Cléber Santana reencontrou na Chape o protagonismo que seu futebol cobrava
Maradona sumiu. O cachorro da raça Spitz Alemão desapareceu na noite de segunda-feira da semana em que Cléber Santana deveria enfrentar o Goiás, no Serra Dourada. Já na estrada, ele não podia ir às ruas com a lanterna na mão em busca do seu animal de estimação. Quem surgiu com a solução foi a Chapecoense: lançou uma campanha na internet para que os torcedores tentassem encontrar o Pibe canino. Funcionou: em questão de duas horas, a torcedora Michelle Fell estava com o bichinho em mãos, para alívio do pernambucano de Abreu e Lima, que recebeu mais de um tipo de ajuda em Chapecó.
Foi em Santa Catarina que o futebol de Cléber Santana renasceu e, nesta específica cidade do interior, que ele ganhou a chance de encerrar a sua carreira com o tipo de glória que a sua qualidade técnica exigia, mas poucas vezes alcançou. Era o capitão da Chapecoense e peça essencial do time treinado por Caio Júnior. Teria a missão de levantar o troféu da Copa Sul-Americana, em caso de vitória sobre o Atlético Nacional. Graças a um desastre aéreo, não teve a chance de descobrir se era realmente esse o final da história que o futuro lhe reservava.
Inspirado pelo tio Marlindo, ex-jogador do Santa Cruz, Cléber Santana começou muito cedo a carreira profissional de futebol. Aos 19 anos, já era campeão pernambucano pelo Sport. Conquistaria o bicampeonato, em 2003, antes de ser contratado pelo Vitória. Na Bahia, veio mais um título estadual. O ano seguinte foi a hora de fazer um pequeno pé de meia no futebol japonês, defendendo o Kashiwa Reysol.
Retornou ao Brasil em 2006 para viver seu auge técnico com a camisa do Santos. Foi uma peça importante no esquema de Vanderlei Luxemburgo entre 2006 e 2007, quando o Santos fez boas campanhas: conquistou duas vezes seguidas o Campeonato Paulista, chegou às semifinais da Libertadores e foi vice-campeão brasileiro. Jogou tão bem que chamou a atenção de clubes europeus. Acertou com o Atlético de Madrid. Era a hora de dar um passo à frente na carreira.
Mas a vida na Espanha teve os seus percalços, inclusive no âmbito social. Em , relatou que seu filho era alvo de racismo quando tentava brincar com outras crianças. “Eles não queriam brincar porque nosso filho era negro”, disse. Em campo, a coisa não andou muito bem. Fez 38 partidas na sua primeira temporada pelos colchoneros, sem fazer nenhum gol. Foi titular absoluto apenas na Copa do Rei e na Copa da Uefa. Emprestado ao Mallorca, teve mais destaque na temporada seguinte e voltou ao Vicente Calderón. Mais uma vez, não foi muito aproveitado e, em fevereiro, já era jogador do São Paulo.
Da passagem na Europa, fica na memória a semana em que marcou contra Barcelona e Real Madrid, em dois jogos seguidos, e essa pintura maravilhosa que anotou nos merengues:
O retorno ao Brasil foi complicado. Passou sem muito destaque por São Paulo, Atlético Paranaense e Flamengo, com uma escala no Avaí, quando conquistou seu sexto título estadual. Já era mais veterano, tinha mais de 30 anos, e deve ter sido o momento em que descobriu o conselho que passaria aos colegas de Chapecoense. “É complicado chegar lá em cima, mas para cair é num estalar de dedos”, disse, em entrevista ao Globo Esporte.
O circuito dos grandes clubes ficou para trás. Cleber Santana passou a ser um jogador de Santa Catarina. Depois do Flamengo, passou mais um ano Avaí, outro no Criciúma, e chegou à Chapecoense na metade de 2015. Liderou o clube na conquista do quinto título estadual, o sétimo da carreira do meia, que foi eleito o melhor jogador daquele Catarinense. Não faltaram troféus na sua carreira, mas o mais importante ainda estava por vir. Principalmente porque seria conquistado em um clube em que encontrou mais do que um cachorro, mas também o carinho para se sentir em casa.
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