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Comissão de Arbitragem da CBF desafia nossa inteligência para negar o óbvio

A CBF gosta mesmo de questionar a capacidade do torcedor brasileiro. Ou melhor, se enganar que está fazendo isso, com argumentos vazios para problemas urgentes. A última ladainha foi protagonizada por Sérgio Corrêa. Em entrevista ao Sportv, o presidente da Comissão de Arbitragem resolveu se posicionar sobre os constantes erros protagonizados pelos homens do apito durante as últimas semanas. Preferiu adotar um discurso de negação. E, assim, tornar ainda pior uma situação que já estava patética.

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Para Corrêa, as soluções para a arbitragem brasileira não são o uso da tecnologia ou a profissionalização dos árbitros. Pontos até defensáveis, mas não de uma maneira tão risível como a feita pelo presidente. Mesmo sendo representante da entidade máxima responsável pela orientação dos árbitros no Brasil, o cartola preferiu se eximir da culpa e utilizou argumentos dignos de uma mesa de bar.

“Vai acabar com a discussão e o futebol vai ficar muito chato. Vai tornar o futebol mais justo, mas vai perder a graça. Neste sistema que o árbitro está enfrentando, se não tiver a tecnologia, não temos mais limites para tornar o árbitro mais respeitado”, declarou Corrêa, por mais incrível que pareça.

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Já sobre a profissionalização dos árbitros, o dirigente preferiu diluir as responsabilidades da CBF sobre a questão: “A questão da profissionalização traz outros problemas, a dimensão continental do País, a quantidade de árbitros disponibilizados para as competições. A CBF não tem árbitro, pega emprestado de outras federações e eles vêm de competições tecnicamente não tão fortes como o campeonato nacional”. O presidente da Comissão de Arbitragem também apontou a falta de dinheiro como um dos entraves, apesar da CBF ter chegado em 2013 a R$ 436 milhões de receita e R$ 55,56 milhões de lucro.

Se o nível técnico das competições abaixo do Brasileirão não é tão forte, a CBF também possui sua parcela de culpa, mas não é essa a questão. Não dá para varrer a sujeira para debaixo do tapete apenas pela quantidade de clubes e torneios profissionais no país. Ao menos os árbitros com a chancela da CBF no peito poderiam ter uma preparação melhor. Profissionalizá-los, é claro, teria um custo maior à entidade, mas significaria também uma melhora nas condições de trabalho. A tecnologia não ajuda em tudo, mas um trabalho técnico mais bem feito certamente aumentaria o nível da arbitragem. Mas parece oneroso demais mexer nos lucros.

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Já em relação à tecnologia, rebater o argumento de Corrêa é fácil demais. Afinal, é bem mais chato para o torcedor discutir, rodada a rodada, que seu time foi beneficiado ou prejudicado pela arbitragem. O Brasileirão de pontos corridos também está sendo o de pontos perdidos por decisões absurdas. Mas tentar reduzir a margem de falhas (nem que seja ao menos com a já testada tecnologia na linha do gol) ou a exposição dos árbitros a elas é, na verdade, um desrespeito a quem apita, segundo a linha de raciocínio do cartola. Para a CBF, parece melhor mesmo ficar estacionada na década de 1960 e deixar seu futebol refém dos próprios erros.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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