitando um escanteio, e deixava o cenário aberto para o segundo tempo.

Os cariocas continuaram bombardeando a meta de Picasso. Porém, os paulistas marcaram antes o terceiro gol, num pênalti que Brito cometeu sobre Toninho Guerreiro, acionado por Ademir da Guia. Carlos Alberto converteu. O árbitro Armando Marques voltou a aparecer quando assinalou também outro penal para os anfitriões, em cima de Paulo Cézar Caju, em lance que rendeu a expulsão de Carlos Alberto por reclamação. O próprio Paulo César voltou a descontar. Na reta final, a expectativa ficou para o encontro do capitão Pelé com a Rainha Elizabeth II. E quase que dá errado. Depois que os alto-falantes do Maraca já tinham anunciado que o Rei subiria à tribuna de honra, Moreira mandou uma paulada de longe e carimbou o travessão de Picasso. Quase os cariocas empataram.

Pelé não foi sozinho se encontrar com Elizabeth. Gérson também o acompanhava como capitão dos cariocas e, segundo os relatos, até ensaiou algumas palavras em inglês, mas preferiu não arriscar. O encontro entre o Rei do Futebol e a Rainha da Inglaterra foi bastante simpático. No diálogo intermediado por intérpretes, quando o chefe do cerimonial apresentou Pelé, Elizabeth afirmou que “já o conhecia de nome” e que “estava muito feliz em cumprimentá-lo”. O camisa 10 se disse “emocionado por ter participado de um jogo diante da realeza” e ouviu da britânica que “a felicidade era dela”, com elogios à qualidade do jogo e à atuação do craque.

Neste momento, o protocolo foi quebrado. João Havelange, então presidente da CBD e ávido por assumir a Fifa, era o encarregado de entregar a taça. Os fotógrafos e o público presente pressionaram para que o cartola saísse de cena, entregando o troféu à Rainha. Elizabeth II, então, se encarregou de premiar o vencedor e deixou uma imagem eterna ao lado do Rei Pelé.

“Hoje vivo um dia de grande satisfação, porque tive a oportunidade de participar de um espetáculo inesquecível e, no final, de apertar a mão da Rainha Elizabeth, o que no final é privilégio de pouca gente no mundo inteiro. O Príncipe Philip é também uma simpatia e eu já o conhecia de outro acontecimento, tendo a ocasião de revê-lo no Maracanã”, comentou Pelé, na saída do estádio. “É mais uma para contar aos meus filhos, mais tarde, pois nunca tinha visto uma rainha de perto”.

Abaixo, o vídeo exibido pelo histórico Canal 100 em 1968, relatando a visita de Elizabeth II ao Maracanã e também apresentando os lances do jogo. Além disso, trazemos uma coleção de recortes de jornal da época – de Jornal dos Sports, Jornal do Brasil, O Globo e Folha de S. Paulo. Clique em “abrir a imagem em nova guia” para ampliar e, se necessário, delete os códigos à frente do formato da imagem, no endereço do navegador, para visualizar em tamanho máximo.

Jornal do Brasil
Jornal dos Sports
O Globo
O Globo
Jornal dos Sports
Jornal dos Sports
Jornal do Brasil
Jornal dos Sports
Jornal dos Sports
Jornal dos Sports
Jornal dos Sports
O Globo
O Globo
O Globo
Folha de S. Paulo
Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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