Brasil

Ceni expõe o ídolo à profissão de técnico, mas sabe que pode contar com o amor da torcida

Os “sinos do inferno” anunciaram: Rogério Ceni é o novo técnico do São Paulo. A bola que estava sendo cantada há semanas foi anunciada oficialmente nesta quinta-feira, com um vídeo embalado por Hells Bells, do AC/DC, a música que o capitão escolhia para tocar no Morumbi quando o time subia ao gramado. Ceni terá o desafio de tirar o Tricolor da mistura de marasmo com crise em que o clube entrou nos últimos anos.

LEIA MAIS: São Paulo demite Ricardo Gomes em momento inadequado, que deixa o time como o encontrou

Uma missão difícil, que expõe seu status de ídolo incontestável à difícil profissão de treinador, mas não vamos exagerar. A não ser que seu trabalho seja realmente desastroso, por exemplo, com o inédito rebaixamento à segunda divisão, ou uma briga pública sem precedentes com a torcida, não será mais uma campanha medíocre que fará a maioria dos são-paulinos esquecer todos os gols e defesas que Rogério Ceni realizou pelo São Paulo. É necessário, da diretoria e do técnico, inteligência para evitar os grandes desgastes e, se for o caso, sair na hora certa e sob as circunstâncias certas. Mas este é apenas o pior cenário possível. Pode ser diferente disso.

As taças que ele levantou com o próprio braço compram tolerância. Se ele quer ser técnico, que seja no São Paulo e vamos ver o que acontece, pensa a maioria da torcida. Evidentemente, um ou outro tricolor, que já era predisposto a não gostar tanto de Rogério Ceni, se é que isso existe, pode aproveitar a oportunidade para sair da toca. No geral, porém, feridas que emergirem durante uma sequência ruim de resultados serão eventualmente curadas. Renato Gaúcho saiu duas vezes do Grêmio nessas circunstâncias, voltou e está prestes a ser campeão da Copa do Brasil, nos braços da torcida. Falcão tem três passagens ruins pelo Internacional e não deixou de ser o maior ídolo da história do clube.

Além disso, Ceni tem dois grandes álibis para se apoiar no começo do trabalho. Disputará apenas o fraco Campeonato Paulista e as primeiras fases da Copa do Brasil no primeiro semestre, com pelo menos dois dos outros três grandes do estado prestando mais atenção à Libertadores. E assume um elenco enfraquecido, depois de um ano muito ruim dentro de campo, ambos resultados de erros administrativos da diretoria. É notório que o trabalho de qualquer treinador no Morumbi, mesmo do mais experiente, não seria realizado em condições ideais. Ao mesmo tempo, atualmente, é mais difícil piorar a equipe do São Paulo do que melhorá-la.

Ceni tem capacidade para ser um bom treinador? Sua carreira como líder, eventualmente até mesmo dando palpites sobre táticas, e a lucidez nas entrevistas indicam que sim. A questão é se Ceni tem condições de assumir um grande clube, depois de um ano sabático e alguns meses estudando na Europa. Para o bem dele e do clube, ainda acho que ele deveria testar seus conhecimentos na prática em outro lugar antes de encarar esse maior desafio. Mas teve a autoconfiança necessária para achar que já estava na hora de começar a nova carreira diretamente nos grandes palcos. E terá Pintado ao seu lado, profissional que nunca conquistou grandes feitos, mas passou por vários clubes e adquiriu uma boa experiência em mais de dez anos de carreira.

A diretoria do São Paulo, por sua vez, encontra o melhor dos escudos. Depois de Juan Carlos Osorio, Edgardo Bauza, Doriva e Ricardo Gomes, que não foram escolhas necessariamente ruins – exceto a do Doriva -, principalmente as duas primeiras, mas que realizaram trabalhos contestáveis, ninguém, a princípio, será contra Rogério Ceni. Nem mesmo os eleitores da próxima eleição presidencial do clube, no próximo mês de abril. Cria-se uma notícia positiva e um clima de esperança para a torcida, duas coisas que passaram longe do Morumbi em tempos recentes.

Uma vez anunciado, Rogério Ceni precisa do mesmo que qualquer treinador: paciência e respaldo para desenvolver o seu trabalho por pelo menos uma temporada. Seu próprio contrato, segundo o Globo Esporte, indica isso: se no segundo ano do vínculo, ele não tiver atingido objetivos estabelecidos pela diretoria, não há multa rescisória para mandá-lo embora. Se ele os alcançar, recebe aumento salarial.

É normal o torcedor são-paulino estar desconfiado e até mesmo com um pouco de medo do que pode vir pela frente. Mas o medo bom: com todos os riscos e todos os argumentos contra, é emocionante ver o maior ídolo do seu clube retornar como treinador. E se der certo? Se der certo, Rogério Ceni ganhará status messiânicos dentro do São Paulo – e ele achou que a aposta valia a pena.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo