Brasil

Com a reposição de Léo Pereira e a renovação de Bruno Henrique, Flamengo amplia um mercado excepcional

Por muito tempo, o Flamengo se valeu de sua grandiosidade para ter algum apelo no mercado de transferências. A história do clube e o gigantismo da torcida eram diferenciais. Jogar no Maracanã lotado, mais ainda. O caminho poderia se abrir se o jogador em questão fosse rubro-negro na infância. No entanto, a situação financeira claudicante e a escassez de títulos pesavam contra. Ficava mais difícil abraçar a ideia quando a certeza de receber era posta em xeque (ou em cheque sem fundo) e quando a projeção nacional do Fla não se media no topo da tabela do Brasileirão. Estes tempos ficaram para trás. E o Fla realiza uma janela, até o momento, que se sugere impecável dentro das circunstâncias.

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Afinal, a história do clube e o gigantismo da torcida continuam ali. Entretanto, o Flamengo oferece também uma situação financeira forte, praticamente um oásis em comparação a outros clubes do Brasil. Melhor ainda quando isso une a possibilidade de se somar a um timaço já com lugar reservado numa prateleira especial do futebol brasileiro, por tudo o que fez em 2019. E que talvez se torne mais forte, para prolongar seu poderio. Com tudo isso em vista, fica bem mais atrativo beijar o escudo e realizar o sonho de criança. Compor o elenco do Fla, mesmo sem a certeza da titularidade, virou melhor opção que perambular por um mediano na Europa.

O Flamengo deu mais dois passos importantes para se fortalecer nas últimas 24 horas. A venda de Pablo Marí é sentida pelo encaixe da defesa, sobretudo pela capacidade tática que o espanhol adicionou ao time de Jorge Jesus. Todavia, os valores oferecidos pelo Arsenal tornavam o empréstimo um bom negócio, levando em conta vontade do Espanhol em tentar a sorte na Premier League. A quem chegou por €1,7 milhão como um tiro no escuro, ceder por seis meses a um retorno de €5 milhões já satisfaz. E, entre as reposições possíveis, Léo Pereira surge como uma das melhores.

A compra de Léo Pereira não é barata. O Flamengo pagará cerca de €7 milhões pelo ex-jogador do Athletico Paranaense. No entanto, traz um atleta às vésperas de completar 24 anos que possui características parecidas com as de Marí. O posicionamento também é uma marca do defensor, aliado à sua capacidade para sair jogando. Assim como o espanhol, Léo também é canhoto. E firma um conjunto que mantém a zaga rubro-negra bastante protegida, em trinca que ainda conta com as opções de Rodrigo Caio e Gustavo Henrique. Ajustes serão necessários, mas é um plantel melhor que o de 2019.

Já o outro negócio confirmado nesta quarta-feira passou abaixo do radar em meio às discussões sobre Gabigol, mas deveria ser tão comemorado e destacado quanto. A renovação de Bruno Henrique até 2023 não apenas afasta as possibilidades de uma possível venda em breve e garante um retorno maior, caso ela aconteça no futuro. A ampliação do vínculo reconhece o valor do atacante e aumenta sua posição na hierarquia da própria folha salarial do clube. A quem não ganhava tão bem quanto outros colegas quando chegou, conceder o aumento é o justo, diante da importância do ponta no ciclo vitorioso de 2019.

Apesar do elenco homogêneo do Flamengo, Bruno Henrique pode ser alçado ao posto de protagonista nas conquistas do Brasileirão e da Copa Libertadores. O que fez em grandes jogos e a maneira como chamou a responsabilidade fala por si. Ao lado de Gabigol, renova uma dupla que rendeu uma produção ofensiva espantosa à equipe de Jorge Jesus. E, até pela idade, parece mais propenso que seu companheiro de ataque a fixar a Gávea como sua casa e encabeçar o Fla sem a tentação de voltar à Europa.

Obviamente, montar um elenco tão forte não é necessariamente garantia de sucesso ao Flamengo, por mais que facilite bastante os objetivos do clube. Repetir o que aconteceu em 2019, e da maneira como aconteceu, é algo praticamente impossível. Mas os rubro-negros têm condições de fazer o que deveria ser visto sempre como foco do time: lutar pelo título do Brasileirão e levar quantas taças mais for possível. Pela história do clube e pela grandeza da torcida, é obrigação, por mais que a bagunça que perdurou por décadas não permitisse.

Jorge Jesus terá suas missões distintas em 2020, ao tentar tirar o mesmo de seus titulares, além de aproveitar ao máximo seus novos reforços. Alguns são apostas e, até por isso, há sempre a chance de que nem tudo dê certo. Da mesma maneira, gerir um elenco tão recheado se torna um desafio, já que a competitividade interna cresce e isso pode quebrar a homogeneidade do elenco. Mas é o tipo de problema que todo treinador gostaria de ter, especialmente quando há alternativas de mesmo nível em praticamente todos os setores e quando se cobre bem melhor os prováveis desfalques na sequência do ano – entre lesões e as cessões às seleções.

E vale enfatizar ainda a forma como o Flamengo fechou o seu elenco. Léo Pereira, Michael e o atacante Thiago vieram por €16 milhões, enquanto o empréstimo de Pedro custou mais €1 milhão. Thiago Maia e Pedro Rocha chegaram temporariamente sem custos, enquanto Gustavo Henrique assinou após o término do seu contrato com o Santos. As únicas cifras altas são os €17 milhões em Gabigol, um valor que (simbolicamente) até já se pagou em 2019. E que, afinal, parece mais afável quando se pensa que a venda de Reinier rendeu €30 milhões, por mais que fosse um jogador de futuro. Não é também que o Fla tenha quebrado a banca, quando os maiores gastos a se absorver estarão na folha de pagamentos.

Do que o Flamengo precisa resolver, em seu elenco, são minúcias – como um lateral direito à reserva de Rafinha, caso não aposte em Matheuzinho. E, um âmbito bem distinto, a maioria da torcida também espera que o clube cumpra logo sua obrigação com as famílias do Ninho do Urubu que ainda não foram indenizadas. Também existe uma exigência interna, inclusive dos próprios jogadores, para que o reconhecimento do trabalho dos funcionários através de premiações seja pago de maneira integral. Se há dinheiro em caixa, o clube também precisa saber que o futebol não é feito apenas por aquilo que se joga em campo. Futebol é feito de gente, e isso fica a outro texto oportuno.

De qualquer maneira, entre aquilo que se restringe ao campo, o Flamengo passou os últimos dias animando sua torcida. O elenco eternizado em 2019 leva a crer que pode se tornar ainda mais vitorioso em 2020, com tantas adições. O campo responderá. Mas a quem já viu Walter Minhoca e Rodrigo Arroz envergando a camisa, parece mesmo outra realidade presenciar mercados tão abastados, como já havia ocorrido na metade do último ano. O Flamengo passou a segurar jogadores com possibilidades na Europa e a buscar outros fora do país ainda com chance de desenvolvimento. Ao que historicamente vive o futebol brasileiro, parece uma outra realidade. Coloca, de fato, os rubro-negros em outro patamar.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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