Brasil

Claudiomiro precisou de pouco tempo para inaugurar uma era ao Inter e se colocar entre os maiores

O apelido dizia muito sobre o porte físico de Claudiomiro: era chamado de Bigorna. O rapaz robusto, porém, ia além do estereótipo do atacante que ganha todas no corpo. Sim, o tronco avantajado ajudava o gaúcho a peitar qualquer zagueiro, mas ele podia ainda mais. Sua explosão física, seus chutes potentes e seu faro de gol permitiram que caísse nas graças da torcida colorada desde cedo. Cedo suficiente para, aos 18 anos, anotar o primeiro gol da história do Beira-Rio. Cedo para ser considerado um dos maiores jogadores da história do Internacional, mesmo deixando o clube aos 24 anos, mas já hexacampeão estadual. Cedo para que, numa noite de sexta-feira, tenha partido desta vida aos 68 anos. Deixa familiares, amigos e uma lenda para ser exaltada sempre que possível pelos torcedores que o adoravam.

Claudiomiro se juntou ao Inter ainda na adolescência, válvula de escape à infância humilde em Canoas, época em que precisava trabalhar com uma carroça para ajudar no sustento de casa. Tinha apenas 13 anos quando ingressou nas categorias de base coloradas, após ser descoberto por um olheiro. E sua ascensão seria bastante precoce. A força física já fazia diferença desde esta idade, com o garoto pedindo passagem entre os profissionais. Estreou logo aos 16.

Também não demorou para que Claudiomiro tomasse a posição como titular, homem de referência na linha de frente dos gaúchos. Fez parte do time que terminou com os vices do Robertão em 1967 e em 1968. Já em 1969, aos 18 anos, anotou o gol que colocaria seu nome nos livros da história do clube. O Benfica era o desafiante no primeiro jogo do Beira-Rio. O cruzamento da esquerda foi desviado na área e a bola sobrou limpa ao matador. Uma cabeçada certeira e ponto, a gratidão era dele. Balançou as redes do Gigante de maneira inédita e abriu o caminho para a vitória por 2 a 1.

O gol marcante não apenas abria portas a Claudiomiro. Ele também inaugurava uma era vitoriosa ao Internacional, que passaria a se provar dentro o estádio. Passaram-se os anos de domínio do Grêmio no Campeonato Gaúcho. Começava a hegemonia colorada, já ao final daquele ano. Em dezembro de 1969, o clube reconquistou o estadual depois de sete anos, interrompendo o heptacampeonato tricolor. Mais do que isso, superaria a marca dos rivais, transformando-se em octacampeão. Claudiomiro seria fundamental em boa parte desta caminhada, participando de seis desses títulos. Seus gols ajudaram a elevar o Inter a um novo patamar.

Nesta época, o reconhecimento de Claudiomiro o levou à seleção brasileira. Fez sua estreia em julho de 1971, substituindo Tostão em amistoso contra a Tchecoslováquia. Disputou cinco partidas com a camisa amarela, todas realizadas naquele ano. Anotou um gol, definindo a vitória sobre o Paraguai em amistoso no Maracanã. E também enfrentaria o Brasil, no emblemático desafio que a seleção gaúcha fez aos tricampeões mundiais, depois que Everaldo havia se ausentado da convocação à Taça Independência. Diante de alegadas 110 mil pessoas no Beira-Rio, o atacante assinalou um dos tentos dos gaúchos no empate por 3 a 3 contra o esquadrão de Zagallo.

Já o Internacional, ao mesmo tempo em que empilhava taças no Gauchão, também formava o maior esquadrão de sua história. Ídolos eternos começavam a se juntar ao elenco, do prodígio Falcão ao renomado Figueroa. Enquanto isso, Claudiomiro simbolizava os colorados dentro de campo. O rapaz de origem simples, que agitava as arquibancadas com seus gols. Não foram poucos. Ao todo, o artilheiro balançou as redes 210 vezes, terceira maior marca da história colorada. Três de seus tentos serviram para decidir Gre-Nais. Tinha também a sua qualidade técnica, que combinava ao físico de pugilista. O problema é que logo sua virtude viraria um problema.

A balança se tornou inimiga de Claudiomiro. O excesso de peso atrapalhou sua sequência no Inter e abreviou o seu adeus. Em 1975, deixou o Beira-Rio e rumou ao Botafogo. Apenas de longe veria a afirmação do bicampeão brasileiro. Outros grandes centroavantes podem tê-lo sucedido, mas o carinho dos colorados por aquele prata da casa que iniciaria uma caminhada fascinante ficaria para sempre. Um ídolo que, mesmo sem estar presente nos maiores feitos daquela década, seguiu considerado entre os melhores. Prova disso veio em uma eleição feita pela revista Placar em 2000, sobre os maiores atletas do século em cada clube. Bigorna ficou em oitavo na lista, à frente de Flávio Minuano e Dadá Maravilha.

O final de carreira de Claudiomiro também foi precoce. Depois do Botafogo, passou ainda por Flamengo e Caxias, antes de retornar ao Internacional em 1979. No mesmo ano, partiria ao Novo Hamburgo, onde pendurou as chuteiras. Tinha apenas 29 anos. O excesso de peso cobrou o seu preço e impediu que o centroavante fizesse mais. De qualquer forma, o seu legado não poderia ser apagado. Ficou a lembrança da cabeçada notável, a alegria pelas taças empilhadas e a identificação por aquilo que o gaúcho representou aos colorados. Vez ou outra, ainda voltava ao Beira-Rio para se sentir em casa e receber aplausos. Uma época que mudou os rumos do Internacional teve seu marco inicial graças àquele garoto robusto e insaciável diante do gol.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo