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Clubes estão de olho no bilhete premiado dos Estaduais: duas Séries D de uma vez só

Para os clubes que travam há décadas uma batalha ingrata por algo banal, como um calendário que dure mais do que três meses por ano, os campeonatos estaduais de 2016 são um bilhete premiado. Por causa da mudança anunciada pela CBF, de que as vagas para a Série D conquistadas por meio dos regionais valeriam para a temporada seguinte do torneio nacional, não mais para a mesma em que eles foram disputados, ir bem no Paulista, no Pernambucano ou no Mineiro pode valer 18 meses de futebol contínuo a equipes que costumam viver de trimestres.

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O Campeonato Goiano adota essa prática desde o ano passado. O Goianésia e a Aparecidense já estão classificados para a quarta divisão desta temporada, assim como os quatro rebaixados da Série C (Águia de Marabá-PA, Madureira-RJ, Caxias-RS e Icasa-CE), os campeões estaduais de Amazonas, Tocantins e Amapá, e os vencedores de copas organizadas pelas federações para ocupar os clubes no segundo semestre, muitas delas deficitárias. Agora, com mais clubes garantidos previamente, a competição começará antes: em maio e não mais em julho.

Foi pensando nisso, em um raro período com muitos jogos para expor a marca de patrocinadores, arrecadar dinheiro com a venda de ingressos, mostrar os jogadores formados a mercados mais ricos, entre outras coisas, que o XV de Piracicaba aumentou em 12% a sua folha salarial e busca fazer um grande Campeonato Paulista. Até porque, desta vez, os seis piores times serão rebaixados para a Série A2.

“Houve um aumento relativo nos investimentos”, afirma o diretor de futebol do clube do interior de São Paulo, Renato Bonfiglio, em entrevista à Trivela. “Mas ainda estamos dentro do orçamento e não vamos estourá-lo. Esse (vaga na Série D) é o grande objetivo do clube já há alguns anos e nessa temporada ele seria mais do que bem-vindo. Ajuda no planejamento, permite que o clube tenha um calendário anual e ofereça contratos mais longos aos atletas”.

Acaba sendo esse o grande problema para as centenas de clubes que não estão nas três principais divisões do futebol brasileiro. Eles fazem contratos curtos com os jogadores, até o final dos estaduais. Ficam desprotegidos para manter os principais destaques longe do assédio de clubes mais poderosos, e caso não alcancem o acesso à Série C, o que apenas quatro equipes conseguem, frequentemente precisam começar tudo de novo às vésperas de mais uma temporada. “Os clubes do Brasil todo, do Nordeste, os pequenos e os médios, têm que mobilizar o efetivo e desmobilizar em seguida”, afirma o vice-presidente do América de Pernambuco, Celso Muniz Filho.

O América pernambucano, clube do ilustre escritor João Cabral de Melo Neto, já foi seis vezes campeão estadual e é considerada a quarta força do Recife, atrás dos três grandes do estado. Fechou as portas algumas vezes, nas décadas de sessenta e noventa, mas retornou à elite regional em 2010, caiu novamente em 2012, e desde o último acesso, se manteve às duras penas. Em 2014 e 2015, precisou disputar o hexagonal do rebaixamento e se salvou por detalhes.

A história desta vez é diferente e o investimento em categorias de base (disputa sub-15, sub-17 e sub-20) vem rendendo frutos. O América venceu o seu grupo na primeira fase do Pernambucano, e além de se classificar para o hexagonal final do estadual, também assegurou sua vaga na Série D. A grande contratação da temporada foi o experiente Carlinhos Bala, que estreou na quarta rodada com o gol da vitória sobre o Vitória-PE.

“Tivemos investimento em alguns atletas. Nossa folha (salarial) não é a maior do campeonato, mas também não é a menor. Usamos muitos jogadores da base”, continua Muniz Filho. “Em uma Série D, o menino tem condição de jogar com outros clubes, e nessa disputa nacional, mostrar o seu valor. É fundamental, bom para os clubes e bom para a CBF, que pode negociar melhor compra de passagens, de estadia de hotel e baixar o custo de investimentos”.

A determinação de classificar os clubes para a Série D do ano seguinte permite que eles planejem o ano inteiro, mas ainda causa um vácuo: depois de 2016, o elenco que foi bem no estadual terá que ser desmontado ou mantido na folha salarial para a disputa de torneios deficitários e amistosos. A alternativa seria emprestar os atletas, mas seria difícil achar clubes interessados e propensos a pagar o salário de todo mundo. “Você fica parado no segundo semestre de um ano que você foi bem”, afirma o vice-presidente Franco Martins. “Ter dois anos de Série D garantidos não é um atrativo muito grande. A Série D é muito deficitária”.

Franco Martins não fala da boca para fora. Em 2012 e 2013, a Caldense ganhou o direito de jogar a quarta divisão e abriu mão da vaga para não perder dinheiro. De acordo com o próprio Franco, que já era vice-presidente na época, custaria R$ 1 milhão. Nesta temporada, a vice-campeã mineira cedeu e foi longe na quarta divisão, mas caiu para o Ypiranga de Erechim, nos pênaltis, nas quartas de final. Ficou muito próxima do acesso. “Tem os dois lados da moeda. Eu vejo pra Caldense como ruim. Classifica para a Série D, só no outro ano. Você fica parado no segundo semestre de um ano que você foi bem. No outro ano, pode ser rebaixado no estadual e jogar a Série D”, explica.

O investimento da Caldense foi o mesmo para esta temporada porque o foco continua sendo o campeonato estadual, que ela busca vencer pela segunda vez (a primeira foi em 2002). Outros esforçaram-se um pouco mais, tanto dentro e fora de campo, para tentar garantir um calendário mais robusto para a sua torcida. A experiência de todos, porém, evidencia sem nenhuma dúvida o quanto é difícil a vida de clubes pequenos e médios para sobreviver nas divisões inferiores do futebol brasileiro, negligenciadas por uma CBF que se preocupa mais com Seleção, FBI e primeiras ligas.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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